O colostro é apenas o começo da história

Como o Brix do colostro e o Brix sérico podem transformar o manejo de bezerras leiteiras?

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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O artigo discute a importância da Transferência de Imunidade Passiva (TIP) em bezerras, destacando que a simples administração de colostro não garante proteção adequada. A qualidade, quantidade e rapidez no fornecimento do colostro são essenciais. O refratômetro Brix é apresentado como uma ferramenta eficaz para avaliar a concentração de imunoglobulinas. A monitorização do Brix sérico confirma a absorção de imunidade. O texto enfatiza que a eficácia da colostragem deve ser medida pela imunidade alcançada no sangue da bezerra.
As fotografias apresentadas neste artigo são provenientes da rotina de assistência técnica desenvolvida pelo próprio autor em propriedades leiteiras e ilustram a aplicação prática do protocolo de monitoramento da Transferência de Imunidade Passiva (TIP). Todas as imagens são de arquivo pessoal do autor. 

É comum ouvir nas fazendas a seguinte frase logo após o nascimento de uma bezerra: "ela já tomou o colostro." Mas será que essa afirmação é suficiente para garantir que a bezerra recebeu a proteção necessária para enfrentar os primeiros desafios da vida?

Talvez essa seja uma das maiores diferenças entre a colostragem tradicional e a colostragem baseada em indicadores.

Durante muitos anos, acreditou-se que fornecer colostro era suficiente. Hoje sabemos que isso representa apenas parte da história. O verdadeiro sucesso depende da quantidade de imunoglobulinas que conseguiram atravessar o intestino e alcançar a circulação sanguínea nas primeiras horas de vida. Em outras palavras, produzir um excelente colostro não garante, por si só, uma transferência eficiente de imunidade passiva.

Muito além do fornecimento do colostro

Os bovinos possuem placenta do tipo sindesmocorial, que praticamente impede a passagem de anticorpos da mãe para o feto durante a gestação. Assim, a bezerra nasce praticamente sem imunidade e depende exclusivamente do colostro para adquirir proteção contra os agentes infecciosos presentes no ambiente (Weaver et al., 2000).

Essa transferência ocorre por um período muito curto. Nas primeiras horas após o nascimento, o intestino apresenta elevada capacidade de absorção das imunoglobulinas, principalmente da IgG. Entretanto, aproximadamente 24 horas após o parto ocorre o chamado fechamento intestinal (gut closure), reduzindo drasticamente essa capacidade (Godden, 2008).

Por isso, qualidade, quantidade e rapidez no fornecimento do colostro continuam sendo os pilares da criação de bezerras.

Diversos estudos demonstram que bezerras com Falha na Transferência de Imunidade Passiva (FTIP) apresentam maior risco de mortalidade, maior incidência de diarreias e doenças respiratórias, menor ganho de peso durante a recria e redução do desempenho produtivo na vida adulta. Além dos impactos sobre a saúde animal, essas perdas refletem diretamente na rentabilidade da atividade leiteira, aumentando gastos com medicamentos, mão de obra, descarte precoce e reduzindo o potencial produtivo das futuras vacas (Godden et al., 2019; Lombard et al., 2020).

O protagonismo do refratômetro Brix

Durante muito tempo, a qualidade do colostro foi avaliada apenas pela aparência. Hoje sabemos que essa prática pode induzir ao erro.

O refratômetro Brix consolidou-se como uma ferramenta simples, rápida, reprodutível e de baixo custo para estimar indiretamente a concentração de imunoglobulinas presentes no colostro. Diversos estudos demonstram excelente correlação entre valores iguais ou superiores a 22% Brix e concentrações adequadas de IgG para a primeira alimentação da bezerra (Quigley et al., 2013).

Classificação prática do Brix do colostro

  • < 18% – Baixa qualidade

  • 18 a 21% – Qualidade intermediária

  • ≥ 22% – Excelente qualidade

Essa avaliação permite selecionar os melhores colostros e formar bancos de colostro de alta qualidade para utilização futura.

Figuras 1, 2, 3, e 4: coleta da amostra do colostro, e avaliação da qualidade do colostro utilizando refratômetro Brix. Fonte: Arquivos pessoal do autor.

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Medir apenas o colostro não basta

Na rotina de assistência veterinária, é relativamente comum encontrar propriedades que produzem colostro de excelente qualidade, frequentemente acima de 22% Brix, mas que ainda apresentam elevada incidência de diarreias, broncopneumonias e mortalidade de bezerras. Essa aparente contradição demonstra que avaliar apenas a qualidade do colostro não é suficiente para garantir uma transferência eficiente de imunidade.

Por quê? Porque produzir um bom colostro não garante que ele foi absorvido. Falhas como atraso na primeira mamada, volume insuficiente, elevada contaminação bacteriana ou dificuldades de sucção podem comprometer a Transferência de Imunidade Passiva (TIP).

É justamente nesse ponto que o Brix sérico se torna uma ferramenta indispensável. O Brix sérico confirma se a imunidade realmente chegou ao sangue A avaliação do Brix sérico entre 24 horas e 7 dias de idade é atualmente uma das ferramentas de campo mais confiáveis para monitorar a eficiência da Transferência de Imunidade Passiva (Lombard et al., 2020).

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Na prática, não basta saber o que foi oferecido à bezerra. É necessário confirmar que as imunoglobulinas foram efetivamente absorvidas e alcançaram a circulação sanguínea.

Interpretação do Brix sérico

Brix sérico

Interpretação

<8,1%

Falha na TIP

8,1–8,8%

Regular

8,9–9,3%

Boa

≥9,4%

Excelente

Mais do que avaliar um único animal, o acompanhamento sistemático desses resultados permite identificar falhas de manejo e orientar ações corretivas na propriedade.

Sob o ponto de vista econômico, monitorar a eficiência da colostragem representa um investimento de elevado retorno. A identificação precoce de falhas permite corrigir problemas de manejo antes que elas se traduzam em perdas produtivas, reduzindo despesas com tratamentos, diminuindo a mortalidade e favorecendo maior desenvolvimento das futuras matrizes. Dessa forma, o refratômetro deixa de ser apenas um instrumento de medição e passa a ser uma ferramenta estratégica de gestão da criação de bezerras.

O protocolo utilizado na rotina de campo

Na assistência veterinária a propriedades leiteiras, tenho adotado um protocolo simples e objetivo para monitorar a eficiência da colostragem:

  1. Avaliação do Brix do colostro imediatamente após a ordenha.

  2. Registro do volume e do horário da primeira mamada.

  3. Coleta de sangue aproximadamente 24 horas após o nascimento para determinação do Brix sérico.

  4. Separação do soro e determinação do Brix sérico.

  5. Nova avaliação aos sete dias de vida, associando os resultados laboratoriais com a evolução clínica da bezerra.

As figuras de 1 a 4 ilustram etapas desse protocolo utilizado na rotina de campo. As imagens foram obtidas durante atendimentos realizados pelo próprio autor em propriedades leiteiras.

Figura 5: coleta de sangue de bezerra para monitoramento da TIP. Fonte: Arquivos pessoal do autor.

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Figura 6: mostra de sangue coletada. Fonte: Arquivos pessoal do autor.

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Figura 7: soro obtido da amostra, utilizado para determinação do Brix sérico. Fonte: Arquivos pessoal do autor.

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Figura 8: determinação do Brix sérico por meio de refratômetro óptico. Fonte: Arquivos pessoal do autor.

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Cinco falhas de manejo que ainda comprometem a colostragem

  1. Acreditar que todo colostro possui boa qualidade.

  2. Fornecer o colostro tardiamente.

  3. Administrar volume insuficiente.

  4. Não avaliar a TIP.

  5. Não registrar indicadores para acompanhar a evolução do manejo.

O que produtores e técnicos podem aprender com isso?

Quando se fala em colostragem, a atenção normalmente se concentra apenas no momento da primeira mamada. Entretanto, a primeira mamada representa apenas o início de um processo muito mais complexo. O verdadeiro objetivo não é apenas fornecer colostro. O verdadeiro objetivo é garantir que a imunidade alcance efetivamente a corrente sanguínea da bezerra.

Ao transformar o Brix do colostro e o Brix sérico em indicadores de rotina, o produtor deixa de trabalhar com expectativas e passa a tomar decisões baseadas em evidências.

Recado final para quem está no campo

Depois de acompanhar inúmeros partos e programas de criação de bezerras em propriedades leiteiras, uma conclusão tornou-se evidente: fornecer colostro de qualidade é indispensável, mas não é suficiente para assegurar uma transferência eficiente de imunidade passiva.

Na bovinocultura leiteira moderna, o sucesso da colostragem não deve ser medido apenas pela qualidade do colostro ofertado, mas principalmente pela capacidade de confirmar que as imunoglobulinas foram efetivamente absorvidas pela bezerra.

Ao incorporar a avaliação do Brix do colostro e do Brix sérico como indicadores de rotina, o produtor deixa de trabalhar com expectativas e passa a tomar decisões baseadas em evidências, identificando precocemente falhas de manejo, reduzindo perdas econômicas e formando animais mais saudáveis e produtivos.

No final das contas, não existe colostragem de sucesso quando medimos apenas aquilo que saiu da vaca. O verdadeiro sucesso é comprovado quando medimos aquilo que chegou ao sangue da bezerra. Porque o colostro representa apenas o começo da história.

Referências bilbiográficas

  • Deelen SM, Ollivett TL, Haines DM, Leslie KE. Evaluation of a Brix refractometer to estimate serum immunoglobulin G concentration in neonatal dairy calves. Journal of Dairy Science. 2014;97:3838–3844.

  • Godden SM. Colostrum management for dairy calves. Veterinary Clinics of North America: Food Animal Practice. 2008;24:19–39.

  • Godden SM, Lombard JE, Woolums AR. Colostrum management for dairy and beef calves. Veterinary Clinics of North America: Food Animal Practice. 2019;35:535–556.

  • Lombard JE, Urie NJ, Garry FB, et al. Consensus recommendations on calf- and herd-level passive immunity in dairy calves in the United States. Journal of Dairy Science. 2020;103:7611–7624.

  • Quigley JD, Lago A, Chapman C, Erickson P, Polo J. Evaluation of the Brix refractometer to estimate immunoglobulin G concentration in bovine colostrum. Journal of Dairy Science. 2013;96:1148–1155.

  • Weaver DM, Tyler JW, VanMetre DC, Hostetler DE, Barrington GM. Passive transfer of colostral immunoglobulins in calves. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2000;14:569–577.

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Material escrito por:

Leonardo Freire Quintanilha

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