DDGS na nutrição animal: potencial e desafios
A expansão da produção de etanol de milho no Brasil trouxe consigo um coproduto de grande relevância para a nutrição animal: os grãos secos de destilaria com solúveis (DDGS – Distillers Dried Grains with Solubles). Além de contribuir para a sustentabilidade do processo industrial, o DDGS se consolidou como uma alternativa estratégica na formulação de dietas, especialmente como fonte de proteína e energia.
Apesar de seu uso crescente, ainda existem desafios técnicos relacionados à variabilidade da composição química, à digestibilidade da proteína e à disponibilidade de aminoácidos, fatores que impactam diretamente o desempenho animal. Entender esses aspectos é essencial para o uso eficiente desse ingrediente nas diferentes cadeias produtivas.
Teor de proteína e variabilidade do DDGS
De modo geral, o DDGS apresenta teores de proteína bruta entre 28 e 32%, podendo atingir valores superiores em coprodutos obtidos por tecnologias de fracionamento mais avançadas, como o High-Protein DDGS (Verbeek et al., 2024). No entanto, diversos estudos demonstram que a composição química do DDGS varia significativamente em função da matéria-prima, do processo fermentativo e, principalmente, das condições de secagem.
Avaliações realizadas com DDGS produzidos no Brasil mostram ampla variação nos teores de proteína, fibra e energia, o que reforça a necessidade de caracterização frequente do ingrediente antes de sua inclusão em dietas comerciais (Rodrigues et al., 2017). Na Quadro 1 estão resumidas as principais análises bromatológicas do DDGS de milho.
Quadro 1 – Principais análises bromatológicas do DDGS de milho. Fonte: Adaptado de Stein et al. (2006); Liu (2011); Belyea et al. (2010); NRC (2016); Almeida et al. (2021).
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Parâmetro bromatológico |
Unidade |
Faixa típica |
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Matéria seca (MS) |
% |
88 – 92 |
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Proteína bruta (PB) |
% MS |
26 – 32 |
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Proteína insolúvel em detergente neutro (PIDN) |
% PB |
20 – 35 |
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Proteína insolúvel em detergente ácido (PIDA) |
% PB |
5 – 12 |
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Extrato etéreo (EE) |
% MS |
8 – 12 |
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Fibra em detergente neutro (FDN) |
% MS |
30 – 45 |
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Fibra em detergente ácido (FDA) |
% MS |
12 – 20 |
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Lignina |
% MS |
5 – 9 |
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Cinzas |
% MS |
4 – 6 |
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Amido residual |
% MS |
3 – 10 |
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Energia metabolizável (EM – ruminantes) |
Mcal/kg MS |
2,8 – 3,3 |
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Lisina total |
% MS |
0,6 – 0,9 |
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Lisina digestível |
% MS |
0,4 – 0,6 |
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Fósforo total |
% MS |
0,7 – 1,0 |
Disponibilidade e digestibilidade da proteína
Embora o teor de proteína bruta seja elevado, a disponibilidade biológica da proteína do DDGS é o principal ponto de atenção. Estudos de digestibilidade indicam que parte dessa proteína apresenta menor aproveitamento, especialmente em dietas para monogástricos.
Ensaios com suínos demonstram que a digestibilidade ileal aparente e padronizada da proteína e dos aminoácidos do DDGS pode variar consideravelmente entre lotes, refletindo diferenças no processamento industrial (Rodrigues et al., 2017; Ribeiro et al., 2022). Em aves, resultados semelhantes foram observados, com impactos diretos sobre desempenho zootécnico quando o ingrediente não é corretamente ajustado na formulação (Oliveira et al., 2017).
Aminoácidos essenciais: foco na lisina
Entre os aminoácidos essenciais, a lisina é reconhecida como o mais sensível às condições de processamento do DDGS. Processos de secagem mais severos favorecem reações químicas que reduzem a disponibilidade desse aminoácido, mesmo quando os teores de proteína bruta permanecem elevados.
Análises recentes mostram que DDGS convencionais apresentam menor digestibilidade de lisina quando comparados a coprodutos de alta proteína, obtidos por tecnologias mais modernas (Verbeek et al., 2024). Essa diferença é particularmente relevante para dietas de aves e suínos, nas quais a lisina é frequentemente o primeiro aminoácido limitante.
Efeito do processamento industrial
O processamento térmico exerce papel central na qualidade nutricional do DDGS. A exposição excessiva ao calor durante a secagem pode comprometer a estrutura das proteínas, reduzindo a digestibilidade e o valor nutricional do ingrediente.
Estudos baseados no Cornell Net Carbohydrate and Protein System (CNCPS) demonstram que frações proteicas menos degradáveis aumentam conforme a severidade térmica do processo, impactando negativamente a disponibilidade de aminoácidos no trato digestivo (Giron et al., 2017). Esse efeito explica, em parte, a inconsistência observada no desempenho animal quando diferentes lotes de DDGS são utilizados sem ajustes na formulação.
Estratégias para melhorar o aproveitamento proteico
Para maximizar o uso da proteína do DDGS, algumas estratégias práticas são amplamente recomendadas:
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Avaliação nutricional frequente do ingrediente, com foco em proteína digestível e aminoácidos;
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Uso de enzimas exógenas, que podem melhorar a digestibilidade da proteína e do fósforo, especialmente em dietas para suínos (Ribeiro et al., 2022);
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Combinação com fontes proteicas complementares, visando equilibrar o perfil de aminoácidos essenciais;
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Preferência por DDGS de maior qualidade proteica, como coprodutos de alta proteína, quando disponíveis (Verbeek et al., 2024).
Essas estratégias reduzem a variabilidade nutricional e aumentam a previsibilidade dos resultados produtivos.
Considerações
O DDGS representa uma importante fonte de proteína na nutrição animal, com grande potencial econômico e ambiental. No entanto, sua eficiência depende menos do teor de proteína bruta e mais da qualidade, digestibilidade e disponibilidade dos aminoácidos, fortemente influenciadas pelo processamento industrial.
A adoção de critérios técnicos na seleção do ingrediente, aliada ao uso de ferramentas nutricionais adequadas, permite transformar o DDGS em um insumo confiável, competitivo e alinhado às demandas atuais de sustentabilidade e eficiência produtiva.
Fontes citadas:
GIRON, L. J. V. et al. In vitro digestibility and nutritional characterization of distillers dried grains with solubles according to the Cornell Net Carbohydrate and Protein System. Semina: Ciências Agrárias, v. 38, n. 4, p. 2029–2040, 2017.
OLIVEIRA, F. C. et al. Resíduo seco de destilaria com solúveis (DDGS) na alimentação de frangos de corte (22–42 dias). Revista Ciência Agronômica, v. 48, n. 3, 2017.
RIBEIRO, A. M. et al. Digestibility, performance and economic efficiency of diets containing phytase and distillers dried grains with solubles for growing pigs. Revista Brasileira de Saúde e Produção Animal, v. 23, 2022.
RODRIGUES, T. et al. Nutritional value of Brazilian distillers dried grains with solubles for pigs as determined by different methods. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 46, n. 9, 2017.
OLIVEIRA, F. C. et al. Resíduo seco de destilaria com solúveis (DDGS) na alimentação de frangos de corte (22–42 dias). Revista Ciência Agronômica, v. 48, n. 3, 2017.
VERBEEK, Z. K. et al. Amino acid and energy digestibility of conventional corn dried distillers grains with solubles (DDGS), high protein distillers dried grains (HP-DDG) and corn fermented protein (CFP). Poultry Science, v. 103, n. 10, 2024.