É justamente para reconhecer esses profissionais que o MilkPoint criou o Especial Técnicos, série de entrevistas com médicos-veterinários, zootecnistas, agrônomos e consultores indicados pelos próprios integrantes da cadeia do leite por sua contribuição ao desenvolvimento da atividade.
A entrevistada desta edição é Taiani Ourique Gayer, médica-veterinária que atua em propriedades leiteiras da região Norte do Rio Grande do Sul.
Ao receber a indicação, Taiani diz ter sido surpreendida pelo reconhecimento. "Fico muito agradecida e honrada. Acredito que o papel de um bom técnico é levar conhecimento de qualidade aos produtores, transformando as descobertas e atualizações do meio científico em soluções práticas dentro das propriedades."
Para ela, o trabalho da assistência técnica começa na ciência, mas só faz sentido quando consegue chegar ao campo de maneira aplicável. "Somos uma ponte entre a pesquisa e a realidade das fazendas." Mas existe um ingrediente que, na visão da veterinária, é tão importante quanto o conhecimento técnico: a empatia.
A produção de leite exige dedicação todos os dias do ano, sem pausas para finais de semana ou feriados. Por isso, entender a realidade de cada família produtora faz parte do trabalho. "Nem sempre tudo poderá ser feito exatamente da forma ideal. O desafio do técnico é encontrar caminhos que conciliem o bem-estar dos animais, a viabilidade da propriedade e as melhores recomendações técnicas."
No fim das contas, ela resume sua filosofia profissional em uma frase simples, mas poderosa: "Mais do que cuidar dos animais, acredito que um bom técnico também cuida das pessoas."
Quando a assistência técnica muda muito mais que os números
Ao lembrar o episódio mais marcante de sua carreira, Taiani não fala sobre produtividade recorde, grandes investimentos ou resultados zootécnicos.
A história que mais a emocionou aconteceu cerca de um ano depois do início do acompanhamento de uma propriedade. Durante uma conversa, o produtor revelou que, quando iniciaram o trabalho, enfrentava um quadro de depressão e já havia perdido o entusiasmo pela atividade leiteira — e pela própria vida. Com o passar dos meses, porém, algo começou a mudar.
As conversas frequentes, o planejamento conjunto, os novos objetivos e as melhorias implementadas na fazenda fizeram com que ele voltasse a enxergar perspectivas de crescimento. Segundo o próprio produtor, deixou de trabalhar apenas por obrigação e voltou a encontrar propósito na atividade. Pouco tempo depois, os resultados também apareceram na propriedade. A situação financeira melhorou significativamente, trazendo mais tranquilidade para toda a família.
Para Taiani, essa experiência mudou sua forma de enxergar a profissão. "A assistência técnica vai muito além dos números e dos indicadores produtivos. Trabalhamos diariamente para melhorar a vida dos animais, mas também temos a oportunidade de impactar positivamente as pessoas que estão por trás de cada propriedade. Sem dúvida, essa é uma das maiores recompensas da nossa profissão."
Produzir leite também é formar pessoas
Na avaliação da veterinária, um dos maiores desafios atuais da pecuária leiteira brasileira é a escassez de mão de obra qualificada. A atividade exige dedicação diária, atenção aos detalhes e execução consistente de processos que influenciam diretamente a produtividade, a qualidade do leite e o bem-estar dos animais.
Encontrar profissionais preparados — e mantê-los nas propriedades — tornou-se uma dificuldade crescente para muitos produtores. Ao mesmo tempo, Taiani acredita que justamente aí está uma das maiores oportunidades para o setor.
Existe demanda por pessoas capacitadas e comprometidas, enquanto cada vez mais profissionais voltam a enxergar valor na vida no campo e nas possibilidades de crescimento dentro do agronegócio. "A bovinocultura leiteira transforma vidas."
Ela cita exemplos de colaboradores que construíram patrimônio, formaram seus filhos, conquistaram estabilidade financeira e realizaram projetos pessoais trabalhando em fazendas leiteiras. Na visão da veterinária, o próprio mercado consumidor também abre perspectivas positivas. Com consumidores cada vez mais atentos à saúde e à alimentação, os lácteos ganham relevância por seu alto valor nutricional, especialmente como fonte de proteínas de qualidade.
Para aproveitar esse potencial, entretanto, ela acredita que o setor precisa se aproximar ainda mais da sociedade. "Precisamos mostrar ao consumidor o que acontece dentro das fazendas, demonstrando o cuidado com os animais, a dedicação das famílias produtoras e todo o trabalho necessário para levar um alimento de qualidade até a mesa das pessoas."
A diferença entre quem evolui e quem fica para trás
Depois de acompanhar propriedades com diferentes níveis de desempenho, Taiani identifica um padrão entre os produtores que conseguem evoluir continuamente. Segundo ela, a paixão pela atividade é importante, mas precisa estar acompanhada de disciplina.
Os produtores que mais avançam executam os processos com consistência, acreditam na assistência técnica e entendem que não existem receitas prontas para todas as fazendas. Cada propriedade possui uma realidade própria e exige soluções adaptadas ao seu sistema de produção. Ela observa ainda que esses produtores costumam ter visão de longo prazo.
São agricultores comprometidos com a produção de alimentos de qualidade para o rebanho, valorizam a qualidade do leite, investem na criação de bezerras e novilhas e sabem que o futuro do rebanho começa muito antes da ordenha. "Afinal, o produtor que pensa no futuro sabe que as vacas que estará ordenhando daqui a dois anos estão sendo formadas hoje."
Além disso, investem continuamente em saúde do rebanho, conforto e bem-estar animal, acompanham as inovações do setor e mantêm uma postura permanente de aprendizado.
Já aqueles que enfrentam maiores dificuldades costumam enxergar mudanças apenas como custo, resistem a novas tecnologias ou buscam soluções imediatas, sem considerar os ganhos que podem ser obtidos no longo prazo.
Ciência, empatia e propósito
Para quem está iniciando na assistência técnica, Taiani acredita que estudar continuamente é apenas parte da construção de uma carreira sólida.
O conhecimento científico precisa caminhar ao lado da capacidade de compreender as pessoas. Antes de recomendar qualquer mudança, ela considera essencial avaliar se aquela proposta é realmente viável para a realidade da fazenda.
O produtor tem condições de investir? A equipe conseguirá executar o novo processo? O retorno justificará o investimento?
Essas perguntas, segundo ela, fazem toda a diferença. "A empatia é uma das características mais importantes para quem trabalha com assistência técnica na produção de leite." Ao mesmo tempo, reforça que o profissional nunca deve se afastar da ciência. É responsabilidade do técnico buscar novos conhecimentos e transformar as descobertas científicas em melhorias práticas para produtores e animais.
Por fim, deixa um conselho que resume sua forma de atuar no campo. "Cada profissional deveria sair de casa todos os dias com um propósito muito claro: encontrar uma forma de deixar a fazenda melhor do que estava quando chegou."
Segundo ela, é assim que se constroem relações de confiança, resultados consistentes e um legado capaz de transformar propriedades — e pessoas.
Indique um técnico que faz a diferença
O Especial Técnicos nasceu para reconhecer profissionais que ajudam a fortalecer a produção de leite brasileira por meio do conhecimento, da dedicação e da parceria construída diariamente com os produtores.
Conhece um médico-veterinário, zootecnista, agrônomo ou consultor que merece esse reconhecimento? Envie sua indicação para contato@milkpoint.com.br e ajude o MilkPoint a contar histórias de quem faz a diferença dentro das fazendas.
Acompanhe as próximas entrevistas da série e conheça os profissionais que estão ajudando a transformar a pecuária leiteira brasileira, uma propriedade de cada vez.
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