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Doenças uterinas em vacas de leite - Parte 1

POR RICARDA MARIA DOS SANTOS

E JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

JOSÉ LUIZ M.VASCONCELOS E RICARDA MARIA DOS SANTOS

EM 20/07/2010

10 MIN DE LEITURA

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Este texto é parte da palestra apresentada por José Eduardo Portela Santos, no XIV Curso Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2010.


Introdução

As doenças que afetam o trato reprodutivo de vacas leiteiras no início da lactação influenciam não somente o desempenho reprodutivo, mas também aumentam o risco de outras doenças do periparto como cetose e deslocamento do abomaso, e reduzem a produção de leite nos primeiros meses pós-parto. Sabe-se hoje que há uma associação entre ingestão de matéria seca (MS) no final da gestação, estado imunológico da vaca, e risco de ocorrência de doenças uterinas no início da lactação. Entretanto, ainda não se estabeleceu se essas associações são decorrentes de uma relação de causa-efeito. É bem provável que o risco de retenção de placenta, metrite puerperal aguda, metrite pós-parto, e endometrites sejam, de alguma maneira, influenciadas pelo estado imunológico sistêmico e local do útero da vaca.

De maneira geral, as patologias uterinas mais comumente diagnosticadas são classificadas de acordo com o período pós-parto quando a doença é diagnosticada, o comprometimento local ou sistêmico, os tecidos acometidos, e com a severidade clínica. Independente da classificação da doença, elas estão todas inter-relacionadas, ou seja, a ocorrência de retenção de placenta aumenta o risco da incidência de metrites, as quais subsequentemente também aumentam o risco da incidência de endometrites.

Independente da doença uterina, o desafio enfrentado pelo produtor de leite e pelo técnico é estabelecer programas de prevenção, diagnóstico, e tratamento dessas enfermidades para que tanto a incidência e prevalência sejam reduzidas, mas também para que o impacto tanto no aspecto reprodutivo e produtivo do rebanho seja mínimo. Como o tecido uterino tem grande capacidade de recuperação clínica, não é incomum o uso de terapias empíricas para o tratamento dessas doenças.

De maneira geral, o uso de terapias para enfermidades que acometem o útero têm como objetivos resolver a doença clínica e o risco da vaca desenvolver outras doenças ou até mesmo morrer, portanto, melhorar o bem estar animal, restabelecer a saúde do trato reprodutivo, minimizar o impacto na produção de leite, e fazer com que a vaca se torne gestante no período pós-parto desejado. Práticas que resultam na obtenção de um ou mais destes resultados são, de maneira geral, justificadas. Entretanto, programas que não conseguem atingir estes objetivos são de validade questionável e devem ser alterados ou interrompidos.

Retenção de Placenta

Retenção de placenta é a falha na expulsão das membranas fetais nas primeiras 12 a 24 h após o parto. De maneira geral, a maioria dos estudos epidemiológicos que avaliaram a incidência de retenção de placenta em vacas leiteiras usam como critério para seu diagnóstico a presença das membranas fetais no dia seguinte após o parto. Aproximadamente 9% das vacas leiteiras que parem apresentam retenção de placenta. O fator predominante é a inabilidade do tecido uterino em separar a conexão fetal da materna no placentoma. Acredita-se que o sistema imunológico inato, aquele que é caracterizado por responder a estímulos de maneira inespecífica, tem papel crítico na separação do cotilédone das carúnculas maternas e na expulsão da placenta. A redução na atividade de neutrófilos e a supressão da resposta imune no período pré-parto parece ser um componente importante na etiologia da retenção de placenta.

A retenção de placenta está associada com a falha na dissolução do colágeno entre o cotilédone e a carúncula (Eiler e Hopkins, 1992). A redução na atividade fagocítica e na capacidade de neutrófilos em promover seu metabolismo oxidativo para matar agentes reconhecidos como estranhos nas últimas semanas de gestação está associada com o risco de retenção de placenta (Gunnink, 1984; Kimura et al., 2002). A falta de contrações uterinas, ao contrário do que muitos acreditam, não parece ser um fator etiológico importante da retenção de placenta em vacas leiteiras.

Apesar disso, contrações miometriais fortes ainda são importantes para a separação dos vilus cotiledonários da carúncula já que essas contrações separam o tecido materno do fetal. Parto distócico com enfraquecimentos das contrações miometriais e hipocalcemia podem dificultar a expulsão da placenta. Dor e respostas de estresse com liberação de endorfinas e catecolaminas associadas a distocia podem reduzir a motilidade uterina. A ativação de receptores beta-adrenérgicos do miométrio pelas catecolaminas causam seu relaxamento e impedem as contrações uterinas (Bulbring e Tomita, 1987). Portanto, é possível que em situações de estresse e dor exacerbada durante o parto, a liberação de catecolaminas adrenais possa relaxar o útero e, consequentemente, reduzir sua capacidade de evacuação do conteúdo uterino, incluindo a placenta.

Abortos, partos gemelares, natimortos, distocia, cesarianas, fetotomias, e hipocalcemia estão todos associados à aumento no risco da retenção de placenta. Vacas multíparas têm maior risco de retenção de placenta que as primíparas.

De maneira geral, a retenção de placenta é, até certo ponto, um indicativo de problemas no programa de manejo da vaca de transição. Seu impacto na saúde da vaca pós-parto pode variar desde nenhum, ou seja, não alterar o risco da ocorrência de outras doenças, a produção de leite e a reprodução (Goshen e Shpigel, 2006). Entretanto, a retenção de placenta se torna importante ao determinar o desempenho reprodutivo de vacas de leite quando ela leva a maior incidência de metrites e endometrites.

Fourichon et al. (2000) observaram que vacas com retenção de placenta tiveram uma taxa de prenhez 16% mais baixa que vacas sem retenção de placenta. Isso significa que vacas com retenção de placenta se tornaram gestantes com uma velocidade 16% menor que vacas sem retenção de placenta. De maneira geral, essa redução na taxa com que as vacas se tornam gestantes é decorrente do aumento no risco de metrites e endometrites.

Perda de produção de leite parece estar associada com a ocorrência ou não de metrite subsequente a retenção de placenta (Fourichon et al., 1999). Goshen e Shpigel (2006) observaram que tanto as vacas primíparas como as multíparas que sofreram de retenção de placenta produziram menos leite durante toda a lactação que as que não sofreram de retenção de placenta. O interessante é que o tratamento desses animais com retenção de placenta com 5 g tetraciclina na forma de bolus intrauterino duas vezes por 2 semanas não minimizou a perda de produção de leite das vacas afetadas com retenção de placenta. Primíparas e multíparas com retenção de placenta tiveram uma queda de produção de, respectivamente, 412 e 537 kg de leite corrigido para 305 dias comparadas com vacas sem retenção de placenta.

Apesar das perdas de produção e aumento no risco de incidência de metrite, a retenção de placenta por si só não parece aumentar o risco da vaca ser descartada nos primeiros meses pós-parto (Grohn et al., 1998).

A remoção manual da placenta não é algo recomendado. Não há evidência alguma que a remoção manual da placenta nos primeiros dias pós-parto traga algum benefício para a vaca de leite (Drillich et al., 2006a). De fato, há evidências de que essa técnica pode ser deletéria à saúde da vaca (Bolinder et al., 1988).

O uso de prostaglandinas, fontes de estrógenos como o cipionato de estradiol, e a ocitocina são de resultado controverso. Há pouca indicação que o uso desses hormônios aceleram o processo de expulsão da placenta, reduzam o risco de metrite, e melhoram o desempenho reprodutivo de vacas leiteiras. Tratamento com prostaglandina antes da 3ª semana pós-parto não reduziu o risco de endometrites ou aumentou a taxa de prenhez em vacas de leite (Kristula et al., 1998; Hendricks et al., 2006). Tratamento de vacas de alto risco a apresentarem metrite, como aquelas com distocia, partos gemelares, natimortos, retenção de placenta, e febre do leite, com 4 mg de cipionato de estradiol reduziu a incidência de metrite em vacas de leite (Overton et al., 2003).

De maneira similar, Wagner e colegas (2001) também observaram que o uso profilático de 4 mg de cipionato de estradiol para vacas recém-paridas não reduziu o risco de metrite. Uma revisão extensiva da literatura sobre o uso de terapias hormonais para o tratamento e prevenção de doenças uterinas deixou claro que o uso de prostaglandinas, ocitocina e estrógenos para o tratamento de doenças uterinas, incluindo a retenção de placenta, nos primeiros 10 dias pós-parto tem pouca validade clínica (Frazer, 2001). É por isso que é bastante comum ouvir de veterinários e produtores que se a vaca receber terapia para retenção de placenta, esta será expulsa em 7 dias. Caso ela não receba terapia alguma, a placenta será expulsa em 1 semana!

Cerca de 50 a 80% das vacas diagnosticadas com retenção de placenta e não tratadas com antibióticos apresentam pelo menos 1 dia de febre (temperatura retal > 39,5 oC) nas primeiras 2 semanas pós-parto (Drillich et al., 2003, 2006b). Não está claro se essas vacas se beneficiariam de tratamento sistêmico ou intra-uterino com antibióticos.

Tratamento com bolus intrauterino contendo 5 g de tetraciclina duas vezes por semana por 2 semanas não melhorou o desempenho reprodutivo ou produtivo de vacas de leite diagnosticadas com retenção de placenta (Goshen e Shpigel, 2006). Drillich e colaboradores (2006) utilizaram 3 estratégias terapêuticas para o tratamento da retenção de placenta em vacas de leite em 5 rebanhos leiteiros. Um grupo permaneceu como controle negativo, o qual não recebeu terapia alguma para a retenção de placenta, mas foi tratado com ceftiofur caso a vaca apresentasse febre. Os outros 3 grupos foram submetidos a um dos seguintes tratamentos: remoção manual da placenta; uso de uma combinação de 1 g de ampicilina e 1 g de cloxacilina na forma de bolus intrauterino por 3 dias consecutivos; e a combinação dos dois tratamentos (remoção manual + antibiótico intrauterino). O uso da combinação de antibióticos e não a remoção da placenta reduziu o risco de febre nos primeiros 10 dias pós-parto. Entretanto, nenhum dos tratamentos melhorou a probabilidade de prenhez à primeira inseminação (IA) pós-parto ou o intervalo entre o parto e prenhez (Drillich et al., 2006a).

Risco e Henandez (2003) avaliaram 3 terapias distintas em 97 vacas com retenção de planceta. No grupo 1, as vacas foram tratadas com 2,2 mg/d de hidrocloreto de ceftiofur por 5 dias; no grupo 2, elas foram com uma única injeção de 4 mg de cipionato de estradiol; no grupo 3, as vacas permaneceram como controles e não receberam terapia para retenção de placenta. A incidência de metrite foi reduzida nas vacas tratadas com ceftiofur (13%) comparada com as controles (42%) ou aquelas tratadas com estradiol (42%). A involução uterina não foi alterada, mas a taxa de prenhez foi reduzida para as vacas recebendo cipionato de estradiol.

Na tabela 1 estão os resultados de 5 estudos onde o efeito de distintos tratamentos para retenção de placenta foram avaliados relativos à probabilidade de prenhez à primeira IA pós-parto e o intervalo entre o parto até a nova prenhez. Em todos eles, os diversos tratamentos não melhoraram a prenhez à 1ª IA ou a taxa de prenhez avaliada pelo período de serviço. Em um deles, o uso de cipionato de estradiol reduziu a taxa de prenhez quando comparado com vacas com retenção de placenta que permaneceram como controles não tratadas.

Tabela 1. Estudos avaliando o uso de antimicrobianos para a terapia de retenção de placenta sobre o desempenho reprodutivo de vacas de leite



De maneira geral, a terapia recomendada para vacas com retenção de placenta é a de monitorá-las e tratá-las de maneira seletiva ao apresentarem outros sintomas como febre ou inapetência. A escolha do tratamento ainda é discutível, mas ela envolve o uso de antimicrobianos de aplicação sistêmica ou intra-uterina.

Como a retenção de placenta tem causa multifatorial e, até certo ponto, não completamente esclarecida, a sua prevenção requer a implementação de programas nutricionais e de saúde da vaca de transição. De maneira geral, o objetivo é melhorar a competência imunológica da vaca e evitar o estresse. Outras medidas como higiene e técnica durante a assistência ao parto não devem ser ignoradas. Uma das medidas que tem eficácia comprovada na prevenção da retenção de placenta é a suplementação com quantidades adequadas de vitamina E e selênio.

Nos EUA, o limite legal para suplementação com selênio é de 0,3 mg/kg de dieta e na União Européia, a concentração máxima de selênio na dieta não pode ultrapassar 0,5 mg/kg. De maneira geral, é recomendável que a vaca de leite nas últimas 4 semanas pré-parto consuma cerca de 5 mg de selênio por dia. Além disso, elas devem receber entre 1.000 a 3.000 unidades internacionais de vitamina E na dieta.

O objetivo é que a concentração de vitamina E no sangue esteja acima de 3 µg/mL. Além dessas medidas, o balanço mineral da dieta para prevenção da hipocalcemia pode ser importante. Vacas com retenção de placenta têm concentrações séricas de Ca mais baixas que vacas sem doença uterina (Melendez et al., 2004). Apesar da administração de cálcio via oral a vacas de leite com retenção de placenta não reduzir o risco de metrite (Hernandez et al., 1999), a prevenção da hipocalcemia clínica e subclínica influencia a resposta imunológica e é tida como uma das medidas para melhoria da saúde uterina.

RICARDA MARIA DOS SANTOS

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia.
Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu

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TIAGO CONRAD

ARROIO DO MEIO - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 26/08/2010

Olá Doutores! Gostaria de saber o o que os senhores pensam sobre o uso de levamisol, na dosagem imunoestimulante, no pré-parto, na tentativa de aumentar a imunidade inata da vaca no momento do parto, como um dos métodos de prevençao da retençao de placenta? Desde já muito obrigado!
RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 09/08/2010

Prezada Hellen Gonçalves Ferrão,
O uso de fontes de estrógenos como o cipionato de estradiol e a ocitocina são de resultado controverso. Existem poucas evidências de que o uso desses hormônios aceleram o processo de expulsão da placenta, reduzam o risco de metrite, e melhoram o desempenho reprodutivo de vacas leiteiras.
Obrigada pela participação!
Ricarda.
HELLEN GONÇALVES FERRÃO

GOIÂNIA - GOIÁS - MÉDICO VETERINÁRIO

EM 06/08/2010

Gostei muito da palestra, mas queria ser esclarecida quanto ao uso de ocitocina e estrógenos nas primeiras horas pós-parto. Realmente é ou não eficaz para prevenção de retenção de placenta?


Obrigada
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