Sua relação com a pecuária leiteira começou ainda na universidade. Foi durante a graduação em medicina veterinária que o interesse pela área deixou de ser apenas acadêmico e se tornou um propósito profissional. Logo após se formar, porém, o cenário mundial mudou.
Em fevereiro de 2020, no momento em que iniciava sua carreira, a pandemia da COVID-19 trouxe incertezas para praticamente todos os setores — e para quem estava entrando no mercado de trabalho, o desafio parecia ainda maior. Foi nesse contexto que Maria começou a estruturar sua própria consultoria técnica.
Sem a rotina tradicional de campo nos primeiros meses, ela aproveitou o período para aprofundar estudos, revisar conceitos e fortalecer sua base técnica. Mas havia uma certeza: conhecimento precisava encontrar espaço na prática. A oportunidade surgiria justamente onde tudo começou.
O primeiro “banco de dados”
De volta à sua cidade natal, Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná, Maria começou a dar os primeiros passos como consultora. O início, como em grande parte das trajetórias no setor, exigiu persistência. Ser jovem, iniciar um trabalho independente e, ao mesmo tempo, conquistar confiança em um ambiente historicamente masculino exigia preparo, postura e consistência. Foi nesse momento que surgiu um apoio inesperado — e fundamental.
O avô de Maria, já falecido, trabalhava em um posto de combustível da família em uma pequena cidade da região. Ali passavam diariamente produtores de leite, caminhoneiros e técnicos ligados ao setor. Com curiosidade genuína, ele começou a perguntar aos produtores sobre suas propriedades.
Anotava tudo em um pedaço de papel: nome do produtor, comunidade, número de vacas e volume de produção. Aquele papel simples, guardado até hoje por Maria, se transformou no primeiro “banco de dados” da sua carreira.
Foi a partir dessas anotações que ela começou a entrar em contato com produtores da região e apresentar seu trabalho. Aos poucos, surgiram as primeiras visitas, os primeiros diagnósticos e os primeiros projetos dentro das propriedades. “Cada conversa abriu uma porta. Cada desafio foi construindo uma base”, relembra.
Quando o campo muda a forma de enxergar os indicadores
Nos primeiros anos de atuação, o foco técnico estava muito concentrado na execução de protocolos clássicos da qualidade do leite: rotina de ordenha, controle de mastite, análise de CCS (Contagem de Células Somáticas) e CPP (Controle Padrão em Placas) e orientações de manejo. Com o tempo — e principalmente com a convivência diária dentro das propriedades — a visão começou a se ampliar.
Maria percebeu que qualidade do leite não é apenas um conjunto de procedimentos técnicos. É um reflexo direto das decisões tomadas dentro da fazenda. Indicadores que antes apareciam apenas em planilhas passaram a revelar algo maior: cultura de manejo, organização da equipe, nível de capacitação dos colaboradores, estrutura de conforto animal e até mesmo o modelo de gestão adotado pelo produtor. “Os números contam uma história. CCS, mastite ou contagem bacteriana não surgem do nada. Eles são consequência de uma série de decisões que acontecem dentro da propriedade.”
Foi nesse momento que o conhecimento técnico deixou de ser apenas ferramenta de execução e passou a orientar decisões estratégicas dentro das fazendas.
Qualidade do leite como ferramenta de gestão
Hoje, a atuação de Maria está cada vez mais voltada a conectar indicadores de qualidade com gestão e rentabilidade. Na prática, isso significa olhar para a sanidade do rebanho de forma integrada com outros fatores do sistema produtivo.
Na área de sanidade, por exemplo, ela observa uma evolução importante na forma como os tratamentos são conduzidos. O uso de dados e a adoção de protocolos mais criteriosos vêm ganhando espaço, especialmente no contexto de uso responsável de antimicrobianos.
No bem-estar animal, fatores como conforto, ambiência e manejo passaram a ser entendidos como elementos centrais para a imunidade e a produtividade dos animais. Já na gestão de pessoas, a comunicação dentro das propriedades também assume papel estratégico. “Protocolo que não é compreendido não é executado. E protocolo mal executado compromete qualquer indicador.”
Nesse sentido, uma parte importante do trabalho de consultoria envolve justamente a mediação entre proprietário e equipe de ordenha, garantindo que as orientações técnicas sejam compreendidas e aplicadas no dia a dia.
A presença feminina no campo
Ao longo dos últimos anos, Maria também acompanhou uma transformação importante dentro da pecuária leiteira brasileira: o crescimento da presença feminina em diferentes áreas do setor. Mais do que ocupar espaço, ela observa que essa presença tem contribuído para mudanças consistentes dentro das propriedades.
Na sanidade, há uma tendência maior ao uso criterioso de dados e decisões terapêuticas baseadas em evidências. No manejo, o olhar para o bem-estar animal tem ganhado mais protagonismo. E na gestão, habilidades como escuta ativa, organização e mediação de equipes vêm se mostrando cada vez mais valiosas. Para Maria, essa combinação fortalece a evolução técnica e gerencial da atividade.
O leite como sistema de decisões
Se no início da carreira o objetivo era aplicar protocolos e melhorar indicadores sanitários, hoje a visão é mais ampla. Para Maria Zangrande, qualidade do leite precisa ser tratada como estratégia de negócio.
Produzir leite com qualidade não significa apenas atender padrões da indústria — significa construir sistemas produtivos mais eficientes, sustentáveis e rentáveis. “Qualidade do leite não é um detalhe técnico. É uma consequência direta de gestão, bem-estar animal e tomada de decisão.”
Seis anos depois de iniciar sua trajetória, Maria segue atuando diretamente no campo, acompanhando propriedades e orientando produtores na construção de sistemas mais organizados e produtivos. Parte desse trabalho também é compartilhado em seu projeto de comunicação digital, o Universo Leiteiro, onde divide conhecimento técnico e experiências do dia a dia no campo.
Olhando para trás, a jovem consultora reconhece que cada etapa — das primeiras anotações feitas pelo avô até as decisões estratégicas nas propriedades — ajudou a construir o caminho que trilha hoje.
Um caminho que reforça uma convicção clara: o futuro da pecuária leiteira passa por dados, gestão profissional e bem-estar animal. E a diversidade de profissionais no setor é parte fundamental dessa evolução.
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