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Como monitorar e melhorar o teor de gordura do leite?

Autor do artigo:

João Pedro Pereira Winckler. Pesquisador da Clínica do Leite. Zootecnista graduado pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Mestre e Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal e Pastagens da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP).

A missão da Clínica do Leite é contribuir para a melhoria da qualidade do leite e da rentabilidade de fazendas e indústrias do setor. Com este intuito, publicaremos uma série de artigos para que você possa agir a partir dos resultados das análises de componentes do leite recebidos todos os meses. Assim, você poderá saber o que fazer quando, por exemplo, o teor de gordura está abaixo ou acima do ideal. Além de apresentar exemplos, procuraremos discutir quais as possíveis causas para que esses valores estejam fora do esperado.

Neste primeiro artigo, trataremos da gordura do leite, um componente que exige monitoramento constante. Mas, afinal, por que ela é importante? Vamos às explicações: o leite é formado por componentes sólidos, misturados com água. Em termos de porcentagem, 87% do leite é composto por água e apenas 13% correspondem aos sólidos totais. Entre os sólidos do leite, destacam-se a gordura, a proteína e a lactose.

A gordura é o principal componente energético do leite e um dos principais responsáveis pelo sabor do produto. Além disso, a porcentagem de gordura é importante para o rendimento de derivados elaborados pelas indústrias, como manteiga, queijos, requeijões, sorvetes e cremes, por exemplo.

Teor ideal

Em dezembro de 2011, o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA) criou a Instrução Normativa 62 (IN-62), com o intuito de melhorar a qualidade do leite produzido no Brasil e definir valores mínimos para os principais componentes do leite. Entre esses componentes estava a gordura, que deve corresponder a, no mínimo, 3% dos componentes do leite integral. 

Além da legislação, podem servir como parâmetro os programas de pagamento pela qualidade, nos quais as indústrias definem os limites para bonificação, penalização ou ambos, a depender da composição do leite entregue ao laticínio pelo produtor. No caso da gordura, a tendência é que quanto maior o teor, maior seja a remuneração. Observe essa relação na tabela a seguir, que exemplifica a lógica de um desses programas.

teor de gordura no leite - Clínica do Leite

Nesse exemplo, o leite fornecido pelo produtor para o laticínio que aplica o programa de pagamento deveria ter no mínimo 3% de gordura para não ser penalizado (redução de R$0,029/litro). O ideal, no entanto, seria produzir leite com no mínimo 3,6% de gordura, valor perfeitamente possível de ser alcançado. Por outro lado, se conseguir produzir com teor superior ou igual a 3,98%, o produtor poderia receber a bonificação máxima, captando R$ 0,034 por litro de leite.  Ou seja, níveis adequados de gordura geram dinheiro no bolso.

Como monitorar     

O monitoramento da qualidade do leite produzido na fazenda é fundamental para avaliar se a gordura (e outros componentes) está presente em níveis adequados. Nesse sentido, análises periódicas contribuem para definir os limites mínimos e máximos aceitáveis, de modo que possíveis problemas na composição possam ser facilmente identificados.

O Laboratório da Clínica do Leite, por exemplo, é certificado para análises dos componentes, entre eles a gordura. Após a realização das análises, são enviados laudos, com os resultados, para indústrias e produtores. A seguir, apresentamos um exemplo de extrato da análise de composição do leite de uma fazenda:

gordura do leite - Clínica do Leite

Nesse exemplo, a média geométrica do produtor em questão é de 2,77%. Portanto, se considerarmos os parâmetros citados anteriormente (IN-62 e pagamento por qualidade), podemos afirmar que esta média está abaixo do que é considerado ideal. Caberia ao produtor, portanto, entender os fatores que têm levado a esse resultado.

Fatores que levam a baixos teores

A concentração de gordura do leite pode ser influenciada por diversos fatores, incluindo nutrição, manejo, época do ano, diluição pela produção dos animais, genética, estágio fisiológico e o ambiente. Dentre eles, podemos afirmar que o principal fator relacionado a alterações na gordura do leite é a nutrição.

Do ponto de vista nutricional, qualquer modificação na dieta dos animais que leve a alterações no ambiente ruminal, principalmente no pH, tem reflexo sobre a gordura do leite. Sendo assim, a relação volumoso-concentrado, a qualidade da fibra fornecida, o tamanho de partícula dos ingredientes da dieta e a taxa de degradação desses ingredientes têm papel fundamental.  

Quando são oferecidas dietas para os animais com alta proporção de concentrado, fibra de alta digestibilidade, ou ainda partículas finamente moídas, o animal apresenta risco de desenvolver acidose.  A acidose é um distúrbio metabólico causado pela alta e rápida produção de ácidos no rúmen, principalmente o propiônico. Quando isso ocorre, o metabolismo da gordura no rúmen é modificado e, então, a formação de gordura do leite é afetada negativamente.

Além dessas características da dieta, a frequência de alimentação também deve ser levada em consideração. É importante evitar que os animais sintam fome. Caso contrário, quando alimentados comerão com voracidade, podendo elevar rapidamente a concentração de ácidos no rúmen e levar a prováveis quadros de acidose. Portanto, é importante fornecer a dieta aos animais com a maior frequência possível, pois, além de evitar a acidose, isso estimulará o consumo.

Outro fator que pode contribuir para a redução na concentração da gordura do leite é o fornecimento de grande quantidade de gordura insaturada na dieta dos animais, como por exemplo, óleo de soja. Isso porque o fornecimento desse tipo de ingrediente pode levar à inibição da produção de gordura na glândula mamária.

Assim, cabe ao gestor da fazenda realizar as análises de componentes, monitorar os relatórios da qualidade do leite e estudar os casos em que os componentes estejam fora do que é considerado normal. Somente dessa forma o produtor poderá gerenciar com eficiência a qualidade do leite produzido todos os dias — e aumentar a rentabilidade do seu negócio.

CLÍNICA DO LEITE

Vinculada à ESALQ/USP, a Clínica do Leite é uma instituição sem fins lucrativos que atua em gestão da pecuária de leite, por meio da geração de conhecimento e da formação de pessoas.

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ALOISIO BASTOS

EM 24/05/2019

Muitos produtores estão curiosos em saber o fator que leva uma certa vaca ter mais gordura no leite e outra não. Então gostaria pedir a confirmação do nosso mestre e professor João, do que tenho de conhecimento:
É certo que uma dieta pode ser implementada para a melhoria destes índices de gordura, mas a génetica e a raça do animal tem muito peso neste fator. Vacas Jersey são as preferidas nas grandes propriedades do Paraná em função deste fator e de ter um temperamento mais dócil. Meus sinceros agradecimentos pela matéria muito oportuna.
DEIVES GIRARDI

SÃO MIGUEL DO OESTE - SANTA CATARINA - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 23/02/2018

Parabéns pela escolha e abordagem do tema João Pedro! Em um cenário de preços baixos otimizar a composição do leite e buscar valorização no preço recebido na venda da produção é umas das ferramentas que o produtor pode utilizar. Apesar do custo com as análises ser irrisório, a composição do leite nos entrega informações valiosíssimas para monitorar e ajustar a alimentação do rebanho, item de maior custo dentro do sistema de produção.
CLÍNICA DO LEITE

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 23/02/2018

Obrigado pela leitura e pelo comentário, Deives! É isso mesmo: a informação vinda das análises é fundamental para a tomada de decisões e a melhoria dos resultados do negócio. Um abraço! João Pedro Winckler.
FABIANO LOPES BUENO

CURITIBA - PARANÁ - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 23/02/2018

Parabéns pelo primeiro artigo sobre a avaliação dos resultados das análises do leite, o que significam e quais as possíveis medidas a serem tomadas com base nestas informações.
O produtor precisa ter mais condições de entender as informações geradas por análises (do leite, bromatológicas, do solo, etc) e relatórios e transformar estas informações em ações de correção de manejo.

Mais uma vez parabenizo a iniciativa e agradeço pela geração de informação pratica e de qualidade para a cadeia produtiva do leite.
CLÍNICA DO LEITE

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 23/02/2018

Olá, Fabiano! Obrigado pelo comentário, que incentiva a Clínica do Leite a seguir trabalhando para gerar e compartilhar o conhecimento que o produtor precisa. Um abraço! João Pedro Winckler.
SÁVIO SANTIAGO

LAVRAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 23/02/2018

Excelente artigo, parabéns !
CLÍNICA DO LEITE

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 23/02/2018

Muito obrigado, Sávio! Somos leitores assíduos dos seus artigos aqui no MP, sempre muito interessantes e pertinentes. Um abraço! João Pedro Winckler.
JOSIANO GOMES CHAVES

CARLOS CHAGAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 22/02/2018

Excelente matéria e excelente iniciativa de publicar matérias com esses temas relacionados. Na matéria em questão ficou muito claro os cuidados que se deve ter para não cair a produção de gordura no leite, no entanto senti falta de estratégias que possam ser adotadas para estimular/aumentar a produção de gordura no leite. Por exemplo, aumentar o pH do rúmen aumenta a produção de gordura. Se sim, aumentar em quanto?? Como se aumenta?? Entendo que as dietas abordadas podem levar a diminuição do teor de gordura, mas quais dietas favorecem o aumento. Que tal isso como tema do próximo tópico.
CLÍNICA DO LEITE

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 22/02/2018

Olá Josiano!

Agradeço seu comentário. Realmente, o foco deste artigo era somente o que leva à redução da gordura do leite. Vou seguir sua sugestão e escrever um próximo artigo sobre medidas que possam aumentar o teor de gordura. Um abraço! João Pedro Winckler.
EM RESPOSTA A CLÍNICA DO LEITE
JOSIANO GOMES CHAVES

CARLOS CHAGAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 23/02/2018

Prezado João Pedro,

Muito obrigado pelo retorno e pela gentileza.

Eu tenho certeza que um artigo com esse tópico irá agregar muito valor a todos os produtores.

Grande abraço,
MARINA A. CAMARGO DANÉS

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 22/02/2018

Parabéns pelo artigo! O leite é o produto final da alimentação animal e pode nos dar informações riquíssimas de animais individuais e lotes. Vocês trabalham com alguma recomendação para frequência de análise de tanque e animais individuais para um monitoramento consistente da alimentação e saúde dos animais?
CLÍNICA DO LEITE

PIRACICABA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 22/02/2018

Olá, Marina!
Obrigado pelo comentário! Com relação à gordura, as alterações nos teores podem ocorrer entre sete a 21 dias após a alteração da dieta. No caso da proteína, esse prazo é de três a seis semanas. Portanto, recomendamos que, para tanques, sejam realizadas quatro análises mensais e, para animais, uma análise por mês. Aproveito a oportunidade para parabenizá-la pelo excelente trabalho que vem realizando na UFLA. Um abraço! João Pedro Winckler.