Na Bélgica, o governo emitiu um "alerta vermelho" em função das altas temperaturas que atingem a pecuária local. A associação agrícola flemish Boerenbond informou que projeta uma redução na produção de leite e carne, embora considere prematuro apontar estatísticas consolidadas. O ministério da agricultura do país apontou que o cenário afeta majoritariamente os criadores de animais, visto que as chuvas recentes reduziram o risco de seca para os produtores de culturas agrícolas. Mark Wulfrancke, porta-voz da associação de pecuaristas belgas Algemeen Boerensyndicaat, sintetizou a situação do setor: "Apesar de todas as medidas que os produtores estão tomando... você ainda pode ver a produção caindo".
Os efeitos do estresse térmico no comportamento dos rebanhos foram detalhados por produtores locais. Em Bocholt, próximo à fronteira com a Holanda, o criador Sander Palmans relatou que suas vacas reduziram as atividades, consumiram menos alimento e evitaram deitar-se na cama quente, fatores que resultaram na diminuição da produção de leite. O produtor mensurou o impacto financeiro direto em sua propriedade: "O calor nos custa entre € 150 e € 200 por dia", o que representa uma perda de 10% a 15% de sua renda. Paralelamente, relatórios da França indicaram que o calor extremo reduziu a ingestão de ração, elevou a demanda por água e cortou a produção de leite dos pecuaristas de gado, além de causar a morte de aves.
No Reino Unido, agências meteorológicas e de segurança de saúde também formalizaram alertas vermelhos. Sophie Gregory, produtora de leite em Dorset responsável por um rebanho de 600 vacas, descreveu a relação direta entre o clima e o rendimento industrial de sua propriedade. Conforme explicou a produtora, "a produção de leite cai no clima quente porque elas tendem a comer menos, por isso esta é uma questão tanto de bem-estar animal quanto de produção de alimentos que levamos muito a sério". Como medidas de mitigação, a gestão da fazenda britânica utiliza a sombra das árvores, concentra o manejo nos períodos mais frescos da manhã e da tarde e opera sistemas de nebulização e ventiladores na potência máxima na sala de ordenha, além de elevar a oferta de água potável.
As perspectivas para o setor de lácteos diante de novos eventos climáticos envolvem investimentos estruturais e o debate sobre emissões globais. Sander Palmans indicou que a previsão de ondas de calor mais regulares tornará necessário o uso frequente de sistemas de resfriamento artificial, estimando que a temperatura de entrada nos abrigos de animais precise ser reduzida em até 8°C.
Dito isso, antecipar riscos climáticos que podem colocar o bem-estar dos animais em risco torna-se essencial. Uma análise realizada pelo time de Inteligência de Mercado do MilkPoint aponta que, no hemisfério sul, as temperaturas também devem atingir patamares elevados no segundo semestre de 2026. A confirmação do El Niño pela a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) indica a alta probabilidade de que, durante o fenômeno, as temperaturas devem subir em todo o Brasil. Ao mesmo tempo, o Sul pode receber mais precipitação, enquanto Nordeste, Centro-Oeste e parte do Norte enfrentariam condições mais secas.
Informações utilizadas: Reuters e Energy & Climate Intelligence Unit.
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