Por ocasião do Mundial, vamos fazer uma viagem curiosa pela cultura láctea dos adversários do Brasil na fase de grupos? Marrocos, Haiti e Escócia — três adversários muito distintos entre si — revelam realidades igualmente contrastantes quando se trata de pecuária de leite. Prepare-se para algumas surpresas.
Marrocos: o país que bebe mais leite no Ramadã
Marrocos é um dos maiores produtores de leite da África, mas enfrenta um paradoxo curioso: produz muito e ainda assim não consegue abastecer a própria demanda. O país tem cerca de 2,4 milhões de cabeças de bovinos, sendo a maioria composta por raças locais com produção média de apenas 500 kg por ano — um número bem abaixo dos padrões internacionais. As fazendas são predominantemente pequenas, com média de 4 vacas por propriedade, e a ordenha ainda é feita manualmente na maior parte dos casos.
O consumo per capita nacional gira em torno de 38 kg/habitante/ano — menos da metade dos 90 kg recomendados pela OMS. Mas essa média esconde uma desigualdade marcante: famílias urbanas ricas consomem quase 90 kg per capita, enquanto populações rurais ficam bem abaixo disso.
Há, porém, um momento do ano em que o leite vira protagonista absoluto na mesa marroquina: o Ramadã. Durante o mês sagrado do islã, o consumo de lácteos dispara cerca de 40%, e o governo chega a importar leite UHT para garantir o abastecimento.
A curiosidade que vale destaque: o Lben
Enquanto o Brasil tem seu iogurte e seu queijo minas, o Marrocos tem o Lben — um leite fermentado espontaneamente que é parte da identidade cultural do país. Diferente do iogurte industrial, o Lben tradicional é feito colocando leite cru em um jarro de argila ou em uma bolsa de couro de cabra chamada checoua, deixando-o fermentar naturalmente por 24 a 72 horas à temperatura ambiente. O resultado é coalhado (chamado rayeb), que depois é batido vigorosamente para separar o líquido ácido — o Lben — da gordura, que vira a manteiga artesanal zebda beldiya (confira na imagem abaixo).
O Lben provoca sorrisos e reações afetivas entre os marroquinos quando mencionado: é comfort food, memória afetiva e parte da refeição cotidiana. Há também o smen (manteiga fermentada envelhecida, com sabor pungente), o jben (queijo fresco) e o klila (queijo duro feito aquecendo o próprio Lben até coalhar). Uma cadeia artesanal impressionante, toda surgida de um único pote de leite cru deixado no calor. Entre 20% e 30% de todo o leite produzido em Marrocos ainda é processado artesanalmente por agricultores e pequenos estabelecimentos — um dado que fala muito sobre a força da tradição láctea local.
Haiti: onde o gado é poupança e o leite é importado
O Haiti é, provavelmente, o caso mais dramático entre os três. Trata-se de um dos países mais pobres do hemisfério ocidental, e sua pecuária leiteira reflete essa realidade de forma direta.
No Haiti, o gado bovino cumpre um papel diferente do que estamos acostumados a ver no Brasil: os animais são, antes de tudo, reserva de valor. Para famílias rurais, ter uma vaca equivale a ter uma poupança — é um ativo que pode ser vendido em momentos de necessidade. A produção de leite para comercialização é mínima e pouco estruturada.
O país praticamente não tem indústria de laticínios formalizada. O leite consumido pela população urbana é majoritariamente importado, em especial leite condensado e em pó, que chegam principalmente da Europa. A instabilidade política crônica, os desastres naturais recorrentes (terremotos, furacões) e a insegurança alimentar generalizada tornam a construção de uma cadeia leiteira sustentável um desafio enorme.
A curiosidade que vale destaque: leite de cabra nas famílias mais pobres
Nas zonas rurais mais remotas do Haiti, onde o acesso ao leite bovino é praticamente inexistente, cabras desempenham um papel fundamental na nutrição familiar. São animais mais baratos de manter, mais resistentes às condições locais e, quando produzem leite, representam uma fonte proteica valiosa — especialmente para crianças.
A FAO tem trabalhado no Haiti com clínicas veterinárias móveis justamente para melhorar a saúde desses rebanhos e aumentar a disponibilidade de alimentos de origem animal para as populações mais vulneráveis. É um retrato que contrasta fortemente com a sofisticação da indústria leiteira brasileira — e que nos lembra por que o desenvolvimento do setor importa além das fronteiras da porteira.
Escócia: 1,5 bilhão de litros, vacas que comem bagaço de uísque e genética de classe mundial
Se Marrocos e Haiti representam desafios, a Escócia é o contraponto de excelência. Com apenas 764 rebanhos leiteiros ativos e cerca de 183 mil vacas, o país produz impressionantes 1,5 bilhão de litros de leite por ano. O número de fazendas caiu 23,7% em uma década — mas a produção por animal continua crescendo, com rebanhos cada vez maiores e mais eficientes.
Cerca de 44% do leite escocês vai para o mercado de leite fluido, e outros 34% são destinados à produção de queijo — um setor que movimentou mais de £261 milhões em 2022/23, com crescimento de quase 10% em um ano só.
A raça predominante é a Holandesa, mas a Escócia guarda uma joia genética própria: a vaca Ayrshire (confira na imagem abaixo), originária do condado de Ayr, no sudoeste do país. Desenvolvida a partir do século XVIII para sobreviver ao clima frio e às pastagens pobres das charnecas escocesas, a Ayrshire produz um leite com gordura e proteína em proporções excepcionais — com menores glóbulos de gordura entre as raças leiteiras principais, o que facilita a digestão e torna o queijo feito com esse leite mais suave e previsível em sabor.
A curiosidade que vale destaque: vacas que bebem uísque (indiretamente)
A Escócia produz uísque em escala industrial, e os destiladores geram enormes quantidades de bagaço fermentado de grãos como subproduto. Em algumas fazendas leiteiras da ilha de Mull, esse bagaço é usado como ração suplementar para as vacas. O resultado é um queijo cheddar com características únicas — o famoso Isle of Mull Cheddar, feito com leite cru e maturado por 12 meses, com textura quebradiça e sabor intenso. Costuma ser consumido acompanhado de um dram de uísque, fechando o ciclo de forma quase poética.
Outro destaque histórico: o queijo Dunlop, produzido na mesma região de Ayrshire desde o século XVII, é um dos queijos mais antigos da Escócia e hoje tem certificação de Indicação Geográfica Protegida (IGP) pela União Europeia. Leve, de textura similar ao cheddar suave, ele é parte da identidade culinária escocesa.
No campo da inovação, a Escócia também merece atenção: o país é reconhecido globalmente por pesquisa em genética e genômica de bovinos leiteiros, desenvolvendo tecnologias que influenciam rebanhos em vários países.
Para além do placar
Marrocos, Haiti e Escócia formam um trio que dificilmente poderia ser mais diverso — tanto em campo quanto nas fazendas. De um lado, uma tradição láctea artesanal de séculos, fermentada em bolsas de couro. De outro, um país onde a vaca é patrimônio familiar e o leite ainda precisa ser importado. E, fechando o grupo, uma potência leiteira que transforma uísque em ração e exporta genética para o mundo.
Para o setor lácteo brasileiro — que figura entre os maiores do planeta em produção e diversidade de sistemas produtivos — conhecer essas realidades é mais do que curiosidade esportiva. É uma janela para entender os desafios e oportunidades de um mercado global que segue em transformação.
Boa sorte ao Brasil dentro de campo. E que o leite vença em todos os países — de uma forma ou de outra.
Artigo produzido com base em dados da FAO, AHDB, Scottish Dairy Cattle Association, Scotland Food & Drink e pesquisas acadêmicas sobre produtos lácteos fermentados marroquinos.