Com o objetivo de compreender melhor essa realidade, o Núcleo de Pesquisa em Ambiência (NUPEA) da Escola Superior “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (USP) em uma parceria com o Instituto de Zootecnia, avaliou dados durante três anos consecutivos para entender as variações sazonais nas características do leite, assim como também a relação entre clima, qualidade do leite e remuneração do produtor.
Os dados foram coletados em 25 propriedades leiteiras comerciais localizadas na região metropolitana de Piracicaba, estado de São Paulo. Os animais eram da raça Holandesa criados em sistema de produção à pasto. Foram utilizados modelos estatísticos e técnicas de inteligência artificial para projetar os possíveis efeitos do aquecimento global sobre a qualidade do leite até o ano de 2100. Os resultados revelam um cenário que merece atenção de produtores, laticínios, cooperativas e formuladores de políticas públicas para os próximos anos.
Temperatura é o principal fator climático que afeta a qualidade do leite
As análises mostraram que a temperatura do ar foi o principal fator responsável pelas variações observadas na composição e na qualidade do leite. De forma geral, o aumento da temperatura ambiental esteve associado à redução dos teores de gordura e proteína, possivelmente em decorrência das alterações fisiológicas e metabólicas induzidas pelo estresse térmico.
Em condições de calor, as vacas tendem a reduzir o consumo de matéria seca, comprometendo a disponibilidade de nutrientes e energia para a glândula mamária. Além disso, o redirecionamento da energia para mecanismos de dissipação de calor e as alterações no metabolismo ruminal podem reduzir a síntese de ácidos graxos e proteínas do leite, resultando em menores concentrações desses componentes.
Os modelos indicaram que aproximadamente 36% das variações observadas na composição do leite, na qualidade higiênico-sanitária e no valor pago ao produtor foram associadas às condições climáticas. Essa relação ocorreu de forma indireta, uma vez que as variáveis climáticas influenciaram parâmetros utilizados pelos laticínios para bonificações e penalizações, especialmente os teores de gordura e proteína e os indicadores higiênico-sanitários. Assim, o clima não determina diretamente o pagamento do leite, mas pode afetar a remuneração ao modificar atributos de qualidade considerados nos sistemas de pagamento.
Esse resultado demonstra que o clima exerce influência direta sobre o desempenho produtivo e econômico das propriedades leiteiras, especialmente em sistemas tropicais baseados em vacas Holandesas.
Estações mais frias produzem leite de melhor qualidade
Durante o outono e o inverno foram observados os maiores teores de gordura e proteína no leite. Consequentemente, essas estações apresentaram os melhores valores de remuneração ao produtor. Além da maior concentração de sólidos, o leite produzido nos períodos mais amenos possui maior valor tecnológico para a indústria, aumentando o rendimento na fabricação de derivados como queijos, manteiga e leite em pó.
Esses resultados apontam a importância de estratégias de manejo que reduzam os efeitos do estresse térmico durante os períodos mais quentes do ano.
O aquecimento global pode reduzir a qualidade nutricional do leite
As projeções climáticas realizadas até o final do século indicam uma tendência consistente de redução dos sólidos do leite. Os teores de gordura, atualmente próximos de 3,31%, poderão cair para aproximadamente 3,21% até 2100. A proteína também apresentou tendência de redução, passando de 3,14% para cerca de 3,11%.
Embora essas diferenças pareçam pequenas à primeira vista, seus impactos acumulados podem ser expressivos quando considerados milhões de litros produzidos anualmente. Menores concentrações de gordura e proteína significam menor valor nutricional, menor rendimento industrial e menor remuneração aos produtores.
Qualidade higiênico-sanitária tende a piorar
Enquanto os sólidos do leite apresentaram tendência de redução, os indicadores microbiológicos seguiram direção oposta. As projeções apontam aumento progressivo da Contagem Padrão em Placas (CPP), que poderá ultrapassar 1,13 milhão de UFC/mL até o final do século. A Contagem de Células Somáticas (CCS) também apresentou tendência de crescimento.
Esse cenário sugere que temperaturas mais elevadas favorecem a proliferação de microrganismos e aumentam os desafios sanitários enfrentados pelos sistemas de produção. Do ponto de vista da segurança dos alimentos, esse resultado é particularmente preocupante, pois pode aumentar os riscos relacionados à qualidade do leite cru e exigir maiores investimentos em controle sanitário.
O sistema de pagamento atual não acompanha os riscos climáticos
Talvez o resultado mais importante do estudo tenha sido a identificação de uma desconexão entre a deterioração da qualidade do leite e os mecanismos de remuneração atualmente utilizados. Enquanto a redução da gordura impacta diretamente o pagamento ao produtor, o aumento das contagens microbiológicas praticamente não altera os valores pagos. Em outras palavras, o sistema econômico penaliza a perda de sólidos, mas não responde adequadamente ao aumento dos riscos sanitários associados às mudanças climáticas.
Essa situação evidencia a necessidade de revisar os programas de pagamento por qualidade, incorporando indicadores que reflitam melhor os desafios impostos pelo aquecimento global.
Como a pecuária leiteira pode se adaptar?
Os resultados indicam que a adaptação será fundamental para manter a competitividade da atividade leiteira nas próximas décadas. Entre as principais estratégias destacam-se:
- Implantar recursos de ambiência para o sistema produtivo;
- Implantação de sistemas de sombreamento; ventilação adequada e sistemas de resfriamento;
- Melhorias e planejamentos para o manejo nutricional durante períodos quentes;
- Seleção genética para maior tolerância ao calor;
- Fortalecimento dos programas de controle de mastite;
- Aperfeiçoamento das rotinas de higiene na ordenha;
- Monitoramento contínuo das condições ambientais.
A adoção dessas medidas poderá reduzir os impactos negativos das mudanças climáticas sobre a qualidade do leite e a rentabilidade das propriedades e dar subsídios para os produtores tomarem decisões mais assertivas.
Limitações e perspectivas futuras
Embora os resultados indiquem tendências consistentes e biologicamente plausíveis sobre os efeitos do aquecimento climático na qualidade e no valor econômico do leite, algumas limitações devem ser consideradas. As projeções foram desenvolvidas a partir de uma série temporal relativamente curta (três anos de monitoramento) e de um conjunto de 25 propriedades leiteiras localizadas em uma mesma região climática do Brasil. Dessa forma, os modelos representam um cenário exploratório e não devem ser interpretados como previsões absolutas do comportamento futuro dos sistemas leiteiros.
Além disso, projeções até 2100 envolvem incertezas inerentes relacionadas às trajetórias climáticas futuras, avanços tecnológicos, mudanças genéticas dos rebanhos, adoção de estratégias de mitigação e transformações nos sistemas de produção e comercialização do leite. Portanto, os resultados devem ser compreendidos como indicativos de tendências potenciais sob as condições avaliadas.
Estudos futuros envolvendo séries históricas mais longas, maior número de propriedades, diferentes regiões climáticas e variáveis adicionais, como radiação solar, velocidade do vento, indicadores fisiológicos e respostas produtivas dos animais, serão fundamentais para aumentar a robustez das projeções e aprimorar a compreensão dos impactos das mudanças climáticas sobre a cadeia leiteira. Inclusive, o nosso grupo de pesquisa por meio do email: robsonsilveira@usp.br estará recebendo contatos para parceiros com disponibilidade de dados para compor o estudo de forma ampliada para todo o pais.
Considerações finais
As mudanças climáticas representam uma ameaça real não apenas para a quantidade de leite produzida, mas também para sua qualidade nutricional, higiênico-sanitária e econômica. Os resultados deste estudo mostram que o aumento da temperatura tende a reduzir os teores de gordura e proteína, aumentar os riscos microbiológicos e comprometer a remuneração dos produtores ao longo do século XXI.
Diante desse cenário, torna-se essencial investir em estratégias integradas de adaptação, combinando ambiência e bem-estar animal, manejo ambiental, melhoramento genético e revisão dos sistemas de pagamento por qualidade. Garantir a sustentabilidade da pecuária leiteira tropical exigirá que ciência, produtores, indústria e formuladores de políticas atuem de forma conjunta para enfrentar os desafios impostos pelo clima em transformação.