Lucratividade sustentável: o papel da seleção para resistência a parasitas

As parasitoses representam um dos maiores gargalos para quem produz leite no Brasil, especialmente em rebanhos com genética europeia.

Publicado por: MilkPoint

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As parasitoses representam um dos maiores gargalos para quem produz leite no Brasil, especialmente em rebanhos com genética europeia. O impacto dessas doenças vai muito além da perda de animais, corroendo a lucratividade por meio da queda na produção de leite, dos altos custos com tratamentos veterinários e da redução da fertilidade das vacas. No entanto, o que muitos produtores começam a perceber na prática é que existem diferenças entre os animais: enquanto alguns adoecem gravemente, outros conseguem enfrentar o desafio das parasitoses.

 


 

"Você já se perguntou por que, em um mesmo lote de vacas submetidas ao mesmo manejo e desafio, algumas parecem 'imunes' a parasitas enquanto outras adoecem gravemente?"

Essa variabilidade é o alicerce do melhoramento genético voltado à resistência, visto que parte dessas diferenças possui natureza hereditária. Diferente do controle químico, que demanda aplicações cíclicas e enfrenta a crescente seleção de parasitas resistentes, o ganho genético oferece uma solução permanente. Ao selecionar reprodutores superiores, o produtor adota uma estratégia que, em vez de perder a eficácia ao longo do tempo, pode se consolidar a cada nova geração. Além da redução no uso de insumos, animais mais resistentes apresentam melhor bem-estar, menor necessidade de intervenções clínicas e permanecem mais produtivos ao longo da vida útil no rebanho.

Entendendo os mecanismos: resistência vs. tolerância

É importante distinguir, porém, que essa melhoria pode vir tanto pela resistência, entendida como a capacidade da vaca de impedir ou limitar a multiplicação do parasita, quanto pela tolerância (Figura 1), que permite ao animal manter o desempenho mesmo infectado. Ambos os mecanismos têm valor prático, mas exigem abordagens diferentes na hora de mensurar e selecionar (Doeschl-Wilson & Kyriazakis, 2012).

Figura 1. Impacto da carga parasitária no desempenho produtivo. Note que animais com alta tolerância (curva verde) consegue manter a produtividade estável mesmo sob forte desafio, enquanto animais de baixa tolerância (curva vermelha) apresentam queda acentuada no desempenho. Fonte: imagem criada por IA, a partir de Doeschl-Wilson & Kyriazakis (2012).

 

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É importante destacar que a resistência e a tolerância ao desafio parasitário não são determinadas exclusivamente pela genética do animal. Ambas resultam de um fenômeno multifatorial (Figura 2), no qual atuam simultaneamente fatores genéticos, ambientais, sanitários e epidemiológicos. Entre eles, destacam-se as condições de manejo da fazenda, o ano e a estação de nascimento, a idade do animal, o nível de desafio parasitário presente no ambiente e a própria cepa ou virulência do agente infeccioso. Assim, a expressão fenotípica dessas características depende da interação entre o genótipo do hospedeiro e o contexto em que ele está inserido.

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Figura 2. Fatores que influenciam a saúde e o desempenho produtivo frente ao desafio parasitário. Além da base genética, variáveis como o manejo da fazenda, a estação do ano e a virulência da cepa do parasita atuam simultaneamente na proteção do rebanho. Fonte: elaboração própria com auxílio de IA. 

 

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O desafio da precisão: por que a fenotipagem é o limite?

Apesar do potencial da seleção genética, a fenotipagem de resistência e tolerância ao desafio parasitário ainda constitui um dos principais gargalos para o avanço dessas características em programas de melhoramento. Isso ocorre porque a expressão fenotípica depende da intensidade e do momento da exposição ao parasita, das condições ambientais, do manejo adotado na fazenda e da própria variabilidade do agente etiológico. Em condições de campo, muitos animais não são expostos ao mesmo nível de desafio, o que dificulta a comparação direta entre indivíduos.

No caso da resistência, a dificuldade está em obter medidas consistentes da carga parasitária ou da intensidade de infecção, uma vez que essas avaliações podem variar conforme o método diagnóstico, o momento da coleta e a dinâmica do parasitismo ao longo do tempo. Já a tolerância apresenta desafio adicional, pois sua definição envolve a manutenção do desempenho do animal frente ao aumento da infecção ou infestação. Assim, sua mensuração exige, informações simultâneas sobre carga parasitária e indicadores de desempenho, saúde ou resposta fisiológica.

Outro obstáculo relevante é a necessidade de registros repetidos e padronizados. Como a resposta do animal pode variar ao longo da vida e entre diferentes estações do ano, uma única observação frequentemente não representa adequadamente o fenótipo. Além disso, intervenções como tratamentos terapêuticos, uso de carrapaticidas, suplementação nutricional e mudanças no manejo podem mascarar diferenças biológicas entre os indivíduos. Dessa forma, a construção de fenótipos mais robustos depende de protocolos bem definidos, mensurações repetidas e modelos analíticos capazes de separar os efeitos genéticos dos efeitos de ambiente e manejo.

Essas limitações ajudam a explicar porque, embora exista variabilidade biológica para resistência e tolerância, a incorporação dessas características em avaliações genéticas ainda avança de forma mais lenta do que para características produtivas clássicas. Portanto, o desenvolvimento de estratégias de fenotipagem mais precisas, viáveis e padronizadas é etapa essencial para ampliar o uso dessas informações em programas de seleção.

Inovação no campo: a pesquisa brasileira em ação

A incorporação da resistência genética a doenças já apresenta resultados sólidos na pecuária leiteira mundial, com a seleção de linhagens menos susceptíveis a enfermidades virais, bacterianas e à mastite.

Alinhado a essa tendência de promover a biosseguridade via genética, o Instituto Federal Goiano (Campus Rio Verde), em colaboração com pesquisadores de outras instituições (UTFPR, Instituto de Zootecnia e UNESP) desenvolve um projeto de pesquisa focado na resistência e tolerância de bovinos leiteiros ao desafio parasitário. Este projeto, financiado pelo CNPq, conta com a parceria estratégica da Fazenda Brasilanda (Grupo Kompier, Montividiu-GO), Fazenda Santa Luzia (grupo Cabo Verde, Passos - MG) e Fazenda Trio-Aliança (Nivaldo Gonçalves, Rio Verde – GO).

A coleta de dados fenotípicos em condições reais de produção permite validar protocolos para identificar animais com maior capacidade de enfrentar o carrapato e a tristeza parasitária bovina (babesiose e anaplasmose). O objetivo é superar os atuais gargalos de mensuração em campo, transformando a variabilidade biológica em ferramentas de seleção que garantam lucratividade e sustentabilidade ao produtor.

No fim das contas, apostar na genética é construir um rebanho que trabalha a favor do produtor. A redução da dependência de fármacos diminui custos operacionais, retarda o desenvolvimento de resistência química pelos parasitas e contribui para uma produção mais sustentável. Combinada com boas práticas de manejo sanitário, a seleção genética para resistência a parasitas é um investimento duradouro que pode fortalecer, de forma progressiva, a sustentabilidade e a rentabilidade da atividade leiteira.

“E na sua fazenda, você já consegue identificar aquelas vacas 'fora da curva' que mantêm a produção mesmo sob desafio? O futuro da sua lucratividade pode estar na genética desses indivíduos.”

Autores do artigo: 

Carlos Antônio de Mello Medeiros: Instituto Federal Goiano, Campus Rio Verde, Rio Verde, Goiás

Gabriel Carvalho de Andrade:  Instituto Federal Goiano, Campus Rio Verde, Rio Verde, Goiás

Dr. Francisco Ribeiro de Araujo Neto:  Instituto Federal Goiano, Campus Rio Verde, Rio Verde, Goiás

Dr. Rodrigo Giglioti: Instituto de Zootecnia, Nova Odessa, São Paulo.

Fontes consultadas 

Doeschl-Wilson AB, Kyriazakis I (2012) Should we aim for genetic improvement in host resistance or tolerance to infectious pathogens?. Frontiers in Genetics 3:1-2.

Hulst AD, de Jong MCM, Bijma P (2021) Why genetic selection to reduce the prevalence of infectious diseases is way more promising than currently believed. Genetics 217:iyab024.

Knap PW, Doeschl-Wilson A (2020) Why breed disease-resilient livestock, and how?. Genetics Selection Evolution 52:60.

Mulder HA (2016) Genomic Selection Improves Response to Selection in Resilience by Exploiting Genotype by Environment Interactions. Frontiers in Genetics 7:178.

Mulder HA, Rashidi H (2017) Selection on resilience improves disease resistance and tolerance to infections. Journal of Animal Science 95:3346-3358.

Råberg L, Sim D, Read AF (2007) Disentangling genetic variation for resistance and tolerance to infectious diseases in animals. Science 318:812.

Rashidi H (2016) Breeding against infectious diseases in animals. 2016. 182 f. Tese (Doutorado em Ciência Animal) - Wageningen University, Países Baixos.

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