Utilizando sensores de atividade instalados nos tornozelos, normalmente usados para detecção de cio e monitoramento da fertilidade, os pesquisadores descobriram que era possível prever se as fazendas apresentavam condições de bem-estar “boas” ou “desafiadoras” ao analisar como as vacas se movimentam, descansam e se comportam em conjunto como rebanho. As descobertas representam um passo importante rumo ao monitoramento prático e em larga escala do bem-estar animal positivo — não apenas a ausência de doenças ou lesões, mas sinais de que as vacas estão genuinamente confortáveis, relaxadas e satisfeitas.
Foto: Farming Life
A pesquisadora da SRUC, Holly Ferguson, afirmou: “Durante anos, a avaliação de bem-estar concentrou-se principalmente na identificação de problemas. O que é empolgante neste trabalho é que estamos começando a identificar sinais mensuráveis de experiências positivas — como é, de fato, uma ‘vaca feliz’ nos dados comportamentais. A tecnologia já está presente em muitas fazendas, portanto isso pode oferecer aos produtores uma forma prática e com baixa demanda de mão de obra para compreender melhor o bem-estar do rebanho, além de apoiar programas de certificação e fortalecer a confiança dos consumidores.”
Tradicionalmente, as avaliações de bem-estar nas fazendas concentram-se na saúde física e em indicadores de produtividade, como claudicação, doenças ou produção de leite. Mas a equipe afirma que o bom bem-estar vai além de evitar condições negativas; trata-se de proporcionar às vacas um ambiente que lhes permita expressar comportamentos naturais.
Holly acrescentou: “Os animais podem ser saudáveis sem necessariamente experimentar estados emocionais positivos. Queríamos explorar se a tecnologia já utilizada nas fazendas poderia ajudar a identificar sinais de conforto, tranquilidade e harmonia social dentro dos rebanhos leiteiros.”
Pauline Murray, diretora do programa Digital Dairy Chain, acrescentou: “Este importante projeto sobre bem-estar das vacas faz parte do nosso trabalho mais amplo, que reúne indústria e pesquisa para demonstrar que muitos desafios da cadeia leiteira podem ser melhorados ou superados por meio da colaboração. Ao trabalharmos juntos, mostramos a força da troca de conhecimento no setor leiteiro entre a SRUC e os parceiros da Digital Dairy Chain, First Milk e Lactalis, para melhorar as condições e o bem-estar no futuro.”
Os pesquisadores descobriram que um dos indicadores mais fortes de bem-estar positivo era a sincronia comportamental — vacas descansando e se movimentando juntas de forma consistente. Esse é um indicador conhecido de bem-estar positivo, pois reflete a capacidade de expressar um “comportamento de rebanho”, algo frequentemente mais evidente em sistemas a pasto. A pesquisa mostrou que os rebanhos que apresentavam comportamento mais estável e sincronizado, tanto no pasto quanto em instalações confinadas, tinham maior probabilidade de serem classificados como de bom bem-estar, enquanto padrões desorganizados estavam associados a condições mais desafiadoras.
Foto: Farming Life
Para validar os resultados, os pesquisadores combinaram os dados dos sensores com a Avaliação Qualitativa de Comportamento (QBA), um método reconhecido de avaliação de bem-estar que analisa como as vacas aparentam estar emocionalmente. Por exemplo, se parecem calmas, relaxadas, assustadas, frustradas ou satisfeitas.
As principais conclusões mostraram que:
- Fazendas com vacas apresentando comportamento de descanso em grupo mais consistente estavam associadas a melhores resultados de bem-estar.
- Menores níveis e maior variabilidade na sincronia comportamental estavam associados a condições de bem-estar mais desafiadoras.
- Maiores alturas das barras de pescoço nos sistemas de alojamento estavam associadas a melhor conforto das vacas em ambientes fechados, enquanto dimensões de baias inferiores às recomendações — incluindo camas mais curtas causadas pelo avanço das barras de pescoço ou dos limitadores peitorais — estavam associadas a piores condições de bem-estar.
- O sistema de sensores previu fazendas com condições de bem-estar desafiadoras com até 87% de precisão e fazendas com bom bem-estar com até 80% de precisão.
- Pequenas mudanças na fazenda, como reposicionar barras de pescoço ou aumentar o comprimento das camas nas instalações, podem ter grande impacto no bem-estar positivo das vacas.
O projeto envolveu 15 produtores de leite do sul e oeste da Escócia e do norte da Inglaterra, trabalhando em parceria com as processadoras de leite First Milk e Lactalis. Derek Kennedy, gerente de fornecimento de leite da Lactalis, afirmou: “É excelente contar com uma forma de medir o bem-estar positivo nas fazendas, com potencial para ser aplicada de forma mais ampla e adequada tanto para sistemas confinados quanto para sistemas a pasto. “Melhor ainda, o novo método é baseado em informações já coletadas pela tecnologia de sensores existente, agregando ainda mais valor às operações das fazendas.”
Artigo de Gemma Murray do Farming Life, traduzido e adaptado pela equipe MilkPoint.
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