Pastejo contínuo bem manejado desafia lógica tradicional e simplifica o trabalho em propriedade gaúcha

Ao priorizar a estrutura do pasto em vez da quantidade de piquetes, a estratégia busca elevar o consumo de forragem, simplificar o manejo e reduzir custos sem comprometer produtividade.

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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A estratégia de pastoreio rotatínuo, proposta pela Emater/RS-Ascar, prioriza a estrutura do pasto em vez da quantidade de piquetes, visando aumentar o consumo de forragem e simplificar o manejo. Essa abordagem, desenvolvida na UFRGS, destaca a importância da leitura de bocados e do comportamento dos animais. Com menos piquetes, há redução de custos e mão de obra, mantendo a produtividade. A mudança de mentalidade dos produtores é crucial para a adoção efetiva da técnica.
Ao priorizar a estrutura do pasto em vez da quantidade de piquetes, a estratégia busca elevar o consumo de forragem, simplificar o manejo e reduzir custos sem comprometer produtividade.

Durante décadas, o manejo rotacionado consolidou-se como uma das principais estratégias para organizar o pastejo em propriedades leiteiras. A lógica sempre esteve baseada na divisão da área em piquetes e na movimentação frequente dos animais conforme um calendário previamente definido. Mas uma abordagem que vem sendo difundida pela Emater/RS-Ascar em Júlio de Castilhos propõe inverter essa lógica: em vez de colocar os piquetes no centro do manejo, o foco passa a ser a estrutura do pasto.

Esse é o princípio do pastoreio rotatínuo, metodologia apresentada pelo extensionista rural Leandro Ebert que pode ser aplicada em ambos os métodos de pastoreio, tanto em rotativo quanto em contínuo. Na prática, a proposta é conduzir os animais para que consumam a forragem sempre na condição em que sua taxa de ingestão é máxima, preservando simultaneamente o potencial de rebrote das plantas.

Segundo Ebert, o conceito parte de uma constatação importante: o que determina o desempenho animal é a estrutura em que o pasto é oferecido e não o número de piquetes. "O rotatínuo é uma tecnologia brasileira desenvolvida na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e Aliança SIPA, sendo um conceito de manejo baseado no comportamento de pastejo na busca pela máxima taxa de ingestão. Existe uma estrutura ótima de planta, dada pela altura (em cm) na qual o animal consome mais pasto por minuto e esse pasto também possui maior concentração de nutrientes, aumentando o consumo dos mesmos e melhorando o desempenho". 

Essa mudança altera completamente a forma de conduzir o manejo. Enquanto no sistema rotacionado convencional existem alturas de entrada e saída para cada piquete, na aplicação do rotatínuo o produtor passa a trabalhar com um "mosaico de alturas" distribuído por toda a área. Em vez de observar quando abrir ou fechar um piquete, o produtor aprende a interpretar o comportamento dos animais em pastejo e ler a estrutura do pasto espalhado na área.

Segundo Ebert, a chamada "leitura de bocados" passa a ser uma ferramenta central de tomada de decisão. A observação permite identificar onde os animais estão preferindo pastejar, quais plantas já receberam desfolha, quais permanecem em crescimento e quais ainda não foram consumidas. “É a mesma estrutura de plantas que está separada em piquetes no rotativo, mas que nesse sistema fica distribuída pela área,” reforça. 

"Passamos a ler onde os animais estão alocando os bocados e cruzamos essa informação com a estrutura das plantas. O manejo deixa de ser baseado no calendário ou nas subdivisões e passa a responder à ecologia do pastejo."

Piquete deixa de ser objetivo e vira ferramenta

Um dos conceitos mais enfatizados pelo extensionista é que o pastoreio rotatínuo não elimina necessariamente os piquetes. O que muda é a função que eles desempenham.

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Na visão de Ebert, muitos produtores ainda associam qualidade de manejo ou até aumento de desempenho e lotação à quantidade de subdivisões da área, quando, na verdade, os piquetes deveriam servir apenas como uma ferramenta para controlar a altura da pastagem. "Quando entendemos que o piquete é apenas um instrumento para controlar a estrutura do pasto, e não o objetivo do manejo, abrimos espaço para simplificar toda a operação."

Segundo ele, esse entendimento permite reduzir significativamente o número de cercas e de movimentações diárias dos animais, sem perder eficiência produtiva.

O extensionista lembra que diversos trabalhos científicos acumulados por décadas já demonstram que, quando a oferta de forragem e a estrutura da pastagem são corretamente controladas, sistemas contínuos e rotativos apresentam desempenhos semelhantes em indicadores como produtividade por área, desempenho animal, parâmetros de ambientais, de solo e crescimento das plantas.

O desafio, afirma, sempre foi desenvolver ferramentas que permitissem controlar essa estrutura mesmo sem depender de dezenas de piquetes.

Mais consumo de pasto e menor dependência de suplementação

Na prática, a maior taxa de ingestão se traduz em maior consumo diário de nutrientes. Segundo Ebert, isso permite elevar a produção individual das vacas sem aumentar a lotação da área. Ele cita propriedades onde vacas Holandesas ultrapassam 30 litros por dia com baixa suplementação concentrada e outros casos em que rebanhos Jersey alcançaram médias anuais superiores a 20 litros por vaca utilizando o mesmo princípio de manejo.

Além do aumento da produtividade, há reflexos diretos sobre os custos da atividade. "Com maior consumo de pasto de alta qualidade, reduzimos a necessidade de silagem, concentrados ou podemos trabalhar com rações menos complexas, mantendo os mesmos animais e aumentando a produtividade por hectare." Outro benefício destacado é a simplificação da rotina operacional. Menos divisões internas significam menos construção e manutenção de cercas, menos deslocamentos e menor demanda por mão de obra — um dos principais gargalos enfrentados atualmente pela pecuária leiteira.

Da teoria para o campo

Foi justamente essa perspectiva que levou o produtor Givanildo Antunes Oliveira, da localidade de Nova Ramada, em Júlio de Castilhos (RS), a implantar o sistema em sua propriedade.

Segundo ele, a dificuldade crescente para encontrar trabalhadores foi determinante para buscar uma alternativa. "Quando vi que já poderia obter resultados seguindo as orientações do Leandro, resolvi implantar. O primeiro ponto positivo foi justamente reduzir a mão de obra."

Antes da mudança, a fazenda operava com grande número de piquetes e exigia duas ou três movimentações diárias dos animais. Hoje, a realidade é diferente. "Houve redução de custos com material, menos trabalho diário e menos gasto com silagem, ração e diesel. Como usamos menos trator para tratar os animais, essa economia aparece rapidamente."

Um aspecto que surpreendeu o produtor foi o comportamento do próprio pasto. A percepção inicial era de que uma área contínua não suportaria o tamanho do rebanho. Na prática, ocorreu exatamente o contrário. "A impressão era de que iria faltar pasto. Mas a vaca é seletiva. Ela vai consumindo determinadas plantas enquanto outras rebrotam. Hoje temos pasto suficiente e até sobra."

Segundo Givanildo, os resultados observados durante o inverno já foram suficientes para consolidar a estratégia na propriedade. "No inverno está aprovado. Agora vamos acompanhar como será o comportamento das pastagens de verão, mas acredito que o sistema veio para ficar."

pastejo rotatínuo
Fonte da imagem: Leandro Ebert

Mudança de mentalidade talvez seja o maior desafio

Para Ebert, o principal obstáculo para adoção da tecnologia não é técnico, mas cultural. Segundo ele, muitos produtores tentam migrar para rotatínuo apenas aumentando o tamanho dos piquetes, sem modificar a estrutura da pastagem.

Esse, afirma, é o erro mais frequente. "O produtor ainda foca no piquete. Fazer rotatínuo não é fazer menos piquetes e maiores. É trabalhar na estrutura ideal do pasto. Se essa mudança não acontecer, os resultados também não aparecem."

Na avaliação do extensionista, abandonar a ideia de que o piquete é o centro do manejo exige uma mudança importante de mentalidade. "Quando começamos realmente a manejar a altura do pasto e observar a resposta das plantas e dos animais, percebemos que, em muitos casos, o excesso de piquetes deixa de ajudar e passa até a limitar o manejo”, finaliza ele.

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Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

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