Bezerro saudável começa no manejo - e também na genética

Estudo com mais de 62 mil bezerros mostra que a seleção para reduzir diarreia e problemas respiratórios pode melhorar a saúde do rebanho sem comprometer a produção de leite.

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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Um estudo analisou a saúde de 62.361 bezerros da raça Holandesa no Canadá, mostrando que problemas como diarreia e doenças respiratórias impactam não só o aleitamento, mas também o futuro desempenho do animal, incluindo produção de leite e fertilidade. A pesquisa identificou marcadores genéticos associados a essas doenças, evidenciando a importância de um manejo adequado e registros precisos para seleção genética. A saúde do bezerro deve ser integrada ao planejamento do rebanho, visando melhorar a resistência ao longo das gerações.
Quando um bezerro apresenta diarreia ou problemas respiratórios, o impacto não se limita ao período de aleitamento. A doença pode aumentar os custos com medicamentos, reduzir o crescimento, elevar o risco de morte e comprometer o desempenho futuro do animal. Uma pesquisa recente, publicada no Journal of Dairy Science, avaliou a relação entre a saúde dos bezerros e características importantes da vida adulta, como produção de leite, fertilidade, mastite e problemas de casco.

O estudo foi realizado com animais da raça Holandesa no Canadá, mas traz uma mensagem importante para qualquer sistema de produção: a saúde do bezerro também pode fazer parte do planejamento genético do rebanho.

A pesquisa em números

  • 62.361 bezerros avaliados;
  • 1.617 rebanhos participantes;
  • Dados coletados entre 2006 e 2021;
  • 20.765 registros de diarreia;
  • 48.927 registros de problemas respiratórios;
  • Aproximadamente 7% de herdabilidade para cada uma das duas características;
  • 17 marcadores genéticos associados à diarreia;
  • 20 marcadores genéticos associados a problemas respiratórios.

Existe influência genética, mas o manejo continua sendo decisivo

A herdabilidade estimada para diarreia e problemas respiratórios foi de aproximadamente 0,07, ou 7%. Esse número não significa que 7% de cada caso de doença seja causado pela genética. A herdabilidade indica quanto da diferença observada entre os animais, dentro daquela população e condições de criação, está relacionada às diferenças genéticas.

A estimativa é considerada baixa, mas não é zero. Isso significa que existe espaço para selecionar animais com menor predisposição às doenças, especialmente quando há registros confiáveis no rebanho. Ao mesmo tempo, o resultado reforça que a maior parte do controle ainda depende de fatores como:

  • Qualidade e rapidez no fornecimento do colostro;
  • Higiene das instalações e dos utensílios;
  • Qualidade do leite ou sucedâneo;
  • Nutrição e disponibilidade de água;
  • Ventilação e umidade das instalações;
  • Densidade de animais;
  • Vacinação e biossegurança;
  • Identificação rápida dos animais doentes.

A genética constrói resistência ao longo das gerações. O manejo protege o bezerro hoje.

Selecionar para saúde não significa abrir mão da produção. Um dos resultados mais importantes para o produtor foi a ausência de relações genéticas fortes entre as doenças de bezerros e a produção de leite, gordura e proteína.

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As correlações genéticas ficaram próximas de zero, variando aproximadamente entre -0,04 e 0,11. Na prática, isso indica que a inclusão de características de saúde dos bezerros nos programas de seleção não tende a prejudicar o progresso genético para produção.

Esse ponto é fundamental. Durante muito tempo, a seleção genética foi concentrada principalmente em volume de leite, gordura e proteína. O estudo mostra que é possível ampliar o objetivo de seleção para incluir também saúde e fertilidade, sem necessariamente criar um conflito com a produção.

Os autores também destacam que trabalhos anteriores encontraram redução de 121 a 344 kg de leite na primeira lactação em animais que tiveram doenças durante a fase de aleitamento. Esse efeito, porém, não apareceu de forma clara na análise canadense. Isso não significa que a doença não tenha consequências. Os próprios pesquisadores alertam que animais mais afetados podem não chegar ao rebanho de ordenha, além de haver diferenças de manejo capazes de esconder parte desse impacto.

Problemas respiratórios apresentaram relação com a fertilidade

Os resultados mais expressivos apareceram entre problemas respiratórios e algumas características reprodutivas. A predisposição genética a problemas respiratórios apresentou correlação de:

  • 0,24 com o número de serviços por concepção;
  • 0,32 com o intervalo entre a primeira inseminação e a concepção.

Como a doença foi registrada no estudo como uma característica indesejável, os resultados indicam que animais geneticamente mais predispostos a problemas respiratórios também podem apresentar pior desempenho reprodutivo posteriormente. Assim, a seleção para reduzir problemas respiratórios pode trazer um efeito favorável indireto sobre a fertilidade das futuras vacas.

Também foi observada uma correlação genética de 0,20 com mastite clínica na primeira lactação. Esse resultado sugere que pode existir alguma predisposição genética compartilhada entre problemas respiratórios na fase de bezerro e mastite no início da vida produtiva.

No entanto, os autores consideram que essa associação ainda precisa ser confirmada com mais dados. Correlação não significa que uma doença cause diretamente a outra, mas indica que os dois problemas podem compartilhar parte da sua base genética.

Diarreia e problemas respiratórios podem ter uma base genética comum

A correlação genética entre diarreia e problemas respiratórios foi de aproximadamente 0,61 a 0,62, considerada moderada a alta. Isso significa que os animais geneticamente mais predispostos a uma dessas doenças tendem também a apresentar maior predisposição à outra. Para o produtor, a mensagem é clara: não basta acompanhar apenas a diarreia ou apenas os problemas respiratórios. O programa de saúde dos bezerros precisa avaliar as duas ocorrências em conjunto.

Na seleção genética, a existência dessa relação também pode permitir uma resposta conjunta: reduzir geneticamente a predisposição a uma doença pode ajudar a reduzir a outra, desde que os dados sejam utilizados corretamente.

O que a análise do DNA acrescentou?

Além das correlações entre características, os pesquisadores realizaram uma análise genômica para identificar regiões do DNA associadas às doenças.

Foram encontrados:

  • 17 marcadores genéticos associados à diarreia, distribuídos em cinco cromossomos;
  • 20 marcadores associados a problemas respiratórios, também distribuídos em cinco cromossomos.

Alguns genes foram apontados como candidatos para estudos futuros, entre eles ACER3, CAPN5, ILK, LIPT2, PGM2L1 e PPME1, relacionados à diarreia, e SYNPO, DCTN4, ANXA6 e MYOZ3, relacionados a problemas respiratórios.

Esses resultados ajudam os pesquisadores a entender os mecanismos biológicos ligados à resistência às doenças. Entretanto, ainda não significam que exista um teste comercial pronto para o produtor selecionar animais com base em um único gene.

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As maiores regiões identificadas explicaram menos de 1% da variação genética das características. Portanto, a resistência às doenças não depende de um único marcador, mas de muitos genes, além do ambiente e do manejo.

Como o produtor pode transformar essa informação em resultado?

A principal aplicação imediata da pesquisa está na qualidade dos dados da fazenda. O produtor deve registrar, de forma individual, informações como:

  • Identificação do bezerro;
  • Data e tipo da doença;
  • Tratamento realizado;
  • Número de ocorrências;
  • Recuperação ou morte;
  • Pai e mãe do animal;
  • Idade ao adoecer;
  • Peso e crescimento, quando disponíveis.

Também é importante acompanhar a ocorrência por grupo de nascimento, calculando o número de casos por 100 bezerros. Dessa forma, torna-se possível comparar lotes, épocas do ano, instalações e protocolos de manejo. Na seleção de touros e matrizes, o ideal é buscar um equilíbrio entre:

  • Produção de leite;
  • Gordura e proteína;
  • Fertilidade;
  • Saúde da vaca;
  • Saúde dos cascos;
  • Saúde dos bezerros;
  • Longevidade e eficiência do sistema.

A mensagem final

O estudo mostra que a saúde do bezerro não deve ser tratada como um problema isolado do sistema de produção. Ela está relacionada ao futuro desempenho reprodutivo e sanitário do animal e pode ser incorporada, gradualmente, aos objetivos de seleção genética. Para o produtor, o caminho é combinar três frentes:

  1. Manejo eficiente, para reduzir as doenças imediatamente;
  2. Registros confiáveis, para transformar ocorrências em informação;
  3. Seleção genética equilibrada, para construir um rebanho mais resistente ao longo do tempo.

A fazenda que registra melhor consegue enxergar melhor. E, quando os dados de saúde, genética, nutrição e reprodução são analisados em conjunto, o bezerro deixa de ser apenas uma etapa do sistema e passa a ser o primeiro indicador do futuro da produção de leite.

Fonte: Lynch et al. Investigating the genetic architecture of dairy calf disease traits and their relationships with traits of economic importance in Canadian Holstein cattle. Journal of Dairy Science, 2026. Artigo original.

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Material escrito por:

TIMOTHEO SOUZA SILVEIRA

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