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Produção de leite, balanço energético negativo e fertilidade em vacas leiteiras - Parte 1

POR RICARDA MARIA DOS SANTOS

E JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

JOSÉ LUIZ M.VASCONCELOS E RICARDA MARIA DOS SANTOS

EM 22/04/2008

6 MIN DE LEITURA

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Este texto é parte da palestra apresentada por Dr. Ron Butler, no XII Curso de Novos Enfoques na Reprodução e Produção de Bovinos, realizado em Uberlândia em março de 2008.

Mensagens mais importantes deste texto:

• O balanço energético negativo no início da lactação é o principal fator nutricional relacionado à baixa fertilidade das vacas leiteiras em lactação.

• O balanço energético negativo atrasa a recuperação da função reprodutiva no pós-parto e exerce efeitos persistentes, que reduzem a fertilidade no período de cobertura.

• Estratégias de alimentação, nutrição e saúde das vacas em lactação voltadas ao melhor desempenho reprodutivo devem começar no período de transição e continuar até o início da lactação.

• É fundamental manter o consumo energético do período pré-parto até a parição e aumentar o consumo rapidamente no período posterior para reduzir o balanço energético negativo e os efeitos prejudiciais nas funções ovariana e hepática.


Introdução

Nas últimas décadas, grandes aumentos na capacidade de produção de leite entre as vacas leiteiras estiveram associados à queda na fertilidade. A taxa de concepção em grandes rebanhos leiteiros comerciais varia entre 25-40% para vacas, em comparação a mais 65% para novilhas. Essas diferenças em indicam que a fertilidade cai a cada parição.

O início da lactação está associado a um período prolongado de balanço energético negativo (BEN) durante o qual o consumo de energia é inferior às exigências energéticas envolvidas no rápido aumento da produção de leite. O BEN geralmente inicia alguns dias antes da parição, à medida que a ingestão diminui, e torna-se visível e aparente durante o início da lactação, devido a perda na condição corporal.

Dependendo da duração do período voluntário de espera em questão, muitas vacas podem ainda apresentar BEN na primeira IA. Em relação ao tempo entre retorno a ciclicidade e a IA, há uma associação positiva entre a taxa de concepção e o início dos ciclos ovulatórios no pós-parto. A taxa de concepção aumenta sucessivamente ciclo após ciclo e isso talvez justifique os melhores níveis plasmáticos de progesterona no início dos ciclos pós-parto. Juntas, essas importantes relações chamam nossa atenção para a extensão da condição de BEN que controla o momento da primeira ovulação pós-parto e seus efeitos na fertilidade posterior, na fase reprodutiva.

Retomada da ovulação em vacas no pós-parto e sua relação com o BEN

Ao considerarmos os fatores que afetam a capacidade das vacas de emprenharem novamente no início da lactação, é importante compreendermos que todos os órgãos associados à reprodução devem se recuperar da prenhez e do parto:

Ovário

• Os níveis elevados de hormônios produzidos no final da prenhez suprimem a atividade ovariana. Após o parto, todo o desenvolvimento folicular deve ser restabelecido, levando à primeira ovulação e aos ciclos estrais.
• Os oócitos no interior dos folículos devem permanecer saudáveis e a ovulação deve possibilitar a formação de um corpo lúteo totalmente funcional e altas concentrações de progesterona.

Hipotálamo/pituitária

• O pico da produção de hormônios no final da prenhez inibe a liberação de gonadotropinas [hormônio luteinizante (LH) e hormônio folículo estimulante (FSH)] e a secreção de pulsos de LH deve ser restabelecida para estimular o desenvolvimento dos folículos ovarianos.

Fígado

• Ajuda a manter cargas metabólicas pesadas [gluconeogênese, oxidação de ácidos graxos, produção de fator de crescimento semelhante à insulina-I (IGF-I)].

A recuperação de cada uma dessas funções teciduais é negativamente influenciada pelo BEN das vacas leiteiras durante o periparto . Ao atuar pela sinalização metabólica combinada de baixas concentrações glicêmicas e insulínicas juntamente com altos níveis de ácidos graxos não-esterificados (AGNEs), talvez o BEN atrase os aumentos nos pulsos de gonadotropina (LH e FSH) necessários à estimulação dos folículos ovarianos.

Baixas concentrações de insulina no sangue também são responsáveis pela baixa produção de IGF-I no fígado, levando à redução na resposta do ovários às gonadotropinas. Por essas diversas interações, o BEN altera o curso da atividade ovariana no pós-parto e influencia negativamente a retomada dos ciclos ovulatórios.

Pelo menos um grande folículo se desenvolve nos ovários de todas as vacas no período de 6 a 8 dias após a parição. O que difere entre as vacas é que este primeiro folículo pode ter três destinos, que determinarão a variação entre as vacas em termos do número de dias até a primeira ovulação:

a.A ovulação é bem-sucedida em aproximadamente 45% das vacas no período próximo ao 20° dia de lactação.

b.O folículo torna-se atrésico (morte) ou cístico e, em ambos os casos, há atraso adicional de 3 a 4 semanas na ovulação.

A partir da semana que antecede à parição, a ingestão alimentar (IMS) começa a cair, resultando em BEN que piorará nas 2 a 3 semanas seguintes com o início da lactação, e atingirá seu ponto mais baixo (nadir) cerca de duas semanas após o parto.

O BEN leva à mobilização da gordura corporal e libera AGNEs para o sangue. A variação entre as vacas em relação à extensão do BEN está diretamente relacionada a diferenças na IMS e à ocorrência mais precoce ou tardia da queda de IMS em relação à parição (ex.:, -9 dias x -1 dia). O escore de condição corporal (ECC) é um importante fator da vaca relacionado à menor ingestão alimentar durante o período seco próximo à parição. Embora o supercondicionamento (ECC > 4) aumente drasticamente o risco de distúrbios metabólicos, a perda de ECC durante o período seco também eleva o risco de retenção da placenta e problemas metabólicos . Uma estratégia de manejo recomendada consiste em manter o ECC moderado (3,25 a 3,5) até a parição. Adaptações metabólicas ao BEN emergente e próximo ao início da lactação são tanto dinâmicas quanto complexas, e envolvem alterações diárias na condição durante todo o período de transição.

Uma questão emergente refere-se ao fato de que o padrão e o momento da queda da IMS antes da parição permitem predizer alterações na função hepática e outros distúrbios na saúde futura. Em um estudo preliminar divulgado recentemente, a IMS começou a cair na semana que antecedeu ao parto, resultando em retenção da placenta, endometrite subclínica ou febre no pós-parto, em comparação a vacas normais. Os autores sugerem que alguns distúrbios de saúde são precedidos por BEN que se inicia antes da parição. Há consenso no sentido de que os distúrbios de saúde no pós-parto estão associados à menor fertilidade no período posterior.

Na fase imediatamente anterior ao parto, menores valores de IMS e alterações endócrinas aumentam os níveis de AGNEs no sangue. O fígado extrai AGNEs em relação diretamente proporcional às concentrações circulantes e é o maior sítio para o metabolismo e processamento posterior de AGNEs , que ocorrem da seguinte forma:

1) armazenamento intracelular, na forma de triglicérides;
2) oxidação para energia;
3) oxidação parcial para corpos cetônicos.

O acúmulo de triglicérides no fígado ocorre em maior ou menor grau em todas as vacas, mas é especialmente problemático em vacas super condicionadas. O super condicionamento afeta a oxidação de ácidos graxos no fígado, contribuindo para o acúmulo de triglicérides. Em segundo lugar, a atividade de enzimas fundamentais à gluconeogênese hepática já se encontra reduzida antes da parição e favorece a incidência de problemas metabólicos potenciais.

Durante o período de transição, as concentrações plasmáticas de AGNEs e β-hidróxi-butirato (BHBA) e o acúmulo de triglicérides no fígado foram mais elevados em vacas cujo primeiro folículo dominante não ovulou, em comparação a vacas com folículos ovulatórios. A forte relação negativa entre as concentrações de AGNEs e BHBA revela que níveis circulantes mais elevados podem acabar inibindo a produção folicular de estradiol e a ovulação. Os sítios potenciais de inibição encontram-se no hipotálamo, na freqüência de pulsos de LH e na sensibilidade folicular a estímulos metabólicos (ex.: insulina e IGF-I). Assim, o metabolismo hepático dos AGNEs parece exercer um papel central no momento da primeira ovulação.

RICARDA MARIA DOS SANTOS

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia.
Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

JOSÉ LUIZ MORAES VASCONCELOS

Médico Veterinário e professor da FMVZ/UNESP, campus de Botucatu

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ALUISIO PUGLIA DE AZEVEDO

MIRACEMA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 01/04/2019

ok.
ALUISIO PUGLIA DE AZEVEDO

MIRACEMA - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 01/04/2019

Otimo trabalho,estou muito intere;ado no assunto
JULHANA

SÃO LOURENÇO DO SUL - RIO GRANDE DO SUL - ESTUDANTE

EM 15/10/2018

Atualmente, houve mudanças? Estou lendo sobre esse assunto e gostei muito do texto.
Se sim, teria como disponibilizar material para leitura??
DUSTIN ANDRÉ CHAVES HOFFMANN

NOVA BASSANO - RIO GRANDE DO SUL - MÉDICO VETERINÁRIO

EM 03/04/2015

Olá Gastão,

Poderia mencionar qual a média de produtividade do seu rebanho? Como estão seus índices reprodutivos (PVE; Taxa serviço, taxa de concepção...)?



Agradeço a sua atenção.
RICARDA MARIA DOS SANTOS

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 07/05/2008

Prezado Gastão,
Obrigada pela comentário e pela participação!
Assim a distância é difícil fazer uma sugestão, mas se o que o senhor esta fazendo esta dando certo, não tem porque mudar. Continue observando as vacas, elas vão dizer (mostrar) quando algo estiver dando errado.
Até mais,
Ricarda.
JOVANI SCHERER BECKER

JÚLIO DE CASTILHOS - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 26/04/2008

Este é o grande desafio para os técnicos de campo hoje. Você investe alto em genética, mas não esqueçer dos desafios que isto gera.
GASTÃO SARMENTO DE MENDONÇA

RIO NOVO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 25/04/2008

Dra. Ricarda e Dr. José Luiz, excelente matéria, esta é uma situação que acontece constantemente em muitos currais e muitos produtores não sabem como lidar. Eu mesmo já passei por isso e hoje posso falar que consigo me sair bem. Gosto de usar o sistema prevenção. Procuro também estar sempre trocando idéias com outros produtores, médicos veterinários e principalmente lendo os vários artigos que são publicados por este site. Por isso vou pedir a vocês um favor, que seria uma matéria dando dicas de como sairmos bem desta situação.

Eu tenho como hábito proceder da seguinte maneira: considerando que uma vaca esteja com escore corporal 4, 15 dias antes da data prevista para parição, dou via oral 16 g de probiótico gel, 5 dias depois começo fornecendo 2 kg de ração/dia divididos em dois tratos até a parição. Após parição, começo a fornecer 200 g de mineral/dia, mais uma dose de 16 g de probiótico gel, 5 kg de ração/dia e 100 g de bicarbonato de sódio. No sal mineral que uso é acrescentado levedura, homeopatica. Peso o leite durante 10 dias para determinar o volume de ração diária sempre na proporção de 3 kg de rç p/ 1 litro de leite, e mantenho as 100 g de bicarbonato por dia até pelo menos completar 30 dias. Dessa forma tenho conseguido fazer com que as vacas não percam o apetite e não tenham acidose ruminal. Peço-lhes que me retornem com alguma sugestão sobre o meu procedimento, abraços, Gastão.
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