Agora, em 2025, o “tropeiro digital” decidiu atravessar uma nova fronteira: deixou de ser apenas curador, maturador e vendedor para se tornar também produtor rural, assumindo a fabricação do próprio queijo. O movimento amplia sua responsabilidade dentro da cadeia e traz uma nova perspectiva sobre os desafios do campo.
Internet como estratégia, não como vitrine
Quando a Queijo D’Alagoa-MG começou a vender online, a internet ainda era discada. O agro praticamente não ocupava esse espaço.
O principal aprendizado, segundo Osvaldinho, foi entender que a tecnologia derruba fronteiras. “Do Oiapoque ao Chuí é possível o cliente receber o queijo na casa dele.”
A venda direta ao consumidor não apenas melhora margens mas também constrói narrativa e permite contar a história da origem, apresentar o produtor, explicar o modo de fazer.
“A internet me permite fazer a venda direta ao consumidor e também estabelecer parcerias com o queijista, que é um profissional especialista em queijo, que valoriza toda a cadeia produtiva, conhece a história do produtor, a origem do produto e assegura a procedência ao consumidor final”, afirma Osvaldo.
Mesmo em 2026, ele acredita que muitos produtores ainda subestimam o potencial da venda direta e da construção de marca própria. Não se trata apenas de vender um produto, mas de capturar valor dentro da cadeia.
Da vitrine à produção: quando o risco muda de lado
Recentemente, depois de mais de uma década promovendo produtores parceiros e defendendo o queijo artesanal nos debates regulatórios, Osvaldinho passou a sentir na pele o peso de ser produtor.
“O peso da responsabilidade aumentou. Minha expertise sempre foi maturar e vender queijo. Produzir é um desafio enorme”, afirma.
Com a entrada definitiva na produção, também vieram os investimentos estruturais, adequações na queijaria para obtenção do Selo de Inspeção Municipal e novas adaptações visando o Selo Arte. Agora, as decisões regulatórias e sanitárias não são apenas tema de palestra, elas impactam diretamente o caixa e a operação.
A nova rotina, segundo ele, desmonta qualquer romantização do campo. Trata-se de uma atividade de domingo a domingo. Ao mesmo tempo, ele reconhece que essa vivência o aproxima ainda mais da realidade dos produtores que sempre apoiou.
Com isso, surge uma pergunta inevitável: o digital enxerga o campo da mesma forma que o campo enxerga o digital? Para ele, a resposta passa pela vivência prática. A internet aproxima mercados e a produção expõe vulnerabilidades. São linguagens diferentes que precisam conversar.
Terruá: diferencial que carrega identidade
Localizada na Serra da Mantiqueira, Alagoa carrega identidade própria. Mas identidade, por si só, não cobre os custos de produção. É preciso transformá-la em valor percebido.
“Eu não canso de explicar que nosso queijo não é parmesão. É queijo artesanal Alagoa. O diferencial é o terruá.”
Esse conceito, que inclui fatores ambientais, de altitude, pastagens naturais, cultura local e “saber fazer”, começa a ser mais compreendido pelo consumidor urbano. Ainda assim, exige tradução constante. O mercado brasileiro está em processo de educação sensorial.
Ao longo dos anos, os queijos da empresa e de seus parceiros acumularam mais de 80 prêmios nacionais e internacionais, com reconhecimentos no Brasil e na França, incluindo medalhas no Mondial du Fromage e no Prêmio Queijo Brasil. Para Osvaldinho, premiações ajudam, mas não substituem a consistência.
Escala e autenticidade: até onde é possível ir?
O debate sobre a escala é sensível dentro do movimento artesanal. Para Osvaldinho, existe uma linha clara: se escalar significa industrializar a ponto de descaracterizar o processo, deixa de ser artesanal.
Ele critica o movimento de indústrias que buscam parecer artesanais, adotando nomes que remetem a montanhas e serras enquanto produzem em larga escala, com processos automatizados. Para ele, isso pode gerar frustração quando o consumidor percebe que se trata apenas de “sabor artesanal”.
A indústria tem seu espaço. O problema, na sua visão, é a baixa comunicação para estimular o consumo de queijo no Brasil. O brasileiro ainda consome poucas gramas por dia, portanto, ainda há espaço para crescimento tanto no industrial quanto no artesanal.
Como membro da comissão de queijo artesanal da ABRAQUEIJO e integrante da Guilde Internationale des Fromagers, Osvaldinho defende que o fortalecimento do segmento passa por duas frentes: valorização do produtor e educação do consumidor.
Marca própria e parceria: competição ou fortalecimento?
O lançamento do Queijo do Osvaldinho, já premiado em concursos recentes, poderia gerar desconforto entre os produtores parceiros que cresceram junto com a marca. Ele rejeita essa leitura: “Tem espaço pra todo mundo.”
Segundo ele, a decisão de produzir também foi motivada por um incômodo recorrente: depois de anos promovendo Alagoa nacional e internacionalmente, ainda ouvia que não era produtor. Quando surgiu a oportunidade, aceitou o desafio.
“Mantenho a parceria de longa data com todos os produtores parceiros da Queijo D'Alagoa-MG e agora estou trabalhando dobrado para vender os meus queijos e dos meus parceiros!”, afirma.
Mais que queijo: desenvolvimento local
O impacto da Queijo D’Alagoa-MG vai além da comercialização. A empresa ajudou a manter a agência dos Correios da cidade ativa com o volume de postagens, fomentou o turismo e projetou Alagoa no cenário gastronômico nacional.
O que começou como tentativa de ajudar um produtor com dificuldade de escoamento transformou-se em movimento econômico e cultural.
Ao assumir a produção, Osvaldinho fecha um ciclo: deixa de ser apenas o elo entre campo e consumidor e passa a sentir, diariamente, as variáveis que moldam a produção leiteira artesanal.
No fim, sua trajetória reforça um ponto central para a cadeia do leite: agregar valor exige identidade, estratégia e disposição para assumir riscos. A tradição abre portas, a gestão mantém elas abertas.
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