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Período de transição: alimentação e manejo de vacas leiteiras

POR RODRIGO DE ALMEIDA

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 01/08/2003

8 MIN DE LEITURA

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Atualizado em 29/12/2020

O período de transição compreende as 3 semanas pré-parto e as 3 semanas pós-parto (Grummer, 1995). Neste período, a vaca passa por dramáticas alterações metabólicas e fisiológicas, em que se prepara para o parto e a futura lactação.

O período de transição é caracterizado por alterações hormonais decorrentes da proximidade do parto, maior demanda de nutrientes para a síntese de colostro e leite, desenvolvimento contínuo da glândula mamária, rápido crescimento fetal e, por fim, mudanças de ambiente, incluindo a introdução da vaca recém-parida em um novo grupo de vacas. Todos estes fatores têm uma principal consequência: redução no consumo de matéria seca!



Consumo alimentar de vacas no período de transição

Em geral, observamos 30% de redução no consumo alimentar durante as três últimas semanas de gestação, grande parte deste declínio ocorrendo na última semana antes do parto. Entre os fatores nutricionais que podem amenizar este declínio, o percentual de fibra insolúvel em detergente neutro (FDN) na dieta parece ser o mais importante (Hayirli et al., 2002): recomenda-se diminuir o teor de FDN da dieta de 40% FDN (60 a 21 dias pré-parto) para 35%FDN (21 dias pré-parto em diante), aumentando a proporção de concentrado na dieta (valores adaptados do NRC, 2001).

Durante o período de transição, o consumo alimentar está diminuindo, enquanto que as exigências energéticas estão aumentando. Consequentemente, a densidade energética da dieta deve ser aumentada. Exigência de Energia Líquida de Lactação deve ser aumentada de 1,32 Mcal/kg (60 a 21 dias pré-parto) para 1,52 Mcal/kg (21 dias pré-parto em diante) (valores adaptados do NRC, 2001).

Novilhas exigem densidade energética ainda mais alta em suas dietas, devido ao menor consumo e as exigências energéticas adicionais para atender o crescimento (Grummer, 1999). O escore de condição corporal das vacas neste período deve ser monitorado com cuidado, já que vacas obesas (ECC ≥ 4,0) apresentam declínios no consumo de MS ainda mais dramáticos (Grummer, 1999).

Da mesma forma que a energia, as exigências de proteína aumentam a medida que a prenhez avança. Devido à depressão no consumo alimentar nas últimas 3 semanas pré-parto, recomenda-se aumentar a concentração protEica da dieta de 10%PB (60 a 21 dias pré-parto) para 12,5%PB (21 dias pré-parto em diante) (valores adaptados do NRC, 2001). Mais uma vez novilhas exigem concentrações proteicas ainda mais altas, devido ao menor consumo e as exigências adicionais para atender o crescimento (Grummer, 1999).


Monitoramento do escore de condição corporal

Numa escala de 1 a 5 pontos, idealmente as vacas deveriam parir com um ECC de 3,50 a 3,75. Embora pequenos ajustes possam ser feitos, o ECC deveria ser mantido durante o período seco. Já está bem estabelecido na literatura que vacas que parem com um ECC superior a 3,75 apresentam maior propensão a cetose, febre do leite (hipocalcemia) e deslocamento do abomaso e, de maneira geral, apresentam menor apetite.



Adoção de dietas aniônicas para vacas no pré-parto

A possibilidade de manipular a diferença catiônica-aniônica da dieta (DCAD), afim de reduzir a incidência de febre do leite, ganhou impulso a partir do trabalho pioneiro de Block (1984). Este professor da McGill University, Canadá, determinou que a febre do leite não é um problema de alta concentração de cálcio na dieta de vacas secas, mas sim um problema de alcalose neste período.

A recomendação vigente é oferecer aos animais uma dieta com DCAD negativa e altas concentrações de cálcio na dieta (até 150 g/dia) no período de 2 a 3 semanas pré-parto. Para tanto, o primeiro passo é fornecer o mínimo de leguminosas, já que estas possuem altas concentrações de cátions sódio e principalmente potássio.

Quanto ao fornecimento de volumosos neste período, devem ser priorizadas as gramíneas, particularmente a silagem de milho. Por fim, para alcançar valores de DCAD inferiores a -100 mEq/Kg MS, é importante adicionar sais aniônicos ao núcleo mineral, particularmente cloretos.

Imediatamente após o parto, as vacas começam a produzir uma grande quantidade de ácidos, especialmente pela alta proporção de grãos na dieta. Agora, uma dieta com DCAD positiva é necessária para tamponar o sangue, podendo-se inclusive incluir bicarbonato de sódio. Isto deve aumentar o consumo de MS e a produção de leite. Valores de DCAD superiores a +300 mEq/Kg MS são razoáveis neste período.

Os benefícios de se fornecer dietas aniônicas para vacas devem ser pesados contra sua influência negativa na ingestão de alimentos e no balanço energético pré-parto. A não ocorrência de hipocalcemia em novilhas, juntamente com os efeitos negativos da dieta aniônica no balanço energético, indicam que ela não é benéfica, podendo até mesmo ser prejudicial às novilhas pré-parto (Moore et al., 2000). 

Além da redução na incidência de febre do leite, alguns efeitos secundários têm sido relatados, como as menores incidências de edema de úbere e de retenção de placenta em rebanhos tratados com sais aniônicos. 

Em resumo, a adoção de dietas aniônicas para vacas no pré-parto traz muitos benefícios, além da redução na incidência de febre do leite em vacas recém paridas. Devemos iniciar limitando o potássio da dieta, principalmente evitando incluir leguminosas na alimentação de vacas secas.

Em seguida, devemos considerar a suplementação de sais aniônicos, principalmente os cloretos que acidificam melhor que os sulfatos. Para verificar a eficácia do programa, recomenda-se monitorar a acidificação via pH urinário (entre 6,0 e 6,5). Por último deve ser frisado que o manejo alimentar das vacas secas deve ser excelente, pela menor palatabilidade das dietas aniônicas.



Incidência de enfermidades no pós-parto

A ocorrência de enfermidades no período de transição pode facilmente eliminar todo o lucro potencial da lactação de uma vaca, devido aos custos associados com o tratamento veterinário e com o leite descartado. Menos enfatizado, mas talvez igualmente importante, são as perdas potenciais no pico de produção de leite e na persistência da lactação que advém de períodos de transição sub-ótimos. Cada 1 kg de leite que se perde na produção potencial no pico de uma vaca representa uma perda de 200 kg na lactação inteira (Drackley, 2002).

Dezenas de trabalhos científicos comprovam que as principais desordens da vaca recém-parida (distocia, febre do leite, retenção de placenta, metrite, cetose, fígado gorduroso, deslocamento do abomaso e laminite) estão altamente interrelacionadas. Dados epidemiológicos e observações de campo mostram que a incidência combinada destas enfermidades tipicamente chega a 50% de todas as vacas parindo em fazendas norte-americanas (Drackley, 2002).

Em outras palavras, a cada duas vacas parindo numa típica propriedade norte-americana, normalmente uma vai ser acometida de uma desordem no período pós-parto. Embora não tenhamos este tipo de levantamento no Brasil, podemos especular que em rebanhos confinados e de alta produção a mesma tendência é observada.

Há várias publicações que recentemente relataram a incidência de enfermidades de vacas leiteiras recém-paridas. Hutjens (1999) citou os seguintes limites aceitáveis para algumas enfermidades: até 8% para retenção de placenta, até 6% para febre do leite, até 3% de deslocamento do abomaso e no máximo 2% para cetose clínica. 

A maioria dos experimentos concluiu que vacas de maiores produções apresentaram maior incidência de enfermidades, notadamente as metabólicas, reprodutivas e as que afetam a glândula mamária. GUARD, da Cornell University, In: STONE et al. (1999), determinou em diferentes rebanhos os custos relacionados com as principais enfermidades metabólicas:

 


Como pode ser observado na tabela acima, a ocorrência de enfermidades no período de transição é um dos principais fatores que comprometem um adequado desempenho reprodutivo subsequente, resultando em perdas econômicas ainda maiores.



Monitoramento de vacas recém paridas

Muitas fazendas norte-americanas e algumas poucas propriedades brasileiras têm adotado programas de monitoramento específicos para vacas recém paridas. Entre os parâmetros que devem ser avaliados nos primeiros 10 dias pós-parto, destacamos:

  • aparência geral, que consiste na observação visual do animal após a ordenha para determinar problemas de pelagem, desidratação, condição corporal, problemas de casco e principalmente checar no free-stall se os animais estão se alimentando e bebendo;
  • palpação uterina para checar a presença de fetos, retenção de placenta ou metrite;
  • observação do material fecal com objetivo de detectar a presença de sangue, diarreia ou qualquer outra anormalidade;
  • temperatura corporal (entre 39,0 a 39,5o C);
  • motilidade do rúmen;
  • consumo total e de todos os ingredientes da dieta;
  • aumento progressivo na produção de leite (10%/dia), já que uma repentina baixa na produção poderá ser indicativo da presença de alguma enfermidade.


Conclusões

Os programas de nutrição implementados durante o período de transição são cruciais para a saúde e a produtividade das vacas leiteiras recém paridas. Em geral, observamos 30% de redução no consumo alimentar durante as três últimas semanas de gestação, sendo que grande parte deste declínio ocorre na última semana.

Afim de maximizar a produtividade e assegurar um bom desempenho reprodutivo subsequente, as dietas de transição precisam ter concentrações energéticas e proteicas mais elevadas e geralmente contêm ingredientes de maior custo. Inadequada formulação de dietas, manejo alimentar de pouca qualidade ou estresse ambiental excessivo podem acabar comprometendo os potenciais benefícios destas dietas mais caras.

Recomenda-se manter as vacas recém paridas sob observação para avaliar o apetite, a temperatura e o incremento diário na produção de leite durante os primeiros 10 dias pós-parição.

Referências bibliográficas

BELL, A.W. 1995. Regulation of organic nutrient metabolism during transition from late pregnancy to early lactation. J. Anim. Sci. 73:2804-2819.

BLOCK. E. 1984. Manipulating dietary anions and cations for prepartum dairy cows to reduce incidence of milk fever. J. Dairy Sci. 67:2939.

DRACKLEY, J.K. 1999. Biology of dairy cows during the transition period: the final frontier? J. Dairy Sci. 82:2259-2273.

DRACKLEY, J.K. 2002. Management of transition cows: integrating nutrition and stress physiology. Proceedings of the 2002 Cornell Nutrition Conference for Feed Manufacturers.

GOFF, J.P. & R.L. HORST. 1997. Physiological changes at parturition and their relationship to metabolic disorders. J. Dairy Sci. 80:1260-1268.

GRANT, R.J. & J.L. ALBRIGHT. 1995. Feeding behavior and management factors during the transition period in dairy cattle. J. Anim. Sci. 73:2791-2803.

GRUMMER, R.R. 1995. Impact of changes in organic nutrient metabolism on feeding the transition dairy cow. J. Anim. Sci. 73:2820-2833.

HUTJENS, M.F. 1999. Fresh cow feeding strategies. Four-State Dairy Management Seminar. Ames, IA, EUA: 23 a 26 de fevereiro, p.25-28.

JORDAN, E.R. & S.R. STOKES. 2000. Pampering dry cows pays dividends. Hoard's Dairyman, August 10, p.510.

HAYIRLI, A., R.R. GRUMMER, E.V. NORDHEIM & P.M. CRUMP. 2002. Animal and dietary factors affecting feed intake during the prefresh transition period in Holsteins. J. Dairy Sci. 85:3430-3443.

HORST. R.L., J.P. GOFF, T.A. REINHARDT & D.R. BUXTON. 1997. Strategies for preventing milk fever in dairy cattle. J. Dairy Sci. 80:1269-1280.

MOORE, S.J, M.J. VANDEHAAR, B.K. SHARMA, T.E. PILBEAM, D.K. BEEDE, H.F. BUCHOLTZ, J.S. LIESMAN, R.L. HORST & J.P. GOFF. 2000. Effects of altering dietary cation-anion difference on calcium and energy metabolism in peripartum cows. J. Dairy Sci. 83:2095-2104.

NATIONAL RESEARCH COUNCIL. 2001. Nutrient Requirements of Dairy Cattle, Seventh Revised Edition. Washington, D.C.: National Academy Press.

STONE, B., L. CHASE, T. OVERTON. 1999. Feeding high-producing herds. A supplement to Hoard's Dairyman, September 25, 22 p.

 

 

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EVERTON DE ARAÚJO ABRANTES

ALTO RIO DOCE - MINAS GERAIS

EM 16/07/2007

Muito bom, é um ponto muito importante na bovinocultura leiteira de hoje.
MilkPoint AgriPoint