Foi para reconhecer esse trabalho que o MilkPoint criou o Especial Técnicos, uma série de entrevistas com profissionais indicados pelos próprios integrantes da cadeia leiteira por sua contribuição ao desenvolvimento da atividade no Brasil.
O entrevistado desta edição é Rodrigo Mallmann Pessi, médico-veterinário que atua na região Noroeste do Rio Grande do Sul. Com forte atuação em reprodução bovina e assistência técnica, Rodrigo acredita que o trabalho do técnico começa muito antes das recomendações zootécnicas.
Entender pessoas antes dos números
Para Rodrigo, cada propriedade possui uma realidade diferente e o primeiro papel do técnico é compreender os objetivos daquela família. “Um bom técnico precisa entender a realidade de cada propriedade e de cada produtor. Antes de qualquer orientação, é preciso saber quais são os objetivos daquela família, tanto como negócio quanto na vida pessoal."
Segundo ele, toda fazenda pode evoluir, independentemente do nível tecnológico, mas nem todos os produtores desejam seguir o mesmo caminho. "Nosso papel é orientar, mostrar os caminhos e ajudar da forma mais correta possível, sempre respeitando a realidade de cada propriedade. Não cabe a nós querer mudar o perfil das pessoas."
Mais do que indicadores produtivos, Rodrigo lembra que as decisões tomadas no campo impactam diretamente a vida das famílias. "Nós técnicos não podemos trabalhar apenas para apresentar números zootécnicos. Muitas vezes somos responsáveis pelo êxito ou pelo fracasso de uma família inteira, que depende da atividade para sobreviver e realizar seus sonhos."
O resultado é sempre coletivo
Ao recordar a principal conquista da carreira, Rodrigo não cita uma fazenda específica, mas uma mudança de mentalidade na forma de prestar assistência técnica. Quando iniciou sua trajetória, era comum que o médico-veterinário assumisse praticamente todas as demandas da propriedade: clínica, reprodução, nutrição e outras atividades.
Desde o início, porém, ele buscou construir um modelo baseado no trabalho em equipe. "Sempre procurei mudar essa visão. Busquei formar uma equipe e fortalecer o negócio como um todo."
Ligado a uma loja agropecuária e a uma empresa de nutrição, Rodrigo reuniu profissionais de diferentes áreas para oferecer um atendimento mais completo aos produtores. Ao lado de um colega recém-formado, passou a entregar um serviço que ia além do diagnóstico reprodutivo. "Além do fomento e do diagnóstico reprodutivo da fazenda, passamos a fazer todo o processo para quem precisava, desde os manejos dos protocolos até o dia da IATF (inseminação artificial em tempo fixo)."
Enquanto sua equipe conduzia a parte reprodutiva, outros profissionais ofereciam suporte nutricional e atendimento comercial, garantindo que o produtor tivesse acesso tanto ao conhecimento quanto aos insumos necessários. "Nunca trabalhei sozinho. Sempre acreditei que, para entregar um bom resultado, precisava ter muita gente boa envolvida."
Com o passar dos anos, novos profissionais foram incorporados ao grupo, ampliando a capacidade de atendimento e fortalecendo a rede de apoio aos clientes.
Organização financeira ainda é um dos maiores desafios
Na avaliação de Rodrigo, um dos principais gargalos da pecuária leiteira brasileira continua sendo a gestão das propriedades. "Hoje vejo que um dos maiores desafios da produção de leite é a desorganização financeira das propriedades, salvo as exceções."
Ele observa que muitas fazendas ainda trabalham com poucos indicadores produtivos e financeiros, dificultando a tomada de decisão. "Muitas propriedades acabam andando no escuro e sem propósito."
Segundo o veterinário, esse cenário ficou ainda mais evidente nos últimos anos, marcados por eventos climáticos extremos. "Quem já estava sem um norte acabou se perdendo ainda mais, principalmente na parte financeira."
Outro desafio importante, em sua visão, é a sucessão familiar. “Hoje ela acontece pouco e, quando acontece, muitas vezes a nova geração ainda não está preparada, nem tecnicamente nem emocionalmente, para assumir a atividade."
Apesar disso, Rodrigo enxerga boas perspectivas para quem investe em gestão. "O leite continua sendo uma atividade que entrega uma margem líquida por hectare muito boa. Quem consegue manter a propriedade organizada, controlar os números e ter uma boa rotina de trabalho tem grandes chances de crescer, formar patrimônio e construir uma vida digna para a família."
Quem cresce está cercado de boas pessoas
Depois de acompanhar diferentes perfis de produtores, Rodrigo acredita que uma característica faz toda a diferença entre aqueles que evoluem e os que acabam ficando pelo caminho. "Hoje não existe mais como seguir sozinho. O produtor de leite precisa estar aliado a uma equipe que se importe com ele, que queira crescer e evoluir junto."
Na sua avaliação, produtores que contam com assistência técnica qualificada conseguem acessar informações, tecnologias e oportunidades com muito mais rapidez. "Quem tem equipe sempre vai estar por dentro do que tem de bom e de rentável. E, quando chegar um momento difícil, estará amparado."
Já quem insiste em conduzir a atividade isoladamente tende a perder competitividade. "Tem aquele produtor que acha que consegue fazer tudo sozinho. Esse, na minha visão, já está ficando fora do mercado."
O conselho para quem está começando
Para os profissionais que desejam construir uma carreira sólida na assistência técnica, Rodrigo acredita que conhecimento técnico é fundamental, mas não basta. "Seja humilde. Escute antes de falar."
Ele também destaca a importância de construir uma boa rede de parceiros. "Você não precisa saber tudo, mas precisa conhecer e ter contato com quem sabe."
Além disso, recomenda manter uma postura aberta diante das novas tecnologias e metodologias. "Não existe um melhor sistema, um melhor produto ou um melhor protocolo. Cada ferramenta é boa quando utilizada da maneira correta para cada realidade."
Indique um técnico que faz a diferença
O Especial Técnicos nasceu para reconhecer profissionais que ajudam a fortalecer a produção de leite brasileira por meio do conhecimento, da dedicação e da parceria com os produtores.
Conhece um técnico que merece esse reconhecimento? Envie sua indicação para contato@milkpoint.com.br e ajude o MilkPoint a contar histórias de profissionais que fazem a diferença dentro das fazendas.
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