O trigo tem ganhado espaço principalmente pela possibilidade de cultivo na entressafra, pela diversificação das fontes de alimento na propriedade e pelo bom potencial produtivo associado a custos competitivos. Independentemente da cultura, o objetivo da ensilagem é conservar o alimento por longos períodos, mantendo seu valor nutritivo e minimizando as perdas ao longo do processo.
Para que isso ocorra, o silo deve funcionar como um ambiente anaeróbio eficiente, ou seja, com ausência de oxigênio. Esse ambiente depende diretamente de boas práticas de manejo, como a colheita no ponto ideal de matéria seca; o tamanho adequado da partícula; a adequada compactação (com rápida exclusão do ar) e uma vedação eficiente.
Além disso, o correto dimensionamento do silo, aliado à taxa de retirada diária e ao uso de lonas de boa qualidade, é essencial para reduzir perdas. Fatores operacionais também têm impacto direto na qualidade da silagem, como o intervalo entre colheita e vedação, a exposição do material à chuva e a períodos prolongados de altas temperaturas. Esses aspectos influenciam a fermentação e a estabilidade do material armazenado.
Nesse contexto, o pH é um importante indicador da qualidade fermentativa da silagem. Ele reflete o acúmulo de ácidos orgânicos — principalmente o ácido lático — e indica se a acidificação foi suficiente para estabilizar o material. O valor ideal de pH varia conforme a cultura, a umidade, a capacidade tampão da forragem e a disponibilidade de carboidratos solúveis. Embora não existam referências específicas consolidadas para silagem de trigo, para silagem de milho recomenda-se pH entre 3,7 e 4,0 (Kung Jr. et al., 2018).
Baseadas nas informações acima, realizamos um trabalho para avaliar as condições de ensilagem de silagem de trigo em sistemas comerciais da região Sul do Brasil, bem como caracterizamos aspectos relacionados à sua qualidade. Foram avaliados 45 silos em propriedades comerciais que utilizavam esse volumoso. Durante as visitas, foram levantadas informações sobre tipo de silo (superfície ou trincheira), material do piso e das paredes, presença de lona e sistema de retirada do material (automatizada ou manual). Também foram coletadas amostras para análise de pH e composição química (não abordadas neste texto).
Os resultados evidenciaram grande variabilidade nas condições de ensilagem, sem a existência de um padrão único adotado pelos produtores. Observou-se predominância de silos do tipo trincheira (84,4%), em comparação aos de superfície (15,6%). Em relação ao piso, a maior parte das silagens estava em contato direto com o solo (46,7%), seguida por terra com lona (28,9%) e, em menor frequência, piso de concreto (24,4%).
Entre os silos trincheira, as paredes eram predominantemente de terra associada à lona (55,3%), seguidas por concreto (18,4%) e apenas terra (15,8%). Outras combinações, como concreto com lona (7,9%) e madeira com lona (2,6%), apresentaram menor representatividade. Quanto ao manejo de retirada, predominou o sistema automatizado (75,6%), refletindo o nível tecnológico das propriedades avaliadas.
Figura 1 - Caracterização das condições de ensilagem de silagens de trigo. Fonte: Ana Luiza de Freitas dos Santos.
Essa diversidade estrutural e de manejo também se refletiu na variação dos valores de pH das silagens, que oscilaram entre 3,37 e 4,65, com média de 3,87 (DP = 0,24). No entanto, é importante destacar que o pH do silo não é influenciado apenas pelas condições de ensilagem, mas também por fatores intrínsecos ao material, como a composição química e o teor de matéria seca. Nesse sentido, o teor médio de matéria seca observado neste estudo foi de 32,86% (DP = ± 5,41).
Figura 2 – Exemplares de painéis de silos de silagem de trigo planta inteira avaliados em propriedades comerciais no Sul do Brasil. Fonte: Ana Luiza de Freitas dos Santos.
De forma geral, os resultados mostram que as condições de ensilagem são bastante heterogêneas entre as propriedades, envolvendo diferentes combinações de tipo de silo, piso, paredes e sistema de retirada. Isso reforça que a qualidade final da silagem de trigo – assim como toda as demais - não depende de um único fator isolado, mas sim do conjunto de decisões técnicas adotadas ao longo de todo o processo de ensilagem. Embora silos do tipo trincheira sejam frequentemente associados a melhores condições de conservação — devido à maior facilidade de compactação e vedação — os dados indicam que o tipo de silo, por si só, não determina a qualidade da silagem.
Nesse cenário, torna-se evidente que a atenção excessiva ao “tipo” de silo pode mascarar fatores muito mais determinantes para o sucesso da ensilagem. A confecção adequada do silo, a escolha criteriosa dos materiais utilizados no piso e nas paredes, a qualidade da vedação e, sobretudo, o manejo diário de uso da silagem — incluindo taxa de retirada e conservação do painel — não podem ser negligenciados. Em última análise, é o manejo bem executado, antes, durante e após o fechamento do silo, que define a eficiência de conservação e o real valor nutritivo da silagem de trigo planta inteira a ser ofertada aos animais.
Autoras do artigo:
Ana Luiza de Freitas dos Santos, Mestre em Zootecnia, Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, Chapecó-SC.
Ana Luiza Bachmann Schogor, Docente do Programa de Pós-graduação em Zootecnia, Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, Chapecó-SC.
Fontes consultadas
KUNG JR, L. et al. Silage review: Interpretation of chemical, microbial, and organoleptic components of silages. Journal of Dairy Science, v. 101, n. 5, p. 4020-4033, 2018.