El Niño 2026: o que o aquecimento no Pacífico pode significar para a produção de leite no Brasil?

Uma análise de 25 anos de dados realizada pelo time de Inteligência de Mercado do MilkPoint sugere que a pergunta mais importante talvez não seja se haverá El Niño - e sim o que ele fará com a temperatura e as chuvas nas diferentes regiões produtoras do país.

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O El Niño, com até 96% de probabilidade de ocorrer no verão de 2026/27, pode ter forte impacto na produção agrícola e pecuária no Brasil. Embora o fenômeno altere a distribuição de chuvas e aumente temperaturas, o calor é a variável mais crítica para a produção de leite, causando quedas significativas na captação. O estudo de 25 anos destaca que a influência do El Niño é complexa, envolvendo também outros fatores climáticos e de manejo. A temperatura já elevada desde 2013 pode amplificar os riscos associados ao fenômeno.
Com até 96% de probabilidade de estar ativo durante o verão brasileiro de 2026/27, o El Niño já voltou ao radar de produtores, consultores e empresas do agronegócio. E não é para menos. Os modelos climáticos indicam que o fenômeno pode atingir intensidade forte, potencialmente a maior desde o episódio de 2015/16.

Mas uma análise de 25 anos de dados realizada pelo time de Inteligência de Mercado do MilkPoint sugere que a pergunta mais importante talvez não seja se haverá El Niño — e sim o que ele fará com a temperatura e as chuvas nas diferentes regiões produtoras do país. Essa distinção pode parecer sutil, mas muda completamente a forma de enxergar os riscos para a produção de leite.

Um fenômeno que nasce no Pacífico e chega ao cocho das vacas

O El Niño é uma das fases do ENSO (El Niño-Oscilação Sul), principal mecanismo de variabilidade climática do planeta. O fenômeno ocorre quando as águas do Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal por vários meses consecutivos, alterando a circulação atmosférica global e redistribuindo chuva e temperatura ao redor do mundo.

No Brasil, os efeitos são conhecidos. O Sul costuma receber mais precipitação, enquanto Nordeste, Centro-Oeste e parte do Norte enfrentam condições mais secas. Há, porém, uma característica que muitas vezes passa despercebida: durante episódios de El Niño, as temperaturas tendem a subir em todo o país.

E é justamente esse aumento generalizado do calor que ajuda a explicar por que a pecuária leiteira é uma das atividades mais sensíveis ao fenômeno.

Os sinais para 2026 são robustos. Segundo a NOAA, a probabilidade de ocorrência do El Niño alcança 82% já entre maio e julho e chega a 96% durante o verão brasileiro. A temperatura na subsuperfície do Pacífico registra anomalias próximas de +8°C — superiores às observadas antes do histórico evento de 1997 — e as projeções indicam pico de +1,7°C no Índice Oceânico Niño (ONI), colocando o episódio na categoria de El Niño forte.

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Na prática, isso significa maior risco de seca no Nordeste, déficit hídrico em partes do Centro-Oeste e temperaturas mais elevadas em praticamente todo o território nacional. No Sul, embora a tendência seja de mais chuva, isso não necessariamente representa uma vantagem. A experiência recente mostra que eventos fortes podem trazer precipitações concentradas e extremas, como as enchentes históricas registradas no Rio Grande do Sul em 2024.

O que 25 anos de dados revelam sobre clima e produção?

Para entender como essas mudanças chegam ao campo, o estudo analisou um quarto de século de informações sobre clima, produtividade agrícola e captação de leite em todas as regiões brasileiras. A primeira conclusão desafia uma percepção bastante comum: o El Niño, sozinho, explica menos do que parece.

Quando os pesquisadores observaram apenas as fases do ENSO, alguns padrões ficaram evidentes. No Nordeste, praticamente todos os piores anos para a soja ocorreram sob influência do El Niño. No Sul, o comportamento foi inverso, com os piores resultados concentrados em anos de La Niña. Já no Centro-Oeste, a produtividade da soja em anos de El Niño ficou, em média, cerca de 300 kg por hectare abaixo da observada durante episódios de La Niña.

Mas a história mudou quando a análise ficou mais sofisticada…

Utilizando modelos estatísticos capazes de separar os efeitos do clima dos avanços acumulados em genética, tecnologia e manejo, os pesquisadores descobriram que, entre 25 combinações de culturas e regiões avaliadas, apenas duas apresentaram um efeito direto do El Niño estatisticamente consistente.

Na soja do Nordeste, cada aumento de 1°C no ONI esteve associado a uma redução média de 211 kg por hectare. No milho segunda safra do Sul, observou-se um ganho médio de 637 kg por hectare em anos de El Niño, embora acompanhado por elevada variabilidade.

Nas outras 23 combinações analisadas, o fenômeno praticamente desapareceu como explicação direta para os resultados observados.

O que surgiu com força foi outro fator: a chuva

No milho primeira safra do Sul, cada milímetro adicional de precipitação por mês esteve associado a um aumento médio de 21,8 kg por hectare. Na soja da mesma região, o ganho foi de 15 kg por hectare. No sorgo do Nordeste, a resposta chegou a 24 kg por hectare para cada milímetro adicional de chuva. A mensagem era clara: para os grãos, o El Niño importa principalmente porque altera a distribuição das chuvas.

Quando o assunto é leite, o calor pesa mais que a chuva

Se a precipitação aparece como protagonista para as lavouras, na pecuária leiteira a variável dominante é outra.

Ao analisar a captação mensal de leite entre 2001 e 2025, os pesquisadores encontraram um resultado que se repetiu em todas as regiões do país: o calor reduz a produção. Mais do que isso, esse foi o efeito mais consistente e estatisticamente robusto identificado em todo o estudo.

No Norte e no Nordeste, cada grau Celsius adicional esteve associado a quedas entre 7,2% e 7,4% na captação de leite. No Sul e no Sudeste, as perdas foram menores, mas ainda relevantes, ficando em torno de 2,5% e 2,2%, respectivamente.

A diferença está relacionada ao próprio ambiente onde os animais produzem. Em regiões mais quentes, os rebanhos já operam próximos do limite de estresse térmico. Quando a temperatura sobe um pouco mais, os impactos aparecem rapidamente: menor consumo de alimento, queda na produção de leite e pior desempenho reprodutivo.

O efeito direto do próprio El Niño sobre a captação foi identificado de forma consistente apenas no Nordeste, onde cada aumento de 1°C no ONI esteve associado a uma redução média de 2,7% na produção, normalmente percebida cerca de dois meses após o pico do fenômeno.

Nas demais regiões, a influência do ENSO se mistura a outros fatores, como disponibilidade de forragem, manejo nutricional, preços e condições climáticas locais.

Em outras palavras: o El Niño não chega diretamente ao tanque de leite. Ele passa primeiro pela chuva, pelas pastagens, pelos grãos, pelo conforto térmico dos animais e pelas decisões tomadas dentro da fazenda.

Um alerta que vai além de 2026

Talvez a descoberta mais importante do estudo não esteja relacionada ao próximo El Niño, mas ao cenário em que ele irá ocorrer. As séries históricas mostram que o aquecimento das temperaturas se intensificou de forma clara a partir de 2013. Ou seja, o fenômeno que se forma agora não encontra o mesmo ambiente climático observado duas ou três décadas atrás. Ele se sobrepõe a uma tendência já estabelecida de aumento das temperaturas, especialmente nas regiões mais vulneráveis ao estresse térmico.

Por isso, olhar apenas para o índice que mede o El Niño pode ser insuficiente. As fases do ENSO continuam sendo um importante sinalizador climático, mas são a temperatura e a precipitação observadas em cada região que determinam o comportamento das pastagens, dos grãos e da produção de leite. 

No fim das contas, essa é a principal mensagem deixada pelos dados de 25 anos analisados pelo MilkPoint: mais importante do que perguntar se 2026 será um ano de El Niño é entender como calor e chuva irão se comportar na sua região. Desta vez, um eventual El Niño de grande magnitude poderá atuar sobre uma base climática já mais quente, ampliando riscos em um cenário que, por si só, já se mostra mais desafiador do que no passado. Porque é nesse nível — e não no meio do Oceano Pacífico — que os impactos realmente aparecem para quem produz leite.

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Material escrito por:

Natália Stefanini

Natália Stefanini

Cientista de Dados Senior na MilkPoint Ventures.

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