A dor no casco, que às vezes ninguém vê, reduz a produção de leite das vacas

O cuidado com o rebanho de vacas leiteiras é o pilar do negócio, pois cada vaca saudável e produtiva significa mais leite no tanque e mais lucro na fazenda. Porém, você já parou para pensar que uma aparente dorzinha nos cascos, que muitas vezes passa despercebida pela equipe de trabalho da fazenda, pode consumir uma parte considerável do seu lucro?

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O cuidado com o rebanho de vacas leiteiras é o pilar do negócio, pois cada vaca saudável e produtiva significa mais leite no tanque e mais lucro na fazenda. Porém, você já parou para pensar que uma aparente dorzinha nos cascos, que muitas vezes passa despercebida pela equipe de trabalho da fazenda, pode consumir uma parte considerável do seu lucro?

As afecções podais, mais conhecidas como doenças de casco, inicialmente não apresentam sinais visíveis, mas, com o passar do tempo, evoluem e causam dores intensas, resultando em claudicação, um quadro clínico caracterizado por uma postura irregular do animal (Figura 1).

As doenças do casco são um problema comum em rebanhos leiteiros e podem levar ao descarte precoce de vacas. A dor e o desconforto das vacas com problemas de casco devem preocupar todos os produtores rurais que estão atentos às questões de bem-estar animal e à rentabilidade do seu negócio. Uma vaca com dores nos cascos consome menos alimentos, pois se movimenta menos. Assim, sua produção de leite inevitavelmente diminui.  

Figura 1 – Vaca claudicando na pata esquerda.

Figura 1
 

Para estimar os impactos dos problemas de casco sobre a produção de leite, realizamos um amplo levantamento de estudos publicados em diversos países, que, ao todo, conduziram mais de 250 comparações entre grupos de vacas saudáveis versus vacas com problemas de casco. Posteriormente, realizamos uma meta-análise dos resultados da literatura, o que nos permitiu gerar estimativas das quantidades de leite, em kg/dia, que uma vaca com problemas de casco perde se comparada a uma vaca saudável.

Detalhes técnico científicos desse estudo podem ser encontrados em Freitas et al. (2026). Foi possível constatar que as perdas de leite dependem do tipo de doença no casco e da gravidade da lesão. Além disso, diferem entre vacas primíparas e multíparas. Para efeito prático de cálculo, assumiremos aqui um rebanho de vacas primíparas com produção média diária de 30,93 kg de leite por vaca e um desvio padrão de 8,22 kg/dia. Para este rebanho, esperamos uma perda média de produção de leite de 0,25 kg/dia em vacas primíparas com lesão subclínica, ou seja, sem sinal de claudicação, podendo chegar a 0,50 kg/dia.

Contudo, se a lesão no casco evoluir para um quadro moderado ou severo, com sinais clínicos visíveis de claudicação, pode se esperar que vaca primíparas percam em média 0,48 kg de leite/dia, podendo chegar a 0,87 kg/dia. Por outro lado, as vacas de segunda cria em diante geralmente são mais produtivas e, consequentemente, são esperadas maiores perdas de produção de leite devido às doenças dos cascos.

Para exemplificar, usaremos agora um rebanho de multíparas com média de 38,85 kg/dia e um desvio-padrão de 11,01 kg/dia. Neste caso, espera-se uma perda média de 1,12 kg/dia, com valor máximo de 1,84 kg/dia, em vacas sob condição subclínica, sem diagnóstico de claudicação, enquanto vacas com sinais clínicos de claudicação perdem, em média, 1,71 kg/dia, podendo chegar a 2,33 kg/dia. 

As perdas de produção de leite dos exemplos acima foram calculadas multiplicando-se os coeficientes da tabela 1 pelos desvios padrão de produção de leite de rebanhos da raça Holandesa avaliados por Marumo et al. (2022). Para você estimar as perdas esperadas na sua fazenda, basta multiplicar os mesmos coeficientes da tabela 1 pelo desvio padrão de cada grupo (primípara ou multípara) da sua fazenda. Ressaltamos que nossa revisão bibliográfica encontrou estudos principalmente com animais da raça Holandesa, havendo ainda uma grande carência de estudos com outras raças. Logo, não podemos afirmar que as estimativas obtidas por meio deste cálculo serão confiáveis se outras raças forem utilizadas.

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Tabela 1. Coeficientes a serem multiplicados pelo desvio padrão para estimar as perdas de produção de leite, segundo cada grupo (primípara ou multípara) e condição da lesão (clínica ou subclínica).
 

Vacas

Condição da doença 

Coeficientes para cálculo das perdas de produção de leite

Mínima

Média

Máxima

Primíparas

Subclínica

-0,0001

-0,0304

-0,0607

Primíparas

Clínica

-0,0097

-0,058

-0,1063

Multíparas

Subclínica

-0,0360

-0,1015

-0,1670

Multíparas

Clínica

-0,0993

-0,1556

-0,2119

    

Observa-se pelos coeficientes da tabela 1, que as menores perdas sempre ocorrem em lesões leves, nas quais a dor ainda não é tão intensa e as vacas não apresentam sinais clínicos de claudicação. Perdas mais elevadas são observadas em vacas com lesões moderadas ou severas, nas quais a claudicação já é perceptível. Isso evidencia a necessidade de um diagnóstico precoce do problema. Então, treine sua equipe a observar os primeiros sinais de desconforto, mudanças no comportamento ou alterações sutis no andar das vacas. Um sistema de escore de locomoção pode ser uma ferramenta valiosa nesse processo. 

Como exemplo, temos o sistema de escore de Thomsen et al. (2008), onde as vacas recebem escores:

1 - quando a vaca apresenta postura normal e dorso reto, estando ela parada ou em movimento;
2 - claudicação leve, onde a vaca caminha quase normalmente e o dorso está reto quando parada, mas levemente arqueado quando caminha;
3 – vaca com claudicação moderada, apresentando marcha anormal com passos curtos em pelo menos uma das pernas e seu dorso está arqueado tanto estando parada quanto em movimento, mas o observador ainda não consegue identificar qual membro está afetado;
4 – caracteriza uma claudicação evidente e o observador consegue identificar quais membros estão afetados;
5 – neste caso a claudicação é grave em uma ou mais pernas e a vaca não consegue ou não quer apoiar o peso na região afetada. Esse diagnóstico visual de postura da vaca contribui para identificar casos em fase inicial da doença no casco, contribuindo para uma intervenção mais precoce e diminuição do acumulado de perdas produtivas.   

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O exame periódico dos casos também é recomendado. Existem três doenças do casco muito conhecidas. A dermatite digital (Figura 2), caracterizada por lesão vermelha e dolorosa, geralmente na parte de trás do casco; a úlcera de sola (Figura 3), caracterizada por exposição dos tecidos sensíveis e dor intensa; e a doença da linha branca (Figura 4), caracterizada por separação na linha branca do casco, podendo ocasionar abscessos. 

Figura 2, 3 e 4: lesão vermelha e dolorosa; úlcera de sola e doença da linha branca. 

Figura 2

Nossa revisão da literatura permitiu estimar as perdas médias de produção de leite decorrentes dessas três afecções podais: 0,58 kg/dia (dermatite digital), 0,66 kg/dia (úlcera de sola) e 0,74 kg/dia (doença da linha branca). Essas perdas não apresentaram diferença estatisticamente significativa. Logo, podemos concluir que todas as três doenças causam perdas e merecem atenção semelhante por parte do produtor rural.

As perdas apresentadas aqui servem de alerta para você, produtor, que busca maximizar a eficiência e a lucratividade da sua propriedade. Aqui, vale o ditado popular: “prevenir é melhor do que remediar”. Não espere sua vaca mancar! Invista em programas de prevenção de afecções podais, os quais devem incluir:

1) casqueamento preventivo e corretivo;
2) instalações com pisos adequados, bem como áreas de pastejo livres de qualquer fator que possa causar lesões por contato físico, como pedras e tocos;
3) manter as instalações limpas e com boa drenagem, para reduzir o risco de infecções;
4) utilizar pedilúvio com solução adequada e;
5) balancear adequadamente a dieta, a fim de fortalecer o sistema imunológico das vacas. 

O monitoramento do rebanho deve ser implementado em todas as fazendas leiteiras, com registros das afecções podais e do desempenho individual das vacas. Isso permitirá que você tome decisões ao longo do tempo e avalie a eficácia das medidas preventivas e de tratamento. Por exemplo, se o manejo preventivo e as ações de mitigação dos problemas de casco estão adequados, vacas reincidentes devem ser descartadas, pois claramente são mais suscetíveis a esses problemas e não desejamos que essa genética se multiplique no rebanho.

Uma vez diagnosticado, inicie rapidamente o tratamento para evitar o acúmulo de perdas produtivas. Nossa revisão mostrou que, mesmo após o tratamento, as vacas podem continuar a apresentar perdas de leite por semanas. Neste caso, peça ajuda especializada, um veterinário habituado com clínica de grandes animais pode propor tratamentos que sejam mais adequados a cada tipo e gravidade de lesão no casco.

Por fim, ressaltamos que as afecções podais não são um problema menor. Elas são um "vazamento" constante na sua produção e, consequentemente, no seu lucro, impactando diretamente o retorno sobre o investimento. A boa notícia é que, ao contrário de outros problemas, as doenças de cascos podem ser controladas e, em grande parte, prevenidas com bom manejo e atenção. Cuidar do casco de suas vacas não é apenas uma questão de saúde e bem-estar animal, é sobretudo um investimento direto na saúde financeira da sua propriedade. 

Fontes consultadas:

Freitas, J. L. D. P.; Costa, P. H. C.; Soares, A. L. S. S.; Freitas, L. M. D.; Pinto, L. F. B. (2026). Impacts of hoof disorders on milk yield in cattle: a systematic review with meta-analysis. Tropical Animal Health and Production, 58:159. https://doi.org/10.1007/s11250-026-04967-1

Marumo, J.L.; Lusseau, D.; Speakman, J.R.; Mackie, M.; Hambly, C. (2022) Influence of environmental factors and parity on milk yield dynamics in barn-housed dairy cattle. J Dairy Sci 105:1225–1241. https://doi.org/10.3168/jds.2021-20698

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Material escrito por:

José Leoncio Delmondes Pereira Freitas

José Leoncio Delmondes Pereira Freitas

Mentor de produtores de leite.

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Luís Fernando Batista Pinto

Luís Fernando Batista Pinto

Professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

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