Na maioria das vezes, o problema não é falta de informação técnica, mas a dificuldade de fazer o protocolo acontecer de forma consistente na rotina da fazenda — especialmente em partos noturnos, fins de semana e em equipes com alta rotatividade.
Quando ocorre falha na transferência de imunidade passiva (FTIP), a bezerra adoece mais, demanda maior uso de medicamentos e apresenta pior desempenho inicial. No campo, isso se traduz em mais custo, maior risco de perdas e menor previsibilidade da recria (Abuelo, 2020; Lombard et al., 2020).
Mas onde o protocolo mais falha na rotina da fazenda? Alguns pontos básicos resolvem grande parte do problema quando são realmente aplicados no dia a dia.
Qualidade do colostro
O uso do refratômetro Brix na rotina é uma ferramenta simples e eficiente para triagem da qualidade do colostro:
- valores ≥ 22% indicam colostro de boa qualidade;
- entre 18% e 21% indicam qualidade intermediária;
- abaixo de 18% indicam colostro inadequado para a primeira mamada.
Mesmo fazendas que produzem colostro de boa qualidade podem falhar quando não medem o Brix, oferecendo, sem saber, colostro de baixa qualidade justamente para as bezerras mais vulneráveis.
Volume e tempo
O ideal é fornecer um volume equivalente a 10–12% do peso vivo nas primeiras horas de vida. Quanto mais cedo, melhor. A capacidade de absorção de anticorpos pelo intestino da bezerra cai rapidamente ao longo do primeiro dia de vida, e cada hora de atraso aumenta o risco de FTIP.
Higiene não é detalhe
Mamadeiras, baldes, bicos e sondas mal higienizados aumentam a contaminação do colostro e reduzem a eficiência de absorção de imunoglobulinas (Hue et al., 2021). Na prática, colostro de boa qualidade pode se transformar em “colostro ruim” ao passar por utensílios inadequadamente higienizados.
Quando o erro não é técnico, é operacional
No dia a dia, os pontos em que o protocolo de colostragem mais “quebra” costumam ser:
- partos noturnos sem responsável definido;
- cada funcionário executando a rotina “do seu jeito”;
- ausência de banco de colostro classificado e congelado;
- falta de medição rotineira do Brix;
- bicos danificados ou inadequados;
- oferta apressada, com refluxo ou regurgitação.
Em bezerras com dificuldade de sucção, o fracionamento da oferta pode ser uma estratégia válida, desde que o volume total seja garantido dentro do tempo recomendado (Pastorini et al., 2022; Pastorini et al., 2023).
O impacto direto no bezerreiro
As consequências dessas falhas aparecem rapidamente. Bezerras com FTIP apresentam maior incidência de diarreias e pneumonias, maior risco de mortalidade e pior desempenho inicial (Fischer-Tlustos et al., 2021; Crannell et al., 2023). No fechamento do mês, isso se traduz em mais gastos com medicamentos, mais horas de trabalho da equipe e maior perda de animais.
Como transformar protocolo em rotina de verdade
Algumas ações simples ajudam a reduzir a distância entre o que está no papel e o que acontece na prática:
-
deixar o fluxo de colostragem visível no bezerreiro (o que fazer, quem faz e quando faz);
-
treinar a equipe periodicamente, incluindo simulações de partos fora do horário comercial (Figura 1);
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medir o Brix de forma rotineira e manter banco de colostro classificado;
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padronizar a limpeza, desinfecção e o armazenamento dos utensílios;
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definir claramente quem é responsável pelos partos noturnos e de fim de semana;
-
acompanhar indicadores simples, como tempo do parto até a primeira mamada e incidência de diarreia neonatal.
Figura 1: Parto noturno assistido. Fonte: Arquivo pessoal dos autores.
Um bom começo é simples: por duas semanas, medir o Brix em todos os partos e registrar o horário da primeira mamada. Em pouco tempo, os próprios números mostram onde a rotina está falhando.
No fim das contas, vale a pergunta: na sua fazenda, o protocolo de colostragem funciona quando o parto acontece às duas da manhã? Se a resposta for “não tenho certeza”, provavelmente o problema não está no conhecimento técnico, está na forma como a rotina é organizada.
Autores do artigo:
Leonardo Freire Quintanilha – Médico-veterinário, mestrando em Diagnóstico em Medicina Veterinária (Univassouras).
Theresse Camille Nascimento Holmström – Médica-veterinária, doutora em Ciências Veterinárias (UFRRJ), docente do mestrado profissional em Diagnóstico em Medicina Veterinária (Univassouras).
Fontes consultadas
Abuelo, A. (2020). Passive immunity in calves. Veterinary Clinics of North America: Food Animal Practice, 36(2), 217–233.
Lombard, J. E. et al. (2020). Consensus recommendations on calf passive immunity. Journal of Dairy Science, 103(8), 7611–7624.
Hue, D. T. et al. (2021). Colostrum management and calf health. Journal of Dairy Science, 104(6), 7193–7206.
Fischer-Tlustos, A. J. et al. (2021). Effects of failure of passive transfer on calf health and performance. Journal of Dairy Science, 104(10), 10842–10852.
Crannell, K. M. et al. (2023). Passive transfer and morbidity/mortality in dairy calves. Journal of Dairy Science, 106(2), 1543–1556.
Pastorini, L. H. et al. (2022). Colostrum feeding strategies and physiological responses in calves. Journal of Dairy Science, 105(9), 7421–7432.
Pastorini, L. H. et al. (2023). Volume/frequency of colostrum and IgG absorption in calves. Journal of Dairy Science, 106(5), 4210–4221.