A educação sempre fez parte da sua identidade, mas chegou um momento em que Soeli percebeu que queria estar presente no dia a dia da fazenda, participando das decisões e contribuindo diretamente para o crescimento da família dentro da atividade leiteira. A mudança exigiu coragem. “No começo eu tive medo, me senti insegura e precisei provar, principalmente para mim mesma, que eu era capaz”, relembra.
Com o tempo, a convivência diária com a rotina da propriedade mostrou o impacto que a presença constante faz nos resultados. Estar próxima da operação, observando os animais, acompanhando os detalhes do manejo e participando das decisões transformou também a forma como ela enxergava seu papel dentro da atividade.
Por muito tempo, Soeli se incomodou com a ideia de que muitas mulheres acabam sendo vistas apenas como quem “assina contratos no banco”, sem participar efetivamente das decisões da propriedade. Foi justamente esse desconforto que fortaleceu sua vontade de ocupar espaço de forma ativa na gestão. Para ela, mulheres não apenas podem, mas devem participar das decisões estratégicas dentro do agro.
Na prática, foi entendendo o valor do olhar atento aos detalhes que Soeli consolidou sua participação na condução do Tambo Frigheto. O cuidado com o manejo, o bem-estar animal, a nutrição e a sanidade do rebanho passaram a ser pilares observados de perto em sua rotina. A experiência na pecuária leiteira também reforçou um aprendizado importante: produzir leite exige constância. “Aqui não existe pausa. As vacas dependem de nós todos os dias”, destaca. Segundo ela, a atividade ensina diariamente sobre responsabilidade, disciplina e capacidade de adaptação.
Mesmo reconhecendo a importância do planejamento, Soeli acredita que grande parte do aprendizado vem da prática. Os imprevistos da rotina, comuns na atividade leiteira, acabaram se tornando parte fundamental da sua formação dentro da fazenda. “Muita coisa eu aprendi estudando, mas muita coisa aprendi fazendo, errando e corrigindo”, afirma. Outro ponto que considera essencial é reconhecer a hora de pedir ajuda. Para ela, o leite exige conhecimento técnico, mas também experiência prática e humildade para continuar aprendendo continuamente.
Além da atuação dentro da propriedade, Soeli encontrou nas redes sociais uma forma de ampliar conexões e compartilhar conhecimento. Em seu perfil no Instagram, ela passou a mostrar a rotina real da pecuária leiteira, abordando manejo, nutrição e desafios do dia a dia de forma simples e próxima da realidade de outros produtores.
Essa troca constante com outras mulheres e profissionais do setor se tornou parte importante da sua trajetória. Compartilhar experiências, segundo ela, fortalece não apenas quem acompanha o conteúdo, mas também quem divide aprendizados e vivências.
Ao falar sobre o espaço feminino no agro, Soeli reforça que as mulheres não precisam mudar quem são para conquistar respeito e reconhecimento dentro da atividade. Para ela, muitas vezes é justamente a sensibilidade, o cuidado e a forma de observar os detalhes que fazem diferença na tomada de decisões.
Buscar conhecimento técnico é importante, mas acreditar na própria capacidade também faz parte do processo. Participar das decisões, opinar e sugerir melhorias são atitudes que, na visão de Soeli, ajudam a construir protagonismo dentro da pecuária leiteira. Sua trajetória representa uma transformação cada vez mais presente no campo: mulheres que deixam de ocupar posições secundárias para assumir participação ativa na gestão, nas decisões e no futuro das propriedades.
E é justamente nessa construção diária, feita de prática, aprendizado e troca de experiências, que Soeli resume um dos princípios que carrega consigo dentro e fora da porteira: “Conhecimento bom é conhecimento que a gente compartilha.”
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