Roberto Jank, da Agrindus; "não perdemos nem 1 litro de água na fazenda"

Com a proximidade do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, o MilkPoint preparou uma série especial para mostrar como produtores de leite estão lidando com um dos recursos mais valiosos e estratégicos para a atividade: a água.

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Com a aproximação do Dia Mundial da Água, o MilkPoint destacará como produtores de leite, como a Fazenda Santa Rita, gerenciam a água de forma eficiente e sustentável. A gestão da água é considerada um ativo essencial, com práticas que incluem o reaproveitamento da água utilizada na limpeza e a captação de água da chuva. O planejamento do sistema é crucial para reduzir custos operacionais. A Fazenda Santa Rita também busca integrar a produção de alimentos para os animais, promovendo um ciclo produtivo virtuoso.
Com a proximidade do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, o MilkPoint preparou uma série especial para mostrar como produtores de leite estão lidando com um dos recursos mais valiosos e estratégicos para a atividade: a água. Nas próximas semanas, o portal publicará relatos de fazendas que vêm adotando práticas para melhorar o uso desse recurso dentro da produção leiteira, combinando eficiência produtiva, responsabilidade ambiental e visão de longo prazo.

Um desses exemplos vem da Fazenda Santa Rita, propriedade da Agrindus S/A, considerada uma das maiores fazendas leiteiras do Brasil segundo o relatório Top 100 MilkPoint, cuja nova edição será publicada em breve no portal MilkPoint. À frente da operação está Roberto Jank Jr., diretor-presidente da empresa, que explica como a gestão estratégica da água se tornou parte essencial do sistema produtivo da propriedade.

Água: um recurso estratégico na pecuária de leite

Para Jank, a água precisa ser tratada como um dos ativos mais importantes dentro da produção leiteira.  Na Fazenda Santa Rita, o sistema foi desenhado para direcionar cada tipo de água ao uso mais adequado dentro da operação.

“As águas superficiais, por exemplo, são destinadas principalmente às atividades de higienização da estrutura produtiva. Nosso projeto prevê seu uso na lavagem dos currais e das instalações. Todo o sistema é limpo por meio de flushing, processo que utiliza a água armazenada em represas. Já a água subterrânea recebe um destino considerado mais nobre: é reservada prioritariamente para a ingestão dos animais e para o laticínio, ou seja, para usos de maior exigência em qualidade”, explica o produtor.

Figura 1: Captação de agua da chuva nas calhas e condutores laterais do telhado na Fazenda Santa Rita. 

reuso da água na Agrindus

Reuso total: da limpeza das instalações à fertirrigação

Além da separação estratégica das fontes, a fazenda trabalha com um sistema que busca evitar desperdícios. Segundo Jank, toda a água utilizada na limpeza das instalações é captada e reaproveitada dentro do sistema da propriedade. Após a coleta, esse material passa por diferentes etapas de tratamento. Primeiro ocorre a separação da areia nas pistas e em seguida, os sólidos são retirados e destinados à compostagem orgânica.

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A fração líquida do esterco, rica em nutrientes solúveis, segue para tratamento anaeróbico em represas e, depois, é direcionada aos pivôs centrais. Dessa forma, todo o volume é reaproveitado na fertirrigação das áreas da fazenda. “Aqui não se perde nenhum litro de água: todo o volume é reaproveitado na irrigação de cinco pivôs centrais, em um sistema de fertirrigação com resultados muito positivos”, explica Jank.

Figura 2: Pivôs na Fazenda Santa Rita. 

irrigação Agrindus

Captação da água da chuva amplia eficiência do sistema

Outro componente importante do sistema é o aproveitamento da chuva. Na propriedade, a água que escoa dos telhados das instalações — como o free stall e a área de criação de bezerras — é captada e direcionada para reservatórios. Em seguida, segue para caixas de armazenamento que abastecem o sistema de flushing. Segundo Roberto, esse volume é coletado, armazenado e incorporado ao sistema de reaproveitamento da fazenda, sendo utilizado posteriormente na fertirrigação.


Figura 3: Free stall da Fazenda Santa Rita. 

Reutilização da água - Agrindus, Fazenda Santa Rita
 

Um ciclo produtivo que começa na vaca e volta para o alimento

Para Jank, esse modelo cria um ciclo produtivo eficiente dentro da própria fazenda. “Esse manejo é muito importante porque - olhando para o futuro, - é uma reciclagem interessante e um ciclo virtuoso. Isso ocorre porque os nutrientes presentes nos efluentes retornam ao solo e contribuem para a produção das lavouras. A gente acaba fornecendo o elemento mais importante para as plantas, que é a água, enriquecida com os nutrientes produzidos pelos nossos próprios animais". 

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Na prática, parte dos alimentos consumidos pelo rebanho nasce do próprio sistema produtivo da fazenda. “Com isso, a gente consegue fazer com que a vaca produza grande parte do próprio alimento que ela mesma vai consumir. Como dito anteriormente, esse é um ciclo virtuoso importante para priorizarmos nas fazendas leiteiras". 

Planejamento do sistema é o principal desafio

Segundo o produtor, um dos maiores desafios para implementar um modelo como esse está no planejamento inicial. “Eu acho que o desafio mais importante é justamente a elaboração do projeto.”

Para ele, o ideal é estruturar a fazenda de forma que o fluxo da água ocorra naturalmente, aproveitando a gravidade sempre que possível. “Precisamos aproveitar ao máximo a gravidade para evitar o uso de bombas, porque o que realmente encarece a operação é ter que bombear essa água.” Segundo Roberto, quando o sistema depende de bombeamento, os custos operacionais aumentam e a manutenção tende a ser mais frequente — especialmente em situações em que há presença de areia. “Nesses casos, além do gasto com energia, as bombas também podem exigir mais manutenção ao longo do tempo”, observa.

Na Fazenda Santa Rita, boa parte da estrutura foi planejada justamente para reduzir essa necessidade. “Temos captação de águas superficiais que ficam acima dos prédios, então essa água chega por gravidade. Também conseguimos captar a água da maioria dos telhados dessa forma e direcioná-la para caixas localizadas em níveis mais baixos.”

O mesmo princípio foi aplicado ao sistema de tratamento dos efluentes. “Todo o processo — desde a captação do esterco, passando pela separação de sólidos, peneira estática e represas, até chegar aos pivôs centrais — também funciona por gravidade.”

A recomendação para outros produtores

Para produtores que desejam implementar sistemas semelhantes, a principal recomendação de Jank é considerar o relevo da propriedade desde o início do projeto. “Uma dica que eu daria é estruturar o sistema, quando possível, aproveitando as condições naturais do terreno para utilizar a gravidade. Isso reduz custos operacionais e também simplifica a manutenção ao longo do tempo”, explica.

Tradição, inovação e sustentabilidade na Agrindus

A história da família Jank na produção leiteira atravessa gerações. Desde a fundação da fazenda, em 1945, a propriedade vem incorporando tecnologia, gestão e novos modelos de produção.

Hoje, além de se destacar pela escala produtiva e pela produção de leite A2, a fazenda também investe em práticas que buscam tornar a atividade cada vez mais eficiente e sustentável.

Nesse contexto, a gestão da água tornou-se um dos pilares para garantir produtividade, reduzir desperdícios e fortalecer o ciclo produtivo dentro da própria fazenda — transformando cada gota em parte da estratégia de produção.

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Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

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