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Percepção dos profissionais da cadeia produtiva do leite sobre os indicadores de sustentabilidade

PRODUÇÃO

EM 18/06/2020

6 MIN DE LEITURA

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Por Mirian Fabiana da Silva
Zootecnista e Doutora em Nutrição e Produção Animal pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo

Este artigo apresenta um resumo de parte de minha Tese de Doutorado, que teve por objetivo propor um conjunto de indicadores para a avaliação da sustentabilidade em propriedades leiteiras.

Os indicadores auxiliam na avaliação da produção leiteira, apontando avanços e retrocessos e aspectos positivos ou negativos do sistema de produção. Isso possibilita propor mudanças, a fim de produzir de forma mais sustentável.

A participação dos profissionais é essencial para propor um conjunto de indicadores que possam avaliar de forma eficiente a produção de leite. Para isto, analisou-se a percepção deles em relação à importância dos indicadores para avaliar a sustentabilidade da pecuária leiteira brasileira.

O público-alvo foram profissionais ligados à atividade: pesquisadores, professores, consultores, produtores e outros profissionais. O total de respondentes da pesquisa foi 347.

Para a pesquisa utilizou-se um questionário por meio da plataforma Google Forms. O questionário foi dividido em duas partes: a primeira compreendeu questões sobre o perfil do participante e a segunda parte foi composta por questões sobre a importância dos indicadores para avaliar a sustentabilidade da atividade. As respostas da segunda parte foram medidas em uma escala tipo Likert (5 = muito importante, 4 = importante, 3 = desejável, 2 = não prioritário, 1 = dispensável e 0 = não sei ou não tenho conhecimento).

No final da primeira e da segunda parte foi colocada uma pergunta sobre o grau de conhecimento do participante sobre a bovinocultura leiteira, considerando os aspectos técnicos, econômicos, sociais e ambientais. As respostas foram mensuradas por ordem do grau de conhecimento (1 - não tenho conhecimento, 2 - razoável, 3 - intermediário, 4 - avançado). Na segunda etapa da pesquisa os indicadores foram testados a campo.

Como resultados, no geral, os participantes acreditam que os indicadores técnicos são relevantes para avaliar a sustentabilidade em fazendas leiteiras. Mais de 60% dos participantes consideraram que os indicadores Produção de leite por área e Índice reprodutivo são muito importantes para avaliar a atividade.

Os indicadores econômicos "Custo total unitário do leite (R$/kg)", "Lucro da atividade (R$/ano)", "Custo total da atividade leiteira (R$/ano)" e "Custo total do leite por preço do leite (%)" foram considerados muito importantes por mais de 60% dos respondentes.

Mais de 60% dos respondentes consideraram que os indicadores sociais Qualidade do leite, Qualidade de vida e Sucessão são muito importantes para avaliar a atividade.

Os indicadores ambientais "Proteção do curso d’água ou área de preservação permanente", "Manejo do solo", "Qualidade da água utilizada para consumo humano e animal e na ordenha" e "Descarte de leite de animais que receberam medicamentos" foram considerados muito importantes para mais de 60% dos participantes para avaliar a atividade leiteira.

Os indicadores apontados tanto pelos profissionais e quanto pela literatura científica foram produção de leite por área, custo e qualidade do leite para a avaliação da sustentabilidade. Em relação aos ambientais observou-se que os profissionais se preocupam mais com a proteção da água, solo e com o descarte do leite de animais que receberam medicamentos. Já na literatura científica na dimensão ambiental, os indicadores foram emissões de gases e substâncias, uso de energia, balanço de nutrientes e uso da terra.

Os participantes declararam apresentar maior grau de conhecimento sobre os aspectos técnicos (3,08), depois econômicos (3,06) e sociais (2,97) da atividade de bovinocultura leiteira. Os participantes declararam apresentar menor conhecimento sobre os aspectos ambientais (2,78) da atividade leiteira. Muitos perceberam que tinham menor conhecimento sobre os aspectos ambientais depois de terem tomado conhecimento do conjunto de indicadores. Esse resultado demonstra que os respondentes da pesquisa possuem uma lacuna de conhecimento nesta área.

indicadores produtivos e de sustentabilidade em propriedade leiteiras

Essa pesquisa apontou a existência de quatro grupos de profissionais. O primeiro, um grupo “holístico” com uma visão global da fazenda procurando compreender os fenômenos na sua totalidade. Estes concordaram que todos os indicadores são muito importantes ou, no mínimo, importantes. O segundo grupo, denominado “tecnicista”, valoriza os recursos técnicos como capazes de trazer soluções para os problemas da produção de leite. Esse grupo considerou todos os indicadores entre importantes e desejáveis, exceto alguns indicadores ambientais avaliados como não prioritários e dispensáveis. O terceiro grupo, “socioambientalista”, busca resolver os problemas e processos baseado no ambientalismo com consciência social. Os indicadores foram avaliados como desejáveis, porém os indicadores ambientais como importantes. O quarto grupo são os “céticos”, que não têm certeza e apesentam dúvidas e/ou descrença sobre o tema. Essas pessoas consideram, no geral, que os indicadores são não prioritários e dispensáveis.

Os grupos apresentaram diferenças significativas em relação aos conhecimentos sobre os aspectos técnicos, econômicos, sociais e ambientais da bovinocultura leiteira. Os participantes do grupo “holístico” demonstram ter maior conhecimento em todos os aspectos do que os demais grupos. No geral, os profissionais apresentam deficiência no conhecimento ambiental.

O grau de conhecimento dos profissionais sobre os aspectos da sustentabilidade influencia na percepção da relevância dos indicadores. Portanto, fica evidente a importância da difusão do conhecimento para produzir leite de forma mais sustentável. O conhecimento dos aspectos da sustentabilidade é importante para a avaliação sistêmica da fazenda. Conhecer a percepção dos profissionais sobre os indicadores é fundamental para a adoção dos indicadores a campo.

Um ponto de destaque é o foco no atendimento das legislações, principalmente às questões ambientais. Assim muito dos profissionais esquecem que a sustentabilidade em relação aos aspectos ambientais vai além das questões estabelecidas por lei, envolvendo todos os manejos nutricional, sanitário, pastagem e agrícola e também o gerenciamento da propriedade.

O resultado da avaliação dos profissionais é encontrado a campo, no processo de coleta e análise de dados das fazendas. Alguns indicadores, principalmente ambientais, não são usados para avaliaram as propriedades, pois a campo não se tem o hábito de coletar os dados para calcular os indicadores. Isso acontece mesmo em fazendas que recebem acompanhamento técnico e gerencial. Portanto, a falta de dados para calcular alguns indicadores se deve ao fato de não ver importância na análise sistêmica da propriedade. A falta de conhecimento ou importância dos aspectos ambientais para a produção de leite pode ser o motivo de não se coletar dados e avaliar indicadores nas propriedades. Se não houver escrituração zootécnica, mensuração e contas não forem feitas, não tem como avaliar a sustentabilidade da produção. Nesse cenário, é preciso melhorar a coleta de dados, buscando um maior detalhamento.

Um ponto que reflete no aspecto ambiental é o balanço de nutrientes, que é visto como não importante, com a finalidade de reduzir o impacto ambiental e aumentar a rentabilidade da atividade. Os profissionais devem buscar melhorar o uso por meio da zootecnia e da agricultura de precisão, melhorando o fluxo de nutrientes no sistema.

As ações para melhorias dos sistemas de produção de leite devem buscar conhecer a real necessidade e os problemas enfrentados pelos produtores e pessoas envolvidas na atividade, além de proporcionar renda e fixação do homem no campo, oferecer qualidade de vida e condições adequada de trabalho.

Muitas das vezes as ações técnicas e gerenciais focam nas pessoas somente na busca de gerar renda para elas, com o uso de tecnologia. Mas também devem incluir programas e cuidados de saúde física e mental, para ajudar os produtores a identificar e gerenciar o estresse e a saúde mental. Assim, há necessidade de estudos sobre a saúde física e psicológica e o bem-estar dos proprietários e funcionários.

Os estudos sobre a percepção dos profissionais da cadeia produtiva do leite, sustentabilidade e abordagem sistêmica podem auxiliar a conduzir os processos de produção e a tomada de decisão, visando obter melhores resultados na produção de leite. O desafio é realizar o trabalho interdisciplinar, considerando as relações e o dinamismo da atividade.

SILVA, M. F. Indicadores de sustentabilidade para a pecuária leiteira. 2020. 201 f. Tese (Doutorado em Ciências) – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, Pirassununga, 2020.

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