O que separa produtores mais eficientes dos demais?

Nem sempre o volume produzido conta toda a história. Muitas vezes, indicadores como CCS (Contagem de Células Somáticas), composição do leite e estabilidade produtiva revelam diferenças importantes entre propriedades leiteiras.

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Análise de dados de 2.002 produtores de leite no Sul do Brasil revelou três perfis produtivos distintos, com base em indicadores como produção, contagem de células somáticas (CCS) e contagem bacteriana total (CBT). O perfil superior apresentou alta produção e qualidade, enquanto o intermediário mostrou resultados medianos. O perfil com maior variabilidade enfrentou desafios significativos. A classificação desses perfis é crucial para direcionar estratégias de manejo específicas, melhorando a qualidade do leite e a rentabilidade.
Nem sempre o volume produzido conta toda a história. Muitas vezes, indicadores como CCS (Contagem de Células Somáticas), composição do leite e estabilidade produtiva revelam diferenças importantes entre propriedades leiteiras.

Quando analisados em conjunto, esses dados mostram que existem diferentes perfis produtivos dentro da atividade — e que reconhecer essas diferenças pode ser essencial para melhorar a qualidade do leite, aumentar a eficiência e fortalecer a rentabilidade da fazenda. Nem todo produtor de leite enfrenta os mesmos desafios, porém frequentemente todos recebem as mesmas recomendações.

Na prática, isso pode limitar ganhos produtivos e econômicos, já que propriedades com realidades diferentes exigem estratégias diferentes. Quando olhamos para indicadores como produção, CCS e CBT (Contagem Bacteriana Total) de forma integrada, fica evidente que existem perfis distintos dentro da produção leiteira. E entender esses perfis pode ser o primeiro passo para melhorar resultados.

Ao analisar dados reais de produção e qualidade do leite de propriedades do Sul do Brasil, foi possível identificar padrões claros entre os sistemas produtivos. Mais do que números, esses padrões mostram que diferentes realidades produtivas exigem estratégias diferentes dentro da atividade leiteira. Em vez de olhar apenas médias gerais, os dados mostram que existem diferentes formas de produzir leite  e cada uma exige uma estratégia específica.

A partir de dados coletados ao longo de três anos em um laticínio da região noroeste do Rio Grande do Sul, foram analisados 101 municípios, 2.002 produtores de leite e 16.362 análises individuais. Utilizando indicadores de produção e qualidade do leite como produção diária, contagem de células somáticas (CCS), contagem bacteriana total (CBT), teores de gordura, proteína, ureia e sólidos totais foi possível identificar três perfis produtivos distintos entre os produtores avaliados. 

Figura 1. Munícipios estudados e classificados em 3 grupos. Fonte:  Gonçalves, 2025 (resultados ainda não publicados).

Figura 1

 

O primeiro perfil se destacou pelos melhores resultados, apresentando alta produção de leite, menores níveis de CCS e CBT e maiores teores de gordura, proteína e sólidos. Na prática, isso indica maior consistência de manejo, controle eficiente da qualidade do leite e melhor aproveitamento nutricional. Além disso, são propriedades com maior potencial de captura de bonificações e melhor rendimento industrial.

Já o perfil intermediário apresentou produção mediana, qualidade relativamente equilibrada e indicadores estáveis na maior parte do período avaliado. São propriedades que já apresentam bons resultados em alguns momentos, mas ainda enfrentam oscilações que limitam o desempenho. Pequenos ajustes, principalmente em rotina e padronização de manejo, podem gerar ganhos importantes tanto em produtividade quanto em qualidade do leite.

Por outro lado, o perfil com maior variabilidade nos indicadores concentrou os maiores desafios produtivos, apresentando menor produção de leite, maiores níveis de CCS e CBT e menores teores de sólidos, A CCS no leite, além de ser uma ferramenta para identificação de mastite subclínica, está diretamente associada com a indústria de laticínios pois, altos valores de CCS acarretam uma diminuição de vida útil de seus produtos, além de alterações na composição do leite (Silva et al., 2018).

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Esses resultados indicam oportunidades de melhoria principalmente relacionadas à rotina de ordenha, controle de mastite e ajustes nutricionais. Nesse perfil, trabalhar o básico bem feito já representa um grande avanço nos resultados produtivos e econômicos da atividade.

Tabela 1: Comparação das diferenças entre os clusters (grupos) formados pelas variáveis relacionadas à qualidade e composição do leite. 

Características

Cluster 1

Cluster 2

Cluster 3

Produção de Leite (L/mês)

8023,0

8494,0

31179,5

CPP (UFC/mL)

61,0

46,0

25,5

CCS (CS/mL )

779,0

680,0

536

Proteína (%)

3,24

3,34

3,43

Gordura (%)

3,79

3,93

3,95

Lactose (%)

4,35

4,39

4,56

Sólidos totais (g/100g)

12,39

12,68

12,91

Um dos principais pontos observados foi que diferentes perfis demandam diferentes estratégias de manejo. Muitas vezes, a assistência técnica ainda trabalha de forma generalizada, aplicando as mesmas recomendações para propriedades com realidades completamente distintas. No entanto, os dados mostram que isso dificilmente gera os melhores resultados. Enquanto algumas propriedades precisam focar em ajustes básicos e maior consistência operacional, outras já passaram por este obstáculo inicial, e visam maior tecnificação e estrutura para aumentar a produção.

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Além do impacto produtivo, os indicadores avaliados também possuem forte relação com a rentabilidade da atividade. Os laticínios brasileiros, em sua maioria, reduzem bonificações para produtores que apresentem altas taxas de CCS e CBT, seguindo à risca as normas estabelecidas pela Instrução Normativa n°76 e n°77 do RIISPOA. Da mesma forma, baixos teores de sólidos reduzem o rendimento na produção de derivados. Ou seja, qualidade do leite não é apenas uma questão técnica, mas também financeira. Propriedades com melhores indicadores além de produzirem mais, acabam por produzir leite com maior valor agregado.

Outro ponto interessante observado foi a concentração dos melhores resultados em menos municípios (mostrados em preto na figura 1), mostrando que existe um grande potencial de aprendizado dentro da própria região. Muitas soluções já estão sendo aplicadas e podem ser compartilhadas por meio de dias de campo, visitas técnicas e troca de experiências entre produtores.

Mesmo sem análises estatísticas complexas, as conclusões da discussão anterior são de grande valia para consultores e técnicos da área. Traçar o perfil da propriedade, seguindo as premissas de indicadores produtivos, ajuda a identificar tendências e direcionar decisões de manejo.

Os dados mostram algo simples, mas extremamente relevante: não existe um único tipo de produtor de leite. Existem diferentes perfis produtivos, e cada um exige uma abordagem específica. Classificar essas diferenças não é apenas uma análise de dados, mas uma ferramenta prática para melhorar a qualidade do leite, aumentar a eficiência produtiva e fortalecer a rentabilidade da atividade.

Fontes consultadas:

SILVA, J. E.; BARBOSA, S. B. P.; ABREU, B. S.; SANTORO, K. R.; SILVA, E. C.; BATISTA, A. M. V.; MARTINEZ, R. L. V. Effect of somatic cell count on milk yield and milk components in Holstein cows in a semi-arid climate in Brazil. Revista Brasileira de Saúde e Produção Animal, v. 19, p. 391-402, 2018. DOI: https://doi.org/10.1590/s1519-99402018000400004.

BRASIL. Instrução Normativa No 76 de Novembro de 2018. Disponível em: https://wikisda.agricultura.gov.br/dipoa_baselegal/in_76-2018_rtiq_leite.pdf. Acesso em: 25 de maio de 2026.

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Material escrito por:

Ana Luiza Cristovão Gonçalves

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