O estresse calórico ocorre quando a vaca ultrapassa sua zona de conforto térmico, tradicionalmente entre -13°C e 25°C, de maneira que não consegue dissipar calor suficiente para manter o balanço térmico adequado.
Nesse contexto, uma das primeiras respostas fisiológicas observadas é a redução da ingestão de alimentos. Ao diminuir o consumo de matéria seca, o animal busca reduzir a produção de calor metabólico, adaptação que tem como consequência o comprometimento da ruminação e da disponibilidade de precursores essenciais para a síntese de leite, bem como seus componentes. Nesse sentido, a produtividade em si é afetada.
Paralelamente, o ambiente térmico adverso provoca alterações metabólicas relevantes, afetando o sistema imunológico e as respostas hormonais. Observa-se aumento da frequência respiratória, maior salivação e intensificação do fluxo sanguíneo periférico como mecanismos de dissipação de calor, redirecionando nutrientes que seriam destinados à produção para a termorregulação e manutenção da homeostase. Esse cenário é ainda mais crítico em vacas de alta produção, que apresentam maior sensibilidade ao estresse térmico em função do maior calor corpóreo gerado como subproduto da síntese de leite.
Embora o limiar tradicional de estresse térmico seja fixado em THI = 72, estudos conduzidos no Brasil indicam que o início das perdas produtivas ocorre de forma mais consistente a partir de THI = 74, refletindo a adaptação dos animais às condições tropicais, mas não eliminando os impactos sobre a produção (NEGRI et al., 2021). A partir desse nível, os prejuízos são diretos e mensuráveis na nossa produção nacional.
Em condições de conforto térmico (THI < 74), a produção média observada foi de 28,57 kg por vaca/dia, reduzindo para 23,95 kg sob condições de estresse (THI >74), conforme relatado por NEGRI et al. (2021). Para elucidar o impacto da redução de produtividade sobre a rentabilidade do produtor, apresenta-se a Tabela 1, com uma simulação prática: um rebanho de apenas uma categoria de produtores (1.001 a 2.000 L/dia) representa uma perda superior a R$ 60 mil por dia na região de São José do Rio Preto e Ribeirão Preto, por exemplo.
Tabela 1. Estimativa de perda de receita em função do estresse térmico – Simulação*
*Considera-se a estimativa de vacas em lactação na região de São José do Rio Preto e Ribeirão Preto (arredondada para 6.000 animais), na faixa de produção de 1.001 a 2.000 L/dia. Adicionalmente, utiliza-se o preço pago ao produtor para essa mesma faixa e região em fevereiro de 2026 (R$ 2,27/L). Fonte: MAPLeite, com base no trabalho de NEGRI et al. (2021).
Menos dinheiro no bolso do produtor significa menor capacidade de investimento na atividade, seja em nutrição, genética ou manejo. É uma perda silenciosa, que compromete a eficiência produtiva ao longo do tempo e limita ganhos futuros, perpetuando um ciclo de menor produtividade e rentabilidade. Em algumas das regiões monitoradas no MAPLeite — nosso produto de Inteligência de Mercado voltado a empresas que atuam junto a produtores — essa já é uma realidade.
O gráfico 1 ilustra o caso do Oeste + Sudoeste Paranaense (PR), que desde fevereiro vem registrando níveis de THI que demandam atenção e certamente impactam na produção. Outras regiões, como o Centro-Sul Goiano e o Noroeste Rio-grandense também apresentam patamares elevados do indicador.
Gráfico 1. Nível de THI no Oeste + Sudoeste Paranaense em fevereiro e março de 2026. Fonte: MAPLeite, com base em dados do INMET.
Outros efeitos relevantes podem ser identificados na qualidade e composição do leite. Observa-se que o desconforto térmico em regiões subtropicais está associado a quedas de aproximadamente 2,8% no teor de gordura e 4,09% no teor de proteína (M’HAMDI et al., 2021). No Brasil, estudos genômicos indicam que, embora as mudanças nos teores de gordura e caseína possam ser sutis, uma vez que essas características dependem de muitos genes, o perfil de ácidos graxos saturados e insaturados no leite muda, indicando uma base genética para essa sensibilidade ambiental (CARRARA et al., 2023; DAURIA et al., 2022).
Já em relação à qualidade, há aumento na Contagem de Células Somáticas (CCS), que pode ser elevada até 36% em condições de estresse alto, refletindo um comprometimento do sistema imunológico e maior suscetibilidade a infecções mamárias em climas quentes e úmidos (NASR e EL-TARABANY, 2017). Com isso, a matéria-prima enfrenta impactos em rendimento industrial, na experiência sensorial dos produtos e até mesmo em shelf life. Ainda que a alta CCS possa ser parcialmente mitigada por práticas de manejo, ela reforça a relação entre estresse térmico e saúde da glândula mamária.
Por fim, destaca-se a importante interação entre genótipo e ambiente no contexto brasileiro. Considerando que cerca de 90% dos registros produtivos no país ocorrem sob alguma condição de estresse térmico, modelos tradicionais de avaliação genética que não incorporam o THI tendem a subestimar o mérito genético de animais submetidos a essas condições, limitando a precisão das avaliações e decisões de seleção (NEGRI et al., 2021). Além disso, à medida que o estresse calórico se intensifica, a herdabilidade da produção de leite diminui e a eficiência da seleção genética é comprometida, uma vez que o ambiente passa a mascarar o real potencial produtivo das vacas.
Diante da relevância do THI para a produtividade e eficiência da atividade leiteira, o monitoramento desse indicador ganha ainda mais importância quando analisamos os dados e previsões associadas ao El Niño.
Segundo o INMET, o fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, faz parte do sistema conhecido como ENOS (El Niño-Oscilação Sul), que alterna entre três fases: El Niño (aquecimento), La Niña (resfriamento) e condição neutra. Durante sua ocorrência, as temperaturas da superfície do mar ficam, no mínimo, 0,5°C acima da média por um longo período sem duração definida, podendo persistir por mais de dois anos.
Gráfico 2. Probabilidade de intensificação do El Niño ao longo de 2026. Fonte: CPC/NOAA.
O gráfico 2 indica uma elevação consistente na probabilidade de ocorrência do El Niño ao longo de 2026, que já ultrapassa 90% a partir do período entre agosto e outubro, mantendo-se em patamares elevados até o final do ano. Além disso, observa-se um aumento gradual na probabilidade de eventos mais intensos ao longo dos meses, indicando que, à medida que avançamos no segundo semestre, cresce a chance de um El Niño forte. Esse cenário está associado a anomalias superiores a 2°C, o que tende a intensificar seus impactos climáticos e nas produções.
Durante esses episódios, as regiões Norte, Nordeste, parte do Centro-Oeste e Sudeste apresentam tendência de redução das chuvas, maior frequência de períodos de estiagem e aumento das temperaturas. Esse padrão é evidenciado no último evento de El Niño, conforme ilustrado no gráfico 3, com destaque para Minas Gerais, que é o maior estado produtor de leite e foi amplamente afetado pela anomalia. Na prática, esse cenário reduz a oferta de alimento e eleva o custo nutricional dos sistemas, intensificando os efeitos do estresse térmico sobre os animais.
Gráfico 3. Persistência de anomalias de temperatura no Brasil entre o final de 2023 e o início de 2024, no último El Niño. Fonte: INMET.
Por outro lado, na Região Sul, o El Niño costuma estar associado ao aumento dos volumes de precipitação, sobretudo durante o inverno e a primavera, resultando em excesso de umidade no solo e desafios operacionais no manejo agrícola. No contexto da pecuária leiteira, esse cenário também traz implicações diretas: a precipitação excessiva reduz as propriedades isolantes do pelo da vaca, aumentando o gasto energético para manutenção térmica em detrimento da produção, efeito mais severo em animais mantidos em pastagens (HILL e WALL, 2015).
Gráfico 4. Persistência de anomalias pluviométricas no Brasil entre o final de 2023 e o início de 2024, no último El Niño. Fonte: INMET.
Vale destacar que a Região Sul, tradicionalmente beneficiada pelas lavouras de inverno, apresenta uma dinâmica produtiva distinta do restante do país, com maior disponibilidade nutricional justamente em períodos em que outras regiões enfrentam restrições hídricas. Esse fator contribui para uma sazonalidade da produção de leite que, em condições normais, atua na contramão do restante do Brasil. No entanto, sob influência do El Niño, o excesso de chuvas pode comprometer esse diferencial, afetando o desempenho das lavouras, a qualidade dos alimentos e as condições de manejo, o que pode limitar ganhos produtivos em certo nível.
Nesse contexto, o estresse térmico deixa de ser apenas um risco pontual ou sazonal e passa a assumir maior relevância ao longo do ano, reforçando a necessidade de monitoramento contínuo e de estratégias adaptativas mais robustas dentro dos sistemas de produção.
Nesse cenário, ferramentas de inteligência de mercado, como o MAPLeite, tornam-se centrais ao permitir não apenas o acompanhamento regionalizado do THI e a antecipação de riscos, mas também o mapeamento do número de produtores, da rentabilidade por faixa de produção (atual e projetada), do dimensionamento de rebanhos e de suas estimativas de consumo, além da incidência das principais doenças. Ao integrar essas informações, a ferramenta apoia decisões mais assertivas para empresas que atuam junto à produção leiteira em diferentes frentes. Saiba mais aqui!
Fontes utilizadas:
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CARRARA et al., 2023: "Comparison of Marker Effects and Breeding Values at Two Levels at THI for Milk Yield and Quality Traits in Brazilian Holstein Cows".
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GARCIA et al., 2015: (Citado por Negri et al., 2021) "Relationships between heat stress and metabolic and milk parameters in dairy cows in Southern Brazil".
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HILL e WALL, 2015: "Dairy cattle in a temperate climate: the effects of weather on milk yield and composition depend on management".
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KEKANA et al., 2018: "Milk production and blood metabolites of dairy cattle as influenced by thermal-humidity index".
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NASR e EL-TARABANY, 2017: "Impact of three THI levels on somatic cell count, milk yield and composition of multiparous Holstein cows in a subtropical region".
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NEGRI et al., 2021: "Selection for Test-Day Milk Yield and Thermotolerance in Brazilian Holstein Cattle".
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https://portal.inmet.gov.br/noticias/el-ni%C3%B1o-em-2026
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https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/lanina/enso_evolution-status-fcsts-web.pdf