Chuva armazenada, vacas resfriadas: a lógica da água na Melkstad

Na Melkstad, em Carambeí (PR), a gestão da água passou por uma transformação importante nos últimos anos. Segundo Diogo Vriesman, sócio-diretor da propriedade, a captação da água da chuva e o monitoramento do consumo passaram a desempenhar papel central na estratégia produtiva da fazenda.

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Com a aproximação do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, cresce a atenção para um dos recursos mais estratégicos da produção leiteira: a água. Em diferentes regiões do Brasil, produtores vêm adotando soluções para melhorar o uso desse insumo dentro das propriedades, combinando eficiência produtiva, redução de custos e maior segurança hídrica.

Na Melkstad, em Carambeí (PR), uma das maiores fazendas leiteiras do Brasil segundo o relatório Top 100 MilkPoint, cuja nova edição será publicada em breve no portal MilkPoint, a gestão da água passou por uma transformação importante nos últimos anos. Segundo Diogo Vriesman, sócio-diretor da propriedade, a captação da água da chuva e o monitoramento do consumo passaram a desempenhar papel central na estratégia produtiva da fazenda.

Figura 1

Captação da água da chuva amplia segurança hídrica

Na propriedade, praticamente toda a água da chuva que incide sobre as estruturas produtivas é captada e armazenada. “Hoje nós captamos 100% da água da chuva dos telhados e também parte da água que escorre de pátios pavimentados, como os de silagem. Essa água é direcionada para reservatórios e depois reaproveitada em diferentes atividades dentro da fazenda”, explica Vriesman.

O recurso armazenado é utilizado principalmente para resfriamento das vacas e limpeza das instalações, atividades que normalmente exigem grande volume de água. Segundo ele, o sistema trouxe ganhos importantes em eficiência. “Tudo que se trata de água envolve bombeamento. Então, quando conseguimos reaproveitar água da chuva ou água de reuso, estamos economizando energia e evitando o uso de água potável de subsolo para atividades que não exigem essa qualidade.”

Resfriamento das vacas impacta produtividade

O armazenamento da água da chuva também permitiu ampliar a capacidade de resfriamento do rebanho durante os meses mais quentes do ano. No passado, períodos de estiagem ou redução das chuvas limitavam o uso do sistema de resfriamento. “Antes, quando tínhamos uma seca ou uma estiagem, ficávamos mais restritos no uso da água para resfriar as vacas. Hoje conseguimos fazer esse resfriamento com muito mais tranquilidade durante o verão”, afirma.

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De acordo com Vriesman, essa mudança tem impacto direto na produtividade do rebanho, já que o conforto térmico é um dos fatores decisivos para o desempenho das vacas leiteiras em climas quentes.

Redução do bombeamento de poços diminui custos

Outro benefício importante está na redução da dependência de água subterrânea. A fazenda possui cinco poços artesianos, mas atualmente apenas um permanece em operação contínua. Os demais ficam em sistema de reserva.

“O bombeamento de água do subsolo exige bombas de alta potência, porque os poços são profundos. Isso significa consumo elevado de energia, além de custos de manutenção. Quanto mais conseguimos reduzir esse bombeamento, maior é a economia”, explica.

Tratamento permite ampliar uso da água captada

Para ampliar o aproveitamento da água captada, a fazenda também implantou um sistema de tratamento que permite utilizar água de chuva e de superfície em diferentes etapas da operação.

Na propriedade, a estação de tratamento utilizada é baseada na tecnologia AquaSys, um sistema de purificação voltado para uso agroindustrial que combina múltiplas etapas de filtragem e monitoramento da água.

A solução atua na remoção de partículas, microrganismos e outros contaminantes, permitindo transformar água de diferentes origens em um padrão adequado para consumo humano, dessedentação animal e uso em equipamentos. Outro ponto destacado pelo produtor é a ausência de adição de produtos químicos no processo, o que contribui para manter a qualidade da água ao longo do sistema.

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A estação instalada na fazenda trata até 20 mil litros por hora, atendendo boa parte da demanda da propriedade. Segundo Vriesman, o sistema também permite acompanhar o uso da água dentro da fazenda. “Hoje conseguimos monitorar o fluxo e a qualidade da água ao longo do processo. Isso ajuda a entender melhor o consumo e melhorar a gestão hídrica da fazenda.”

Aquasys, Fazenda Melkstad

Reservatórios ampliam capacidade de armazenamento

A infraestrutura de captação inclui calhas, tubulações e reservatórios distribuídos pela propriedade. Um dos principais pontos do sistema é uma cisterna coberta com capacidade para 1 milhão de litros, onde parte da água da chuva é armazenada logo após a captação.

O reservatório fechado ajuda a preservar a qualidade da água armazenada. “A cisterna é coberta justamente para evitar a formação de algas e manter a água em boas condições até o momento do uso”, explica.

Para o produtor, o investimento necessário para implantar sistemas de captação e armazenamento costuma ser menor do que muitos imaginam. “Não é algo extremamente complexo. Basicamente são calhas, tubulações e reservatórios. E estamos falando de armazenar um recurso extremamente valioso para a produção de leite.”

Água de qualidade é essencial para produção de leite

Vriesman lembra que a água está no centro do sistema produtivo da pecuária leiteira. “Mais de 80% da composição do leite é água. Então as vacas precisam ter água em abundância e, principalmente, água de alta qualidade.”

Além da dessedentação do rebanho, a água também é essencial para atividades como limpeza das instalações, higienização de equipamentos de ordenha e resfriamento dos animais — fatores diretamente ligados à produtividade, sanidade e qualidade do leite. Nesse contexto, a gestão eficiente dos recursos hídricos passa a ser um elemento estratégico dentro da fazenda.

“A água precisa estar disponível em quantidade e qualidade. Quando conseguimos organizar bem o sistema de captação, armazenamento e tratamento, isso traz segurança para a produção e ajuda a reduzir custos no dia a dia da propriedade”, conclui.

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Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

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