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O que é melhor para vacas no período seco: dietas mais ou menos energéticas?

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EM 03/06/2019

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Devido à alta relevância do período periparto e seu impacto no desempenho produtivo e reprodutivo dos animais, muitos estudos estão sendo conduzidos mundialmente avaliando aditivos, ingredientes, dietas e/ou práticas de manejo para vacas no período seco e de transição.

Uma das principais preocupações com as vacas nesse período é a manutenção do escore de condição corporal (ECC) adequado. Neste caso continua a valer a regra de sempre; nem vacas gordas, nem vacas magras, o ideal são vacas com ECC variando de 3,00 a 3,50 (numa escala de 1 = vaca extremamente magra a 5 = vaca excessivamente gorda). Para isso, a quantidade de energia que é oferecida para estas vacas quando elas estão no período seco é essencial, uma vez que qualquer excesso de energia neste período, ou mesmo no final da lactação, quando o desafio produtivo não é tão grande, pode resultar em vacas gordas.

É importante salientar também que no momento do parto as vacas sempre perdem peso. Tal processo de mobilização de reservas é natural de vacas leiteiras na fase inicial da lactação, já que o consumo de alimentos e energia não é suficiente para atender a produção de leite; logo o animal abre mão de parte das reservas de gordura corporal, ocasionando um balanço energético negativo (BEN).

Muitas vezes somos questionados pela seguinte pergunta. Mas não seria uma vantagem ter vacas mais gordas à secagem e ao parto, como num caso de dietas com excesso de energia no fim de lactação e no período seco? Estas vacas não teriam mais gordura estocada que poderia ser direcionada para a produção de leite na lactação que se inicia? A resposta é não, pois esse processo de mobilização de reservas corporais, apesar de ser inevitável, quando muito longo ou muito acentuado, causa efeitos colaterais que envolvem queda de consumo e perdas em produção de leite, que é justamente o que não queremos. Ou seja, a excessiva mobilização de gordura corporal causa justamente um efeito negativo no desempenho, pois leva a uma sobrecarga hepática devido ao acúmulo de triglicerídeos que vêm dos tecidos, causando cetose e em casos mais graves, esteatose hepática. Vale ressaltar que vacas que secam com alto ECC têm maiores perdas de peso no momento do parto e, com isto, têm mais ocorrências de distúrbios metabólicos no pós-parto, além de inferiores desempenhos produtivo e reprodutivo, conforme já demonstrado por Chebel et al. (2018).

E com relação ao fornecimento de dietas com alta ou moderada energia no período seco? Alguns dados interessantes são demonstrados num estudo recentemente publicado por pesquisadores da Universidade da Flórida (Zenobi et al., 2018). Neste experimento foram utilizadas 93 vacas Holandesas multíparas que tinham no início do período seco um ECC de 3,5 (dentro da normalidade) e iniciaram o experimento com 47 ± 6 dias antes da data prevista para o parto. As vacas foram divididas em dois grupos, sendo que um recebeu dieta com excesso de energia (1,63 Mcal de ELl/kg de MS) e outro grupo uma dieta com energia suficiente para a mantença (1,40 Mcal de ELl/kg de MS) durante todo o período seco. O grupo que teve oferta de dieta com excesso de energia consumiu 24% a mais do que a exigência diária, enquanto que o grupo que teve oferta da dieta com energia para mantença, atendeu suas exigências diárias, sem exceder. Os principais resultados obtidos são mostrados na tabela seguinte:

Tabela 1. Resultados médios obtidos avaliando dois níveis de energia na dieta de vacas leiteiras no período seco (dados do pós-parto).

Basicamente a dieta mais densa energeticamente continha maior proporção de silagem de milho e polpa cítrica, enquanto que na dieta de energia para mantença houve maior inclusão de palha de trigo, silagem de triticale e farelo de canola, e ambas foram fornecidas durante todo o período seco. E a partir do parto, todas as vacas receberam a mesma dieta. Vacas com a dieta de excesso de energia consumiram 40% mais energia por dia em relação a exigência, até 15 dias antes do parto. E a partir deste momento a taxa de diminuição na ingestão de matéria seca nos últimos 15 dias foi maior para esse grupo, ou seja, houve uma diminuição brusca no consumo desse grupo.

Após o parto o grupo com energia para mantença no período seco teve maior consumo diário de matéria seca, em kg/dia e em %PV, e produções de leite numericamente mais altas, mas estatisticamente similares (36,4 vs. 35,7 kg/dia) às vacas do grupo com excesso de energia. Mais importante, as vacas alimentadas com dietas demasiadamente energéticas no período seco apresentaram balanço energético mais negativo (-1,6 vs. -0,1 Mcal/d) que vacas alimentadas com dietas de menor densidade energética.

Mas o que explica o fato de que vacas que comem mais energia do que o necessário no período seco, apresentam pior desempenho no pós-parto? Primeiro, por mais que as vacas não apresentem aumento visível de ECC durante o período seco, há pesquisas (Drackley et al., 2014) que mostram que o primeiro local de deposição de tecido adiposo é a gordura visceral, que envolve órgãos internos, e esse depósito de gordura não é perceptível. Segundo, vacas com excesso de energia na dieta do período seco têm maior balanço energético negativo, enquanto que vacas com energia para mantença têm mudanças menos bruscas no status energético entre o pré-parto e pós-parto, levando a respostas mais rápidas em mecanismos adaptativos.

Balanço energético negativo mais acentuado durante as 5 primeiras semanas pós-parto, implica nos resultados de metabolismo descritos na Tabela 2. As concentrações de alguns metabólitos sanguíneos foram influenciadas pelo aumento da densidade energética da dieta no pré-parto.

Tabela 2. Resultados médios obtidos avaliando dois níveis de energia na dieta de vacas leiteiras no período seco (dados do pós-parto).

Vacas alimentadas com excesso de energia na dieta apresentaram concentrações plasmáticas mais altas de ácidos graxos não esterificados (AGNE) no pós-parto. Estes ácidos graxos não esterificados (ou livres) são encontrados em todos os tecidos, em especial no fígado e nos músculos. Quando aumentadas essas concentrações plasmáticas de AGNE no pós-parto, indicam excesso de lipomobilização por conta da alta energia na dieta pré-parto, como apresentada nesse estudo. Ácidos graxos não esterificados também são direcionados à glândula mamária e transferidos para o leite; é por isso que vacas recém-paridas com intenso BEN produzem leite com maiores teores de gordura, o que neste caso, não é desejável.

Vacas do grupo que foram submetidas a excesso de energia na dieta, também apresentaram maior concentração de BHB no sangue. Lembramos que o BHB é um dos três principais corpos cetônicos e é um metabólito produzido pelo fígado, quando há sobrecarga de gordura hepática. As concentrações médias de BHB no sangue foram maiores na primeira à terceira semanas pós-parto, apresentando um pico aos 7 dias pós-parto. As concentrações de AGNE e BHB normalmente aumentam quando as vacas se encontram em um BEN mais acentuado.

Nas vacas alimentadas com excesso de energia também foi observada maior sobrecarga hepática em relação ao grupo de vacas alimentadas com energia para mantença. Realizando uma biópsia hepática dessas vacas aos 7 dias pós-parto, foi verificado uma maior concentração de triglicerídeos no tecido hepático. Assumindo uma concentração de triglicerídeos superior a 5% no fígado, este grupo apresentou maior número de animais acometidos com fígado gordo. A excessiva mobilização de gordura corporal causa justamente um efeito negativo no desempenho, pois leva a uma sobrecarga hepática devido ao acúmulo de triglicerídeos que vem dos tecidos, causando a esteatose hepática.

Aumentos nas concentrações plasmáticas de BHB e AGNE e balanço energético negativo ajudariam a explicar as concentrações aumentadas de triglicerídeos hepático, observadas no grupo de vacas alimentadas com excesso de energia no pré-parto. Outros autores também relataram que concentrações plasmáticas elevadas de BHB e AGNE foram positivamente associados com esteatose hepática, em vacas no balanço energético negativo.

Assim, os resultados mostrados por este estudo, evidenciam que vacas com dietas com excesso de energia no período seco, resultam em um balanço energético negativo mais acentuado das vacas no pós-parto, maiores concentrações circulantes de AGNE e BHB, maior concentração de triglicerídeos no fígado e maior tempo de recuperação do peso corporal, comparado com vacas alimentadas com energia para mantença no pré-parto. Assim, fica demonstrado que o excesso de energia na dieta de vacas secas não é desejável e a recomendação é de adotarmos neste período dietas menos “quentes”, ou seja, com maior proporção de volumosos, tais como silagem de milho, feno de gramínea “passado” ou palha de trigo!

Referências bibliográficas

Chebel, R.C., Mendonça, L.G.D., Baruselli, P.S. Association between body condition score change during the dry period and postpartum health and performance. Journal of Dairy Science, v.101, p.4595-4614, 2018.

Drackley, J.K., Wallace, R.L., Graugnard, D., et al. Visceral adipose tissue mass in nonlactating dairy cows fed diets differing in energy density. Journal of Dairy Science, v.97, p.3420-3430, 2014.

Zenobi, M.G., Gardinal, R., Zuniga, J.E., et al. Effects of supplementation with ruminally protected choline on performance of multiparous Holstein cows did not depend upon prepartum caloric intake. Journal of Dairy Science, v.101, p.1-23, 2018.

DANIELI CABRAL DA SILVA

Médica Veterinária, Doutoranda em Zootecnia (UFPR)
Professora do Departamento de Medicina Veterinária (UNIGUAÇU)

GUILHERME FERNANDO MATTOS LEÃO

Doutorando em Zootecnia e Supervisor de Assistência Técnica na Cooperativa Castrolanda Agroindustrial.

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