Papilomatose bovina: por que alguns animais eliminam verrugas e outros não?

Você sabia que as verrugas podem ser apenas a parte visível do problema?

Publicado em: - 7 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 3

É relativamente comum encontrar bovinos apresentando papilomas extensos, persistentes e de evolução prolongada. Em outros casos, porém, observa-se regressão espontânea das lesões, mesmo na ausência de intervenções mais intensivas.

Essa diferença de comportamento clínico levanta uma pergunta importante: por que alguns bovinos conseguem eliminar naturalmente os papilomas, enquanto outros desenvolvem lesões exuberantes e persistentes? Talvez a resposta esteja menos nas verrugas e mais na capacidade do próprio organismo em reconhecer e controlar a infecção.

Muito além de uma doença de pele

A papilomatose bovina é causada pelo Papilomavírus Bovino (BPV), pertencente à família Papillomaviridae.

Embora geralmente apresente caráter benigno, a enfermidade pode gerar impactos importantes nos sistemas de produção, incluindo:

  • desvalorização comercial dos animais;

  • dificuldades de manejo;

  • predisposição a traumatismos e infecções secundárias;

  • comprometimento do bem-estar animal;

  • problemas na ordenha, quando há acometimento dos tetos;

  • prejuízos produtivos e econômicos.

Além disso, a ocorrência frequente da enfermidade pode refletir desafios relacionados à imunidade, nutrição, parasitismo, estresse, manejo sanitário e biosseguridade do rebanho. A papilomatose talvez seja uma das doenças que melhor ilustram que a evolução clínica não depende apenas do vírus, mas da interação entre agente, hospedeiro e ambiente.

O protagonismo da resposta imunológica

A regressão espontânea dos papilomas é um fenômeno reconhecido na medicina veterinária. Diversos trabalhos demonstram que a resposta imunológica celular, especialmente envolvendo linfócitos T e macrófagos, exerce papel fundamental no reconhecimento e eliminação das células infectadas pelo vírus.

Sob essa perspectiva, a papilomatose bovina talvez seja uma das enfermidades que melhor demonstram a interação entre agente, hospedeiro e ambiente. Em muitos animais, a diferença entre a regressão espontânea e a persistência das lesões pode estar menos relacionada ao tamanho das verrugas e mais à capacidade do organismo em controlar a infecção.

Cinco fatores que podem influenciar a evolução da doença

1. Resposta imunológica

Animais com resposta imunológica mais eficiente tendem a apresentar maior capacidade de controlar a infecção e favorecer a regressão espontânea das lesões.

2. Estado nutricional

Deficiências nutricionais podem comprometer mecanismos de defesa e interferir na capacidade do organismo em responder adequadamente à infecção.

3. Carga parasitária

Elevadas cargas parasitárias representam desafios adicionais ao organismo e podem influenciar negativamente a resposta imunológica.

4. Estresse

Fatores como calor, transporte, superlotação, competição e outros desafios ambientais podem contribuir para alterações na resposta do hospedeiro.

5. Desafios sanitários concomitantes

Outras enfermidades e condições debilitantes podem favorecer a persistência das lesões e dificultar o controle da infecção.

Por que ainda não existe uma resposta única?

Diferentes abordagens terapêuticas têm sido descritas na literatura e utilizadas na prática veterinária em busca de favorecer mecanismos relacionados à resposta do hospedeiro. Entretanto, a evolução clínica da papilomatose bovina é multifatorial e influenciada por características individuais do animal, intensidade da infecção, estado nutricional, desafios sanitários concomitantes e pela própria ocorrência de regressão espontânea da enfermidade. Por isso, resultados observados em casos individuais devem sempre ser interpretados com cautela.

Mitos sobre a papilomatose bovina

1 - Toda verruga precisa ser tratada

Nem sempre. A regressão espontânea é uma característica reconhecida da enfermidade.

2 - Se um animal melhorou, foi necessariamente por causa do tratamento

Não necessariamente. A evolução natural da doença pode incluir regressão espontânea.

3 - Existe uma solução que funciona para todos os casos

Não existe. A evolução da papilomatose bovina é multifatorial e individual.

O que foi observado em um caso acompanhado em condições de campo

Em um bovino mestiço, com 14 meses de idade, apresentando acometimento extenso por papilomatose bovina na região cervical, foi instituído protocolo clínico individualizado elaborado e conduzido pelo médico-veterinário responsável pelo caso, considerando as condições específicas observadas no animal e na propriedade. Entre as medidas empregadas estiveram a administração de levamisol, associada à auto-hemoterapia e à implantação subcutânea de fragmento autólogo de papiloma.

Continua depois da publicidade

Durante o acompanhamento clínico, foram realizadas avaliações seriadas da evolução das lesões, sendo observada regressão progressiva dos papilomas e evolução favorável do quadro. As imagens a seguir ilustram a evolução clínica observada durante o período de acompanhamento.

Figura 1 e Figura 2: aspecto inicial do animal. Bovino mestiço apresentando acometimento extenso por papilomatose bovina na região cervical. As lesões apresentavam crescimento progressivo e extensão significativa. Fotos: arquivo pessoal do autor.

 

Figura 3. Evolução observada durante o acompanhamento. Alterações progressivas no aspecto das lesões observadas ao longo do acompanhamento clínico. Foto: arquivo pessoal do autor.

 

Figura 4. Aspecto clínico observado após 35 dias. Regressão acentuada das lesões observada durante o período de acompanhamento. Foto: arquivo pessoal do autor.

 

Importante: as imagens apresentadas correspondem ao acompanhamento clínico de um caso individual em condições reais de campo e possuem finalidade técnico-ilustrativa.

O protocolo empregado correspondeu a uma decisão clínica adotada pelo médico-veterinário responsável nas circunstâncias específicas do caso.

As observações descritas não constituem estudo experimental controlado e, portanto, não permitem estabelecer relação de causa e efeito entre a evolução clínica observada e quaisquer medidas empregadas durante a assistência ao animal.

Algumas das abordagens empregadas na prática clínica apresentam evidências científicas limitadas e permanecem objeto de discussão na literatura veterinária. Dessa forma, os resultados observados em casos individuais não devem ser interpretados como validação de eficácia dessas intervenções.

A regressão espontânea da papilomatose bovina é uma característica reconhecida da enfermidade e deve sempre ser considerada na interpretação dos resultados.

O que produtores e técnicos podem aprender com isso?

Quando se fala em papilomatose bovina, é comum concentrar a atenção apenas nas verrugas. Entretanto, as lesões representam apenas a manifestação visível de um processo muito mais complexo. Por isso, medidas relacionadas à saúde global do rebanho continuam sendo fundamentais:

  • nutrição adequada;

  • controle parasitário eficiente;

  • redução dos fatores de estresse;

  • boas práticas de biosseguridade;

  • manejo sanitário criterioso;

  • acompanhamento veterinário regular.

Independentemente da estratégia adotada, esses fatores permanecem como pilares importantes para a prevenção e o controle da enfermidade. Da mesma forma, é importante evitar a expectativa de soluções únicas ou resultados imediatos.

Na prática, isso significa que, diante de dois animais aparentemente semelhantes, a evolução da doença pode ser completamente diferente, reforçando a importância de avaliar cada caso de forma individual e considerar o contexto sanitário do rebanho como um todo.

Recado final para quem está no campo

Quando se observa um animal tomado por verrugas, é natural que a primeira pergunta seja: "como eliminar os papilomas?" Mas talvez exista uma pergunta ainda mais importante: "por que alguns animais conseguem controlar naturalmente a infecção enquanto outros desenvolvem lesões exuberantes e persistentes?" A resposta provavelmente não está apenas no vírus. Nem apenas nas verrugas. Ela parece surgir da interação entre agente, hospedeiro e ambiente.

Porque, na papilomatose bovina, muitas vezes o maior erro é enxergar apenas as verrugas. Em muitos casos, elas são apenas a parte visível da história.

Considerações finais

As observações apresentadas neste artigo têm a finalidade exclusivamente técnico-educacional e baseiam-se na literatura científica disponível e no acompanhamento clínico de um caso individual em condições reais de campo.

A evolução clínica descrita não constitui evidência de eficácia das medidas empregadas, nem permite estabelecer relação de causa e efeito entre quaisquer intervenções e a regressão das lesões observadas.

A regressão espontânea da papilomatose bovina é um fenômeno reconhecido da enfermidade e deve sempre ser considerada na interpretação dos resultados.

As condutas clínicas adotadas em casos individuais são de responsabilidade do médico-veterinário assistente, devendo ser definidas conforme as características do animal, do rebanho e das condições específicas de cada sistema de produção.

Dessa forma, as informações aqui apresentadas não devem ser interpretadas como protocolo terapêutico, recomendação universal ou substituição do julgamento clínico e da responsabilidade técnica do médico-veterinário responsável pelo caso.

Fontes consultadas:

BORZACCHIELLO, G.; ROPERTO, F. Bovine papillomaviruses, papillomas and cancer in cattle. Veterinary Research, v. 39, n. 5, 2008.

CAMPO, M. S. Animal models of papillomavirus pathogenesis. Virus Research, v. 89, p. 249–261, 2002.

FREITAS, A. C.; SILVA, M. A. R.; CARVALHO, C. C. R. et al. Bovine papillomavirus: biology and associated diseases. Virology Journal, v. 8, p. 137, 2011.

NASIR, L.; CAMPO, M. S. Bovine papillomaviruses: their role in the aetiology of cutaneous tumours of bovids and equids. Veterinary Dermatology, v. 19, p. 243–254, 2008.

LIMA, A. K. S. Papilomatose em ruminantes: revisão da literatura. Universidade de São Paulo, 2021.

CÂNDIDO, T. B. et al. Papilomatose bovina: uma revisão narrativa de literatura. Revista de Educação Continuada em Medicina Veterinária e Zootecnia do CRMV-SP, 2024.

DOS PRAZERES, M. S. et al. Papilomatose bovina. Arquivos Brasileiros de Medicina Veterinária FAG, 2024.

RADOSTITS, O. M. et al. Veterinary Medicine: A textbook of the diseases of cattle, horses, sheep, pigs and goats. 10. ed. Saunders Elsevier, 2007.

SMITH, B. P. Large Animal Internal Medicine. 6. ed. Mosby Elsevier, 2020.

RUSSO, V.; ROPERTO, S.; DE CARLO, E. et al. Bovine papillomavirus: a systematic review. Animals, v. 10, n. 11, 2020.

MUNDAY, J. S. Bovine and human papillomaviruses: a comparative review. Veterinary Pathology, v. 51, n. 6, p. 1063–1075, 2014.

ROPERTO, S.; BORZACCHIELLO, G. Bovine papillomavirus infections and associated diseases in cattle. Veterinary Journal, 2023.

FULTON, R. W. Host response to infectious agents and the role of immunity in cattle health. Veterinary Clinics of North America: Food Animal Practice, v. 39, p. 1–18, 2023.

QUER ACESSAR O CONTEÚDO? É GRATUITO!

Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 3

Material escrito por:

Leonardo Freire Quintanilha

Leonardo Freire Quintanilha

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?