Essa é a visão de Paul Windemuller, produtor de leite nos Estados Unidos e uma das principais referências globais na aplicação de IA na pecuária. À frente de uma fazenda leiteira robotizada em Michigan, ele combina experiência prática com uma leitura estratégica sobre como dados, IA e inovação podem fortalecer a competitividade do produtor.
Reconhecido como Nuffield International Farming Scholar (2024) e Farmer Communicator of the Year pela National Milk Producers Federation (2025), Windemuller já visitou mais de 15 países analisando como novas tecnologias estão transformando sistemas de produção, economias rurais e cadeias alimentares.
No Milk Pro Summit 2026, ele levará ao público uma discussão direta sobre por que tantas fazendas ainda não capturaram valor com IA — e o que acontece quando essa virada finalmente começa.
O erro mais comum na adoção da IA
Para Windemuller, muitos produtores iniciam a conversa da forma errada. Em vez de perguntar qual ferramenta comprar, o primeiro passo deveria ser identificar onde a fazenda mais perde dinheiro, tempo ou atenção de gestão.
“O maior erro que vejo é os produtores perguntando: ‘qual ferramenta de IA eu devo comprar?’ antes de perguntarem: ‘qual problema está me custando mais dinheiro, tempo ou atenção de gestão toda semana?’ É por aí que eu começaria.”
Segundo ele, o melhor ponto de partida nem sempre será o problema mais caro ou o mais simples de resolver. A prioridade deve estar onde três fatores se encontram: impacto financeiro, dados utilizáveis e possibilidade de gerar resultados rápidos o suficiente para construir confiança na equipe. “Então a lógica que eu recomendo é: comece com um problema que seja doloroso, mensurável e repetível.”
Na prática, isso significa escolher gargalos em que seja possível medir ganhos claros, como economia de ração, redução de mão de obra, melhora reprodutiva ou identificação precoce de doenças.
Onde a IA já entrega retorno real
Entre as aplicações mais consistentes, Windemuller destaca aquelas ligadas ao manejo diário e à resposta biológica do rebanho. “A detecção precoce de doenças é um dos exemplos mais claros. Sistemas capazes de antecipar sinais de mastite, pneumonia, cetose, claudicação e outros problemas podem reduzir perdas de leite, baixar custos de tratamento, melhorar recuperação dos animais e evitar intervenções tardias”.
A reprodução também aparece como uma frente relevante, especialmente quando a tecnologia melhora o timing e a disciplina nas decisões de inseminação. Outro ganho importante está na eficiência da mão de obra. Para ele, uma boa IA ajuda os líderes a priorizar o que realmente merece atenção, em vez de se perderem em dashboards, relatórios e excesso de alertas.
Mais promessa do que realidade
Apesar do avanço acelerado, Windemuller faz um alerta sobre soluções que prometem gerir a fazenda de forma automática. “Onde ainda vejo mais promessas do que realidade são nas ferramentas que dizem que vão ‘gerenciar a fazenda por você’, tomar todas as decisões automaticamente ou dar recomendações estratégicas profundas sem contexto suficiente.”
Na avaliação dele, muitos sistemas conseguem identificar padrões, mas poucos entendem as razões complexas que estão por trás desses padrões. “Então, quando uma empresa começa a falar como se o modelo conhecesse sua fazenda melhor do que as pessoas que vivem nela todos os dias, é preciso cautela.”
Dados, autonomia e governança
Outro tema central para o futuro da IA no campo será a governança dos dados. À medida que plataformas digitais se tornam mais presentes, produtores precisarão proteger autonomia e liberdade de escolha. “À medida que a IA se torna mais comum, acho que os produtores precisam ser intencionais em não entregar o controle.”
Ele recomenda que cada fazenda faça perguntas simples desde o início: quem é dono dos dados, quem pode utilizá-los, se é possível migrar informações para outros sistemas e se a plataforma integra com terceiros ou tenta aprisionar o usuário em um único ecossistema. “Se não houver respostas claras, isso é um sinal de alerta.”
Tecnologia não corrige gestão fraca
Para Windemuller, um dos erros mais recorrentes ocorre quando fazendas adicionam tecnologia sobre processos mal estruturados e depois culpam o software pelos resultados ruins. “Em muitas fazendas, a tecnologia é adicionada em cima de uma gestão fraca, e depois culpam a tecnologia quando ela falha.”
Ele afirma que a maioria dos fracassos não nasce do algoritmo, mas de fatores humanos: dados ruins, ausência de processo para agir sobre alertas, falta de treinamento, sistemas desconectados, foco em modismos e liderança que confunde instalação com adoção real. “As vacas não se importam se você comprou uma assinatura. O valor só aparece quando a equipe muda o comportamento.”
O que muda nos próximos anos
Na visão do especialista, a principal transformação inevitável entre os próximos três e cinco anos será a troca de uma gestão baseada no passado por uma gestão orientada por previsão. “As fazendas vão sair de uma gestão baseada no passado (relatórios) para uma gestão orientada por previsão.”
Isso significa detectar problemas sanitários no rebanho leiteiro mais cedo, antecipar quedas de desempenho, identificar ineficiências nutricionais rapidamente, organizar melhor equipes e transformar informação em ação com mais velocidade.
Ele também acredita que a IA deixará de ser vista como algo separado e passará a estar incorporada silenciosamente em áreas como manejo do rebanho, alimentação, reprodução, monitoramento sanitário, planejamento de mão de obra e decisões financeiras. “As fazendas que vencerão no futuro serão aquelas que usam tecnologia com mais disciplina, pensamento mais claro e maior entendimento do próprio negócio.”
O Milk Pro Summit se consolida como um dos principais fóruns de debate sobre o futuro da produção de leite, reunindo lideranças globais e especialistas que estão redesenhando a competitividade do setor. Com nomes como Paul Windemuller, o evento reforça seu compromisso com conteúdo estratégico, técnico e conectado às transformações que já impactam as fazendas e os negócios do agro.
Para mais informações sobre a programação e inscrições, visite o site oficial do Milk Pro Summit.