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Deslocamento de abomaso: diagnóstico e tratamento

POR RENATA DE OLIVEIRA SOUZA DIAS

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/05/2001

6 MIN DE LEITURA

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Atualizado em 29/12/2020

O deslocamento de abomaso é um problema cada vez mais prevalente nos rebanhos especializados em todo o mundo. Na doença, conforme o próprio nome indica, o abomaso é deslocado de sua posição normal no soalho abdominal.

 

Como acontece o deslocamento de abomaso?

Os pré-requisitos para o deslocamento de abomaso são o aumento da produção de gás e a redução do tônus no abomaso. O deslocamento pode ocorrer para a esquerda ou para a direita, sendo mais comum o deslocamento para a esquerda, onde o abomaso se movimenta de sua posição normal, no lado direito ventral do abdômen, para o lado esquerdo (Figura 1).

Figura 1. Desenho esquemático do deslocamento de abomaso para a esquerda, quando o abomaso assume uma posição anormal ficando entre o rúmen e a parede do abdômen.
 

Existem várias teorias que justificam esta mudança de posição, dentre as mais citadas:

  • queda na ingestão de matéria seca (causada, por exemplo, pela metrite, mastite, etc.);
  • acetonemia;
  • consumo de dietas com grande quantidade de grãos e baixa quantidade de fibra efetiva;
  • mudanças drásticas na dieta;
  • partos gemelares;
  • hipocalcemia;

Perante todos os aspectos negativos desse problema para a atividade leiteira, muitos trabalhos de pesquisa tentam elucidar os fatores que determinam o aumento de sua incidência. Desta forma, observou-se em alguns trabalhos que o problema possui uma moderada herdabilidade (24 a 28%), ou seja, o deslocamento de abomaso pode ser reduzido pela seleção genética.

Dados de pesquisa sugerem também que a cetose subclínica é um fator predisponente para o deslocamento de abomaso, e consequentemente, prevenindo-se a cetose subclínica pode-se reduzir a ocorrência do deslocamento. Na sequência desse raciocínio, os parâmetros metabólicos podem auxiliar na previsão da ocorrência do deslocamento de abomaso.

Foi determinado que o Betahidroxibutirato (BHBA) e o Aspartato-aminotransferase (AST) aumentam significativamente na primeira e segunda semana pós-parto nas vacas que apresentarão um deslocamento de abomaso em cerca de 10 a 15 dias depois. Já os níveis de Glicose são mais baixos na segunda semana após o parto em vacas que irão apresentar o deslocamento. 

Foi observado, ainda, que de uma a três semanas antes da ocorrência do deslocamento a produção de leite diária e a percentagem de proteína no leite estão reduzidas. Em contrapartida, a percentagem de gordura no leite e a relação gordura/proteína no leite encontram-se elevadas. Desta forma, quando a relação gordura/proteína no leite for maior ou igual a 1,4, de cada um em dois casos observados esta relação, será diagnosticado um deslocamento de abomaso, cerca de 7 a 20 dias depois.
 

Quais os sinais clínicos do deslocamento de abomaso?

O animal com deslocamento de abomaso apresenta:

  • Súbita diminuição do apetite
  • Apatia
  • Desidratação
  • Isquemia periférica
  • Diarreia

A ocorrência do deslocamento está associada a quadros agudos de metrite, cetose, laminite e mastite no pós-parto.

 

Como identificar o deslocamento de abomaso?

Um dos maiores entraves da doença é a dificuldade do diagnóstico; muitas vezes, por desconhecer o problema, são atribuídos outros diagnósticos, tais como: retículo-peritonite, indigestão vagal, intoxicação, acidose, cetose etc.

É importante que os técnicos que trabalham com gado de leite dominem a técnica de diagnóstico (percussão, auscultação e sintomatologia clínica). Mas, todavia, deve-se suspeitar da doença sempre que o animal não reaja ao tratamento para a cetose.

 

Perdas econômicas em decorrência

O deslocamento de abomaso causa perdas econômicas significativas advindas dos custos de tratamento, descarte do leite, redução na produção de leite e aumento do descarte involuntário. Na lactação em que há a ocorrência do deslocamento de abomaso as perdas podem alcançar de R$ 400,00 a R$ 800,00, dependendo da técnica utilizada para correção do problema. Estima-se uma incidência de 2 a 5% do deslocamento de abomaso no rebanho leiteiro Norte Americano.

Gráfico 1. Redução na produção de leite devido a desordens do peri-parto

Gráfico 1


Como é feito o tratamento do deslocamento de abomaso?

Existem vários tipos de tratamentos corretivos. Este fato causa dúvida e atraso no momento de definir qual é a melhor alternativa para salvar o animal. Apesar da cirurgia corretiva ser a técnica mais recomendada, não há todavia um protocolo padrão, seguido por todos os veterinários.

O trabalho de pesquisa descrito a seguir ilustra perfeitamente esta variedade de tratamentos que não seguem um padrão específico: Sintoma X Tipo de Tratamento.

Foi realizada uma pesquisa na Suécia que objetivou elucidar os efeitos do tipo de tratamento realizado para o deslocamento de abomaso. O estudo foi conduzido em muitas fazendas e os tipos de tratamentos utilizados foram os procedimentos escolhidos pelo veterinário de cada região. A tabela 1 evidencia os diferentes tipos de tratamento e os resultados obtidos.

Tabela 1. Métodos de tratamento e percentagem de recuperação nos 470 casos avaliados de deslocamento de abomaso para a esquerda e para a direita.

Dentre os casos avaliados, 80,2% foram de deslocamento para a esquerda e apenas 19,8% para a direita. Esses números estão de acordo com várias literaturas sobre o assunto que determinaram que a proporção entre os casos gira em torno de 70 a 90% de deslocamentos para a esquerda e 10 a 30% de deslocamentos para a direita.

Em mais de 50% dos casos, os sintomas surgiram entre o dia do parto e duas semanas após o parto. Dentre as vacas estudadas acometidas com deslocamento do abomaso: 10,3% apresentaram partos gemelares; 74% apresentaram pelo menos uma outra doença, sendo que a relação encontrada entre as principais desordens foi destacada abaixo:

Na lactação subsequente à ocorrência do deslocamento de abomaso, 64,2 % dos animais acometidos foram removidos dos rebanhos, sendo que aproximadamente 50% destes casos foram atribuídos à ocorrência do deslocamento. Dentre as vacas que permaneceram no rebanho, 89% pariram novamente, sendo que o período de serviço foi 13 dias mais alto quando comparado com as demais vacas do rebanho.

Os dados deste trabalho apontaram que o método de rolagem apresenta uma taxa de recuperação muito inferior quando comparado aos métodos cirúrgicos, fato este que também foi observado em outros trabalhos que relatam taxas de recuperação de 25 a 40% nas vacas submetidas à rolagem contra 73 a 100% nas vacas submetidas à laparoscopia com omentopexia. Além disso, sabe-se que a rolagem, na maioria das vezes, apenas adia a necessidade da cirurgia corretiva.

 

Cirurgia de deslocamento de abomaso

Embora os dados deste trabalho tenham indicado resultados semelhantes entre a omentopexia e a abomasopexia, o próprio autor destaca que outros estudos observaram piores resultados no método da abomasopexia quando comparado à correção cirúrgica com omentopexia. Animais submetidos à omentopexia apresentam uma recuperação mais rápida que os submetidos à abomasopexia.

Em última análise, vale a pena incentivar a importância do correto diagnóstico do deslocamento de abomaso, destacar a relevância da administração endovenosa de glicose e cálcio, e, finalmente, estimular que os veterinários realizem a cirurgia corretiva para salvar os animais.

Referências:

STENGÄRDE, L.U., et al. Effects of management, feeding, and treatment on clinical and biochemical variables in cattle with displaced abomasum. Am. J. Vet. Res., v. 63, n.1, 2002.

DAWSON, L. J., E. P. AALSETH, L. E. RICE, AND G. D. ADAMS. Influence of fiber form in a complete mixed ration on incidence of left displaced abomasum in postpartum dairy cows. J. Am. Vet. Med. Assoc., v.200, p.1989, 1992.

GEISHAUSER T. Abomasal displacement in the bovine - a review on character, occurrence, aetiology and pathogenesis. Zentralbl Veterinarmed [A], v.42, p.229-251, 1995.

CAMERON, R.E.B. et al. Dry cow diet, management and energy balance as risk factors for displaced abomasum in high production dairy herds. J. Dairy Sci. v.81, p.132-139, 1998.

The Bovine Practitioner, v.34, n.1, p.51-55, 2000

RENATA DE OLIVEIRA SOUZA DIAS

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IRALDO CEZAR GAVA CANELLA

COTIA - SÃO PAULO

EM 12/11/2013

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