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Fontes alternativas de energia para bovinos leiteiros - Parte 5

POR JUNIO CESAR MARTINEZ

PRODUÇÃO

EM 15/02/2008

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Um volume muito grande de subprodutos agroindustriais é produzido anualmente no Brasil, a partir do processamento de uma grande variedade de culturas para a produção de alimento ou fibra. Alguns são restritos a determinadas regiões, enquanto outros são facilmente encontrados em todo país. A utilização bem sucedida destes subprodutos é muitas vezes restringida pelo conhecimento limitado de suas características nutricionais e valor econômico como ingredientes para alimentação animal, bem como de dados de desempenho de animais consumindo este tipo de alimento.

Neste texto, apresentaremos as fontes alternativas de energia a partir de refinasil e Raspa e Farelo de mandioca.

Farelo de Glúten de Milho-21 (Refinasil ou Promill)

Características do produto

O FGM-21 é um subproduto da indústria de produtos à base de milho, basicamente amido e adoçantes, conhecido pelos nomes comerciais de Refinazil® ou Promill®. É obtido pela separação e secagem das fibras dos grãos de milho durante o processo de moagem úmida do cereal. Tecnicamente, é o que sobra do grão de milho após a extração da maior parte do amido, glúten e germe, pelos processos de moagem e separação empregados na produção de amido e xarope de milho, sendo 2/3 de conteúdo fibroso e 1/3 de licor concentrado de maceração. O rendimento na produção de FGM-21 é estimado em 11% do material original que chega na indústria.

Nos EUA e Europa, o FGM-21 é comercializado na forma úmida, apresentando cerca de 42% de matéria seca (MS), ou na forma seca, com 90-92% de MS. O FGM-21 úmido tem sua utilização restrita às proximidades das fontes produtoras, devido ao custo do frete. No Brasil comercializa-se principalmente o FGM-21 na forma seca, entretanto, este subproduto, passou a ser comercializado também na forma úmida no Brasil recentemente. A produção anual de FGM-21 gira em torno de 230 mil toneladas.

A Tabela 1 apresenta uma comparação entre as composições nutricionais do milho com o FGM-21, úmido e seco. A composição final do subproduto pode variar em função das condições de cada indústria, de forma que sempre se recomenda a análise dos teores nutricionais do FGM-21 antes de sua utilização.

O FGM-21 pode ser utilizado tanto como fonte de energia como de proteína. Normalmente, quando incluído na dieta de vacas leiteiras, o FGM-21 substitui parte do cereal, na maior parte dos casos o milho, e também permite reduzir a dose de suplementos protéicos como farelo de soja, farelo de algodão e uréia. A proteína do FGM-21 é bastante degradável no rúmen. A fração de proteína não degradável no rúmen é pequena e deficiente em lisina.

Tabela 1. Comparação nutricional entre milho e refinasil.


Fonte: *Blasi, et al. (2001); **NRC(1996)

Em função de suas características - pobre em gordura e amido, e bastante rico em fibra altamente digestível - o FGM-21 constitui-se numa ótima alternativa para inclusão em dietas baseadas em grãos e silagem de milho. Por apresentar concentrações mais elevadas de FDA e FDN do que os grãos de cereais, a utilização do FGM-21 pode levantar questões sobre a concentração energética e limitações ao consumo das dietas, mas os teores reduzidos de amido e elevados de fibra digestível podem ajudar a manter o pH ruminal em patamares mais desejáveis, otimizando a digestão da fibra, o que pode compensar possíveis diferenças na digestibilidade total das dietas.

Desempenho de vacas leiteiras alimentadas com refinasil

Cinco estudos foram encontrados onde o FGM-21 (úmido ou seco) substituiu apenas o concentrado, sendo incluído nas doses entre 10 a 40% da MS das dietas. O consumo não foi afetado em 3 estudos, foi aumentado em 1 e reduzido em 1 pelo FGM-21. A produção de leite corrigido para gordura não foi alterada em 2, aumentou em 2 e diminuiu em 1 estudo. O estudo onde houve efeito negativo na produção de leite, este ocorreu apenas na comparação onde o FGM-21 foi incluído em dose alta na dieta (40% da MS). Neste caso também houve redução no CMS.

Por outro lado, foram encontrados seis estudos onde o FGM-21 substituiu parte do volumoso e parte do concentrado, sem efeito no consumo e produção de leite corrigido para gordura em 5 estudos. Em apenas 1 estudo houve aumento no consumo e produção de leite corrigido para gordura.

Estudos conduzidos recentemente no Departamento de Zootecnia da ESALQ com vacas alimentadas com silagem de milho (Tabela 2) ou mantidas em pastagens de capim elefante manejadas intensivamente (Tabela 3) resultaram em dados concordantes com os acima citados.

Nota-se que o consumo, a produção de leite e de leite corrigido para gordura não foram alterados pelos tratamentos. A substituição do milho por FGM-21 resultou em aumento linear no teor de gordura e redução no teor de proteína do leite. O aumento no teor de gordura do leite pode ser explicado por um efeito conjunto de redução no teor de amido e aumento no teor de fibra da dieta. Da mesma maneira, a redução no teor de amido da dieta pode explicar em parte a redução no teor de proteína do leite.

Pela Tabela 2, podemos concluir que vacas leiteiras com produção ao redor de 25 kg de leite/d, quando alimentadas com silagem de milho, podem receber concentrado contendo polpa cítrica e FGM-21 em partes iguais e sem milho, sem que haja queda no consumo e produção de leite. Esta prática permite reduzir os custos de alimentação das vacas, especialmente durante a entre-safra do milho, quando o custo do grão é elevado e dos subprodutos é baixo.

Tabela 2. Substituição do milho por FGM para vacas leiteiras confinadas.


FGM50 - substituição de 50% do milho; FGM100 - substituição de 100 do milho moído fino.
Fonte: Pedroso (dados não publicados)

Tabela 3. Substituição do milho por FGM-21 para vacas leiteiras mantidas em pastagens.


Fonte: Martinez et al., (dados não publicados)
1Erro padrão da média;
2Probabilidade.

Pode-se concluir então, que o FGM-21 tanto na forma úmida como seca, quando utilizados em substituição parcial ao concentrado ou ao concentrado e volumoso, não tem grande efeito no desempenho de vacas leiteiras e pode se constituir em uma alternativa de custo vantajoso em relação à mistura milho mais farelo de soja.

Raspa e Farelo de mandioca

Características do produto

Além dos cereais, algumas raízes e tubérculos também são ricos em amido, como por exemplo a mandioca. O Brasil é o maior produtor mundial de mandioca, com cerca de 24 milhões de toneladas anuais, e tem se mantido nessa posição por muitos anos.

O uso de mandioca e seus subprodutos na alimentação animal vem crescendo no mundo. O mercado comum europeu é o maior centro importador de raspa, e vem utilizando-a cada vez mais na composição de rações balanceadas para nutrição animal em substituição ao milho e a cevada.

Com o processamento industrial para produção de farinha e a extração de amido, gera-se resíduos sólidos como cascas, bagaços e descartes e resíduos líquidos como a água de lavagem e a manipueira.

Tanto a parte aérea como as raízes frescas e os subprodutos sólidos têm potencial para uso na alimentação animal. No Brasil as formas mais comuns de utilização da raiz da mandioca para bovinos são a raspa de mandioca, que consiste na raiz picada e seca ao sol ou artificialmente, podendo ser triturada posteriormente, originando o farelo de raspa; e o farelo de mandioca, originado após a segunda peneiragem do processo de extração da fécula, o farelo de mandioca tem um aspecto grosseiro, por conter o material mais fibroso da raiz. Apesar de rico em amido, seu teor deste nutriente é inferior ao da raspa. O teor de amido na matéria seca varia entre 72 a 91% na raspa de mandioca e entre 60 a 65% no farelo de mandioca.

O amido da mandioca diferencia-se consideravelmente do amido do milho. Enquanto no milho, a amilopectina representa pelo menos 70 % do amido, já na mandioca a amilopectina representa apenas 17% do amido. O amido de mandioca não apresenta matriz protéica associados aos grãos de amido. Por outro lado, apresenta altos teores de amilose.

A pesquisa considera que o farelo de mandioca caracteriza-se como subproduto de boa utilização pela microflora ruminal, com coeficiente de digestibilidade da MS acima de 61%. Esta característica é um fator positivo quando a dieta é balanceada adequadamente. Entretanto, dietas com excesso de amido de alta degradabilidade ou deficientes em fibra efetiva, aumentam significativamente os riscos de ocorrência de baixo pH ruminal, levando á baixo teor de gordura do leite, queda no consumo e na produção de leite e incidências de laminite.

Desta forma deve se evitar a substituição total do milho ou sorgo por amido de mandioca em dietas para vacas leiteiras de bom potencial de produção. A substituição pode ser total quando a raspa ou farelo de mandioca são combinados com subprodutos como polpa cítrica, casca de soja, farelo de trigo ou de glúten de milho (refinasil ou prómill) ou outros subprodutos com baixo teor em amido.

Outro cuidado que deve ser tomado quando do uso de mandioca na alimentação de bovinos é com relação à presença de compostos tóxicos. A mandioca contém os glicosídeos linamarina e lotaustralina, que geram o ácido cianídrico (HCN). Este composto tóxico pode causar danos neurológicos crônicos ou até mesmo a morte do animal. O HCN liga-se ao ferro e interage com a hemoglobina para formar a ciano-hemoglobina, que impede o transporte de oxigênio para os tecidos e leva o animal a morte por asfixia.

Com base nos teores de HCN a mandioca pode ser classificada como raiz mansa ou brava. Tanto a parte aérea como as raízes contêm este composto tóxico, porém os valores são mais altos na parte aérea.

Os métodos mais eficientes de se eliminar o HCN é a secagem do material, natural ou artificialmente ou o cozimento da raiz. Entretanto, a simples exposição ao ar por 24 a 48 horas da raiz ou parte aérea é suficiente para a volatilização do HCN. Assim, os riscos de intoxicação só ocorrem com o fornecimento de parte aérea e raízes frescas, trituradas e fornecidas aos animais imediatamente após a colheita.

Desempenho de vacas leiteiras alimentadas com raspa e farelo de mandioca

Nas comparações realizadas pela pesquisa, normalmente o consumo e os componentes do leite não são alterados. Por outro lado, a produção de leite pode ou não ser afetada, conforme mostram as Tabelas 4 e 5.

Tabela 4. Efeito da degradabilidade de fontes de amido no consumo de matéria seca e na produção e composição do leite.


Médias seguidas de letras distintas nas linhas indicam diferenças significativas (P<0,05).
M310 = milho floculado a 310g/l; M360 = milho floculado a 360 g/l; MMF = milho moído fino; MMG = milho moído grosso; EPM = erro padrão da média.
Fonte: Pires (1999)

Tabela 5. Valores médios de produção e composição de leite em comparações entre amido de mandioca combinado com milho e polpa cítrica.


T1= milho; T2 = milho + polpa cítrica; T3 = polpa cítrica + farelo de mandioca. Fonte: Scoton (2003).

Considerações finais

O refinasil é um alimento excepcional para uso na alimentação animal. De uma maneira geral, quando parte da silagem de milho, dos grãos de milho e do farelo de soja do concentrado foram substituídos por refinasil, casca de soja ou farelo de trigo em um total de 22% da matéria seca. Observou-se que o desempenho das vacas foi praticamente o mesmo, conforme demonstra a Tabela 6.

Tabela 6. Efeito de vários subprodutos no desempenho e digestibilidade de rações de vacas em lactação.


Médias na mesma linha com letras a,b,c diferentes diferem (P<0,01) e letras d, e diferentes diferem (P<0,05).
Fonte: Bernard & Mcneill (1991)

Por outro lado, a utilização de raspa ou farelo de mandioca certamente irá reduzir a produção de leite, ficando a cargo do produtor avaliar se esta redução é compensada pelo menor custo com a alimentação.


Referências Bibliográficas:

BERNARD, J. K., McNEILL, W.W. 1991. Effect of high fiber energy supplements on nutrient digestibility and milk production of lactating dairy cows. J. Dairy Sci. 74:991.

PIRES, A.V. Efeito da inclusão de fontes de amido e silagem de milho em dietas base de cana-de-açúcar na digestibilidade de nutrientes e na produção de leite de vacas holandesas. (Tese de Livre docente). Piracicaba, 1999.

SCOTON, R.A. 2003. Substituição do Milho Moído Fino por Polpa Cítrica Peletizada e/ou Raspa de Mandioca na Dieta de Vacas Leiteiras em Final de Lactação. Dissertação (Mestrado) - Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" Universidade de São Paulo, Piracicaba. 55p.

JUNIO CESAR MARTINEZ

Doutor em Ciência Animal e Pastagens (ESALQ), Pós-Doutor pela UNESP e Universidade da California-EUA. Professor da UNEMAT.

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AUGUSTO CESAR MENDONÇA MELO

ARACAJU - SERGIPE - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 07/08/2014

Boa materia
JULIO CEZAR BICALHO FERREIRA

VILA NOVA DO MAMORÉ - RONDÔNIA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 24/03/2008

O artigo é bastante interessante por mostrar que podemos estar ajudando a pastagem no período crítico na abtenção de volumoso aos animais, porém para a implementação de algumas fontes alternativas o produtor deve ficar atento quanto a quantidade que cada animal poderá estar recebendo na sua dieta para não estar comprometendo a saúde dos animais.