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Importância funcional da membrana do glóbulo de gordura do leite (MGGL)

INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 29/06/2020

5 MIN DE LEITURA

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Autores do artigo:

Marco Antônio Sundfeld da Gama (Pesquisador da Embrapa Gado de Leite e coordenador do subcomitê de nutrição e saúde da FIL-IDF)

Adriana Torres Silva Alves (Pesquisadora do Tecnolat/ITAL e membro do subcomitê de nutrição e saúde da FIL-IDF)

Leila Maria Spadoti (Pesquisadora do Tecnolat/ITAL e membro do subcomitê de Ciência e Tecnologia da FIL-IDF)

O leite e os produtos lácteos são fontes de inúmeros compostos bioativos com efeitos benéficos à saúde, alguns ausentes em outras fontes dietéticas devido às particularidades do sistema digestivo e do metabolismo mamário dos ruminantes. Um exemplo notável é o ácido butírico, um ácido graxo de cadeia curta com inúmeras propriedades funcionais encontrado exclusivamente na gordura do leite. Os benefícios à saúde das proteínas do soro (ex.: β-lactoglobulina, imunoglobulinas, lactoperoxidase e lactoferrina) e de alguns ácidos graxos presentes na gordura do leite (ex.: ácido butírico, ácido vacênico, ácido linoleico conjugado, ácido α-linolênico) são bem estabelecidos. No entanto, apenas mais recentemente estudos científicos têm revelado as notáveis propriedades funcionais de um componente lácteo minoritário, mas não menos importante: a membrana do glóbulo de gordura do leite (MGGL).

A gordura do leite, secretada na forma de pequenos glóbulos (0,1 a 10 μm de diâmetro), é composta predominantemente por triglicerídeos (aproximadamente 9 7% da massa total), envolvidos por uma membrana (MGGL) rica em lipídios polares, colesterol e proteínas específicas. Os glóbulos de gordura do leite contêm ainda outros compostos de importância nutricional, como as vitaminas A, D, E, K e carotenoides (ex.: β-caroteno). 

Embora a MGGL represente uma pequena fração da gordura do leite, estudos recentes têm mostrado que esse componente minoritário apresenta uma composição química singular que está associada a diversos efeitos potencialmente benéficos à saúde, incluindo sobre mecanismos associados à proteção imunológica do organismo.

A singularidade da MGGL é evidenciada tanto pela sua composição proteica quanto lipídica. As proteínas representam 25 a 70% da massa total da MGGL, sendo algumas delas encontradas em concentrações apreciáveis, como a butirofilina, mucina-1, CD36, lactaderina, adipofiina e xantina oxidase. A maioria das proteínas da MGGL são altamente glicosiladas (associadas a um ou mais monossacarídeos, como glicose, galactose e lactose) e desempenham importante papel funcional, como por exemplo por meio da interação com bactérias).

Os lipídios polares da MGGL representam apenas 0,5 a 1,0 % da gordura do leite. Além do colesterol, a MGGL contém duas principais classes de lipídios polares: glicerofosfolipídios e esfingolipídios. Os primeiros são representados principalmente pela fosfatidiletanolamina e fosfatidilcolina, enquanto os últimos têm como componentes principais a esfingomielina e os glicoesfingolipídios. Os glicoesfingolipídios incluem os cerebrosídeos e os gangliosídios entre os componentes mais conhecidos. A MGGL constitui, portanto, uma fonte natural de esfingolipídios na dieta humana, especialmente de esfingomielina e gangliosídios. Vale mencionar que a dieta fornecida aos animais apresenta efeito importante sobre a composição de ácidos graxos da gordura do leite, mas as proporções relativas das principais classes de lipídios polares presentes na MGGL são relativamente constantes.

Estudos conduzidos na última década têm mostrado que alguns lipídios polares e proteínas presentes da MGGL apresentam uma série de propriedades benéficas à saúde, o que tem atraído grande interesse para a exploração comercial desse componente nutracêutico do leite.

Benefícios à saúde atribuídos aos componentes da MGGL e possíveis mecanismos de ação

O interesse pela MGGL não vem apenas dos efeitos positivos atribuídos aos seus componentes individuais (ex.: proteínas e lipídios polares), mas também dos benefícios associados à combinação desses componentes e da disposição organizacional singular destes compostos na membrana. Portanto, mudanças na estrutura nativa da MGGL (o que ocorre, por exemplo, durante o processo de homogeneização do leite) podem afetar suas propriedades funcionais.

Efeitos benéficos da MGGL e dos seus componentes têm sido demonstrados sobre o desenvolvimento cognitivo, prevenção de doenças infecciosas, melhora da saúde intestinal, e modulação da resposta imunológica em crianças. Além disso, efeitos positivos sobre a saúde metabólica também têm sido relatados em estudos com adultos.

A melhora cognitiva tem sido atribuída principalmente aos gangliosídios presentes na MGGL, uma vez que o tecido nervoso contém elevadas concentrações desde composto.

A prevenção de infecções tem sido atribuída às glicoproteínas (butirofilina, mucinas e lactaderina) e aos esfingolipídios da MGGL, os quais parecem atuar prevenindo a adesão do patógeno ao epitélio intestinal.

A melhora da saúde intestinal e da imunidade parecem estar relacionadas ao estímulo da produção de mucina pela mucosa intestinal, prevenção da adesão do patógeno à mucosa, e inibição da degradação das “tight junctions”, sendo este último mecanismo associado a uma menor permeabilidade intestinal, comumente descrita na literatura como “leaky gut”. Além disso, evidências limitadas sugerem que a MGGL pode modular a composição da microbiota intestinal, contribuindo prevenir a disbiose (desequilíbrio da microbiota), que pode levar ao desenvolvimento de processos alérgicos, doenças autoimunes ou a um quadro de inflamação de baixo grau que está associado, no longo prazo, ao desenvolvimento de diversas doenças crônicas não transmissíveis.

No que se refere ao efeito da MGGL sobre a saúde metabólica, as evidências recentes apontam para um efeito hipoinsulinêmico e uma ação anti-inflamatória em adultos obesos ou com sobrepeso. Além disso, alguns estudos indicam que a esfingomielina presente na MGGL pode limitar a absorção do colesterol no intestino, o que explicaria o efeito anticolesterolêmico observado nesses estudos.

Conclusões

As informações apresentadas nesse artigo indicam que a MGGL, embora represente uma pequena fração da gordura do leite, contém proteínas e lipídios polares singulares com propriedades benéficas à saúde. Esses efeitos positivos da MGGL, reportados em estudos mais recentes, se somam aos benefícios já amplamente descritos na literatura para outros componentes do leite, como as proteínas do soro e os ácidos graxos bioativos.

O papel nutracêutico da MGGL é, portanto, mais um bom argumento a favor do consumo de leite e produtos lácteos com teores regulares de gordura, como mostrado no artigo “Gordura do leite e saúde: o que as evidências científicas recentes nos dizem?”.  Mais um bom motivo, também, para os consumidores continuarem a ingerir leite e produtos lácteos no seu dia-a-dia, contribuindo para a manutenção de um bom estado nutricional e de saúde, particularmente em tempos de pandemia provocada pela COVID-19.

Vale a pena ler também:

Gordura do leite e saúde: o que as evidências científicas recentes nos dizem?

Referências bibliográficas

Krissansen GW. 2007. Emerging health properties of whey proteins and their clinical implications. J. Am. Coll. Nutr., 26(6):713S-23S. Review.Referências bibliográficas

Gómez-Cortés, P., Juárez, M., De la Fuente, M.A. (2018). Milk fatty acids and potential health benefits: An updated vision. Trends in Food Science and Technology, 81, 1-9. doi: 10.1016/j.tifs.2018.08.014

Lopez, C., Cauty, C., & Guyomarc'h, F. (2019). Unraveling the Complexity of Milk Fat Globules to Tailor Bioinspired Emulsions Providing Health Benefits: The Key Role Played by the Biological Membrane. European Journal of Lipid Science and Technology, 121(1). DOI: 10.1002/ejlt.201800201

SILVA E ALVES, A.T.; SPADOTI, L.M.; GAMA, M.A.S. Funcionalidade e prevenção. In: REGO, R.A. et al. Brasil Dairy Trends 2020. Campinas:ITAL, 2017. Cap. 6, p.143-169.

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MATHIAS SANTOS

EM 01/07/2020

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