Europa exige rastreabilidade territorial: o que isso significa para a pecuária brasileira?

O comércio agropecuário global começa a fazer uma nova pergunta aos produtores: não apenas quanto se produz, mas também onde e como se produz.

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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O comércio agropecuário global está se transformando, priorizando não só a quantidade de produção, mas também a origem e os métodos de produção. A União Europeia implementou o EUDR, exigindo rastreabilidade e comprovação de que produtos não estão associados ao desmatamento. A capacidade de fornecer dados geográficos e ambientais se torna essencial para acesso a mercados. Embora a cadeia leiteira brasileira não esteja diretamente afetada, a crescente demanda por transparência impacta todas as cadeias produtivas. Iniciativas como o Despertar Regenerativo buscam ajudar produtores a melhorar a rastreabilidade e a sustentabilidade.
O comércio agropecuário global começa a fazer uma nova pergunta aos produtores: não apenas quanto se produz, mas também onde e como se produz.

Durante décadas, o comércio internacional de produtos agropecuários foi estruturado em três pilares: preço, volume e requisitos sanitários. Esses fatores continuam importantes, mas um novo elemento vem ganhando peso crescente na definição de quem consegue acessar determinados mercados.

Cada vez mais, a capacidade de comprovar a origem territorial da produção passa a ser parte central da competitividade agrícola. Essa mudança ficou evidente com a aprovação, pela União Europeia, do regulamento conhecido como EUDR (European Union Deforestation Regulation), que estabelece novos requisitos de rastreabilidade e de comprovação de origem para produtos associados ao desmatamento. 

A nova legislação estabelece que empresas que comercializam determinados produtos no bloco europeu devem comprovar que esses produtos não estão associados a desmatamento recente. Para isso, as empresas que colocam esses produtos no mercado europeu passam a ter a responsabilidade de realizar processos de due diligence, reunindo informações geográficas, avaliando riscos e demonstrando, com dados verificáveis, a origem e as condições de produção ao longo da cadeia produtiva.

Mais do que uma exigência regulatória, essa mudança indica uma transformação mais profunda: dados territoriais e rastreabilidade passam a fazer parte da competitividade das cadeias agropecuárias.

O novo padrão de acesso aos mercados

O regulamento europeu estabelece um conjunto de exigências que altera de forma significativa a lógica de rastreabilidade nas cadeias agroalimentares. Entre os principais requisitos estão:

  • identificação das coordenadas geográficas das áreas de produção (que, no caso de produtos bovinos, pode envolver todos os estabelecimentos associados à criação do animal);
  • comprovação de que não houve desmatamento após a data estabelecida pela legislação;
  • mecanismos de rastreabilidade da cadeia produtiva;
  • documentação auditável capaz de sustentar essas informações. 

Mais do que um requisito documental, trata-se de uma mudança estrutural. O acesso a determinados mercados passa a depender da capacidade de demonstrar a origem geográfica da produção com precisão e transparência.

A obrigação jurídica direta recai sobre os operadores e comerciantes abrangidos pela regulação na União Europeia. Na prática, porém, essas exigências tendem a ser repassadas aos fornecedores ao longo da cadeia de suprimentos por meio de contratos, auditorias e sistemas de rastreabilidade.

Embora a discussão esteja concentrada nas cadeias de carne bovina e soja, as implicações desse movimento tendem a se espalhar por diferentes sistemas produtivos.

E o leite brasileiro nesse cenário?

O leite e os derivados lácteos não estão diretamente incluídos no escopo do Anexo I da EUDR. Além disso, diferentemente de cadeias como soja e carne bovina, a cadeia leiteira brasileira permanece majoritariamente voltada ao mercado interno, ainda que o país exporte alguns derivados em volumes pontuais. Ainda assim, mudanças regulatórias internacionais tendem a redefinir padrões de rastreabilidade e governança em diferentes sistemas produtivos.

Primeiro, porque grandes empresas de alimentos e redes varejistas globais vêm adotando políticas de rastreabilidade e sustentabilidade que se aplicam a toda a sua cadeia de fornecedores, independentemente do destino final do produto.

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Segundo, porque padrões regulatórios internacionais frequentemente acabam se tornando referências para políticas públicas e iniciativas privadas em outros países.

E terceiro, porque a crescente demanda por transparência ambiental está transformando a forma como as cadeias agroalimentares organizam seus sistemas de informação.

Georreferenciamento: de cadastro a infraestrutura de mercado

Um dos elementos centrais dessa transformação é o avanço do georreferenciamento das propriedades rurais. No Brasil, instrumentos como o Cadastro Ambiental Rural (CAR) já representam um passo importante na organização dessas informações territoriais. No entanto, a consolidação, validação e integração desses dados ainda é um processo em evolução.

Ao mesmo tempo, diferentes políticas públicas e iniciativas privadas vêm ampliando a importância do georreferenciamento para:

  • regularização ambiental;
  • rastreabilidade produtiva;
  • gestão territorial;
  • comprovação de conformidade socioambiental.

O que antes era visto principalmente como um instrumento cadastral tende a se tornar, progressivamente, uma infraestrutura essencial para o funcionamento das cadeias agroalimentares. 


Território, dados e mercado: a nova lógica da competitividade agropecuária baseada em rastreabilidade e transparência. O novo ativo da produção: dados

Essas transformações revelam uma mudança mais ampla na lógica da competitividade agrícola. Se no passado o diferencial estava concentrado principalmente em produtividade e eficiência, hoje ele passa a incluir também a capacidade de gerar e organizar informações sobre a produção.

Entre essas informações, ganham destaque: 

  • localização geográfica das áreas produtivas;
  • histórico de uso da terra;
  • indicadores ambientais;
  • métricas de emissões de gases de efeito estufa;
  • indicadores de bem-estar animal;
  • práticas de manejo e gestão da propriedade.

Nesse novo contexto, dados deixam de ser apenas registros operacionais e passam a representar ativos estratégicos da cadeia produtiva.

 

Transparência, rastreabilidade e confiança

Essa mudança também reflete uma transformação na forma como a sociedade se relaciona com os sistemas alimentares. Consumidores, empresas e governos buscam cada vez mais transparência sobre a produção de alimentos. A capacidade de organizar informações de forma estruturada e confiável passa a ser um elemento central para fortalecer a confiança entre produtores, empresas e consumidores.

O papel das ferramentas e das iniciativas colaborativas

A construção dessa nova infraestrutura de dados não depende apenas de regulamentações ou de grandes empresas. Ela também exige ferramentas acessíveis que permitam aos produtores compreender e organizar essas informações no dia a dia da produção. Nesse contexto, iniciativas que ampliam o acesso a indicadores de sustentabilidade e gestão ambiental tornam-se cada vez mais relevantes.

O Despertar Regenerativo, iniciativa em parceria com o MilkPoint, busca justamente aproximar produtores, técnicos e especialistas dessa agenda. O projeto oferece acesso gratuito a ferramentas que permitem avaliar indicadores como pegada de carbono, bem-estar animal e desempenho ESG das propriedades.

Ao tornar essas informações mais acessíveis, a iniciativa contribui para que produtores compreendam melhor seus sistemas produtivos, identifiquem oportunidades de melhoria e fortaleçam a gestão de dados nas fazendas. Mais do que responder a exigências externas, trata-se de construir uma base de conhecimento que permita à própria cadeia produtiva avançar rumo a sistemas mais eficientes, transparentes e resilientes.

Um movimento que veio para ficar

A exigência crescente por rastreabilidade territorial não é um fenômeno isolado. Ela faz parte de uma transformação mais ampla na governança dos sistemas alimentares globais. 

Para a pecuária brasileira, isso representa, ao mesmo tempo, um desafio e uma oportunidade. O desafio está em estruturar sistemas capazes de organizar e comprovar essas informações de forma consistente. A oportunidade está em demonstrar, com dados sólidos e gestão transparente, o potencial de uma produção agropecuária cada vez mais eficiente, responsável e alinhada às demandas da sociedade.

Porque, no futuro próximo, produzir bem continuará sendo essencial. Mas, cada vez mais, a capacidade de demonstrar como se produz pode se tornar o verdadeiro passaporte para acessar mercados.

Como participar do Despertar Regenerativo

Produtores de leite podem participar gratuitamente do projeto e obter indicadores de pegada de carbono, bem-estar animal e desempenho ESG de suas fazendas. A iniciativa é realizada pela ESGpec em parceria com o MilkPoint e oferece acesso a ferramentas digitais que ajudam produtores e técnicos a compreender e aprimorar a sustentabilidade dos sistemas de produção.

Para participar, basta acessar despertarregenerativo.com.br e realizar o cadastro.

O acesso é individual, válido por 12 meses, e inclui suporte por e-mail durante todo o período.

Conheça os indicadores ESG da sua fazenda, saiba como evoluir e comece hoje o seu despertar regenerativo.

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Material escrito por:

Luiz Gustavo Pereira

Luiz Gustavo Pereira

Professor da Universidade de Copenhagen, Médico Veterinário e doutor em Ciência Animal pela UFMG

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