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Fontes alternativas de energia para bovinos leiteiros - Parte 4

POR JUNIO CESAR MARTINEZ

PRODUÇÃO

EM 17/01/2008

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Devido à sua capacidade de digestão de fibra, o ruminante é capaz de aproveitar alimentos impróprios para o consumo humano, prestando um grande serviço à humanidade, uma vez que elimina resíduos muitas vezes indesejáveis do ponto de vista ambiental, ao mesmo tempo em que gera produtos de alta qualidade (carne, leite, lã etc.). Mesmo assim, a incorporação de subprodutos nas rações de ruminantes requer um planejamento cuidadoso. Rações baseadas na utilização de subprodutos devem ser eficientes, econômicas e devem permitir desempenhos semelhantes aos proporcionados pelos demais alimentos que venham a substituir.

Neste texto, serão apresentadas as fontes alternativas de energia a partir de casca de soja e farelo de amendoim.

Casca de soja

Características do produto

A produção nacional de soja vem crescendo de forma expressiva nos últimos anos. As expectativas são que o país se torne em breve o maior produtor mundial de soja.

Do processamento da soja para extração do óleo, gera-se dois subprodutos de grande importância na alimentação de bovinos, o farelo de soja e a casca de soja. A casca passa por um processo de tostagem para inativar a enzima urease e posterior moagem para aumentar a densidade do material. Cada tonelada e soja moída para a extração do óleo gera em média 183 kg de óleo, 733 kg de farelo 48% e 50 kg de casca (5%).

No Brasil, se produz principalmente o farelo de soja 46 e não o 48%. Isto resulta em maior adição de casca ao farelo e menor disponibilidade de casca no mercado. Mesmo assim, a estimativa atual é que a disponibilidade de casca no mercado gire em torno de 1,6 milhões de toneladas, o que coloca este subproduto como uma importante opção aos produtores de leite.

A casca de soja é composta principalmente de fibra, que tem pouco valor na alimentação humana e no uso industrial. No entanto, suas características físico-químicas, a facilidade de aquisição em algumas regiões e seu preço competitivo, fazem da casca de soja um alimento interessante para o gado leiteiro. Além do que, pode contribuir para um ambiente ruminal mais favorável para a digestão de fibra e menor risco de acidose. Alternativamente, a casca de soja pode ser usada como uma fonte de fibra em substituição parcial ao volumoso.

Em parte, o valor nutricional da casca de soja para ruminantes é determinado pela natureza química da casca. Como para muitos outros subprodutos, a composição química da casca de soja varia muito entre as industrias processadoras.

A fração fibrosa da casca de soja, que contém relativamente grande quantidade de celulose (aproximadamente 43% da MS) e hemicelulose (aproximadamente 18% da MS), é muito pouco lignificada (1,4 a 4,3%). O teor de amido tem variado de 0 a 9,4% com valores médios de 3,6% e os teores médios de pectina têm se situado em torno de 12,8% da MS. Outras características podem ser observadas na Tabela 1.

Tabela 1. Composição bromatológica da casca de soja segundo várias fontes.


1 - NRC (2001); 2 - Hinders (2000);

O valor nutricional da casca de soja é afetado pela taxa com que é digerida no rúmen e pela taxa com que ela passa pelo rúmen para os outros compartimentos do trato gastrintestinal. Dados de experimentos in situ e in vitro mostram que os microrganismos ruminais são capazes de fermentar extensivamente a casca de soja. Em sete de cinco estudos a fração fibra em detergente neutro (FDN) da casca de soja foi fermentada com uma taxa média de 5,6%/h e, em quatro estudos, o desaparecimento de FDN foi em torno de 90% após 96 horas de incubação.

Desempenho de vacas leiteiras alimentadas com casca de soja

Avaliando-se o desempenho de vacas leiteiras e a substituição do milho pela casca de soja, em 13 de 15 estudos não houve diferença no consumo de animais alimentados com dietas controle, comparados àqueles que receberam casca de soja. A correlação entre produção de leite e a porcentagem de casca de soja na dieta em 10 estudos foi baixa e não significativa. O teor de gordura do leite não se correlacionou com a concentração de casca de soja na dieta, ou com o teor de FDN provindo da casca de soja, em 10 dos estudos revisados.

A substituição de grão de cereais por casca de soja diminuiu o teor de proteína do leite. Esta resposta pode parcialmente ser explicada pelo baixo teor de carboidratos não estruturais em dietas que contém altos níveis de casca de soja, podendo limitar a síntese de proteína microbiana no rúmen.

Embora a substituição parcial ou total do milho moído fino por casca de soja possa não afetar o consumo e a produção de leite, estudos tem demonstrado que a eficiência alimentar (LCG 3,5%/CMS) foi maior nas dietas contendo casca de soja, conforme apresentado na Tabela 2. Esses dados mostram a possibilidade de redução nos custos de alimentação de vacas de bom potencial de produção, com a substituição parcial ou total do milho por casca de soja em dietas contendo silagem de milho como volumoso e polpa cítrica como concentrado energético.

Tabela 2. Substituição de milho moído fino por casca de soja.


CS 0= 20% milho moído fino; CS 10= 10% milho moído fino + 10% casca de soja; CS 20 = 20% casca de soja; Pr>F= probabilidade de haver efeito significativo entre os tratamentos (análise de contrastes); EPM= erro padrão da média; LCG 3,5= leite corrigido para teor de gordura igual a 3,5%; IMS= ingestão de matéria seca; NUL= nitrogênio uréico no leite. Fonte: Pedroso et al. (2004)

A casca de soja, quando incluída em dietas contendo silagem de milho como volumoso, em substituição a polpa cítrica peletizada, apresentou valor nutricional similar ao da polpa cítrica, conforme pode ser observado na Tabela 3.

Tabela 3. Graus de moagem do milho e fonte de subproduto para vacas leiteiras.


MFPC= milho moído fino + polpa cítrica; MGPC= milho moído grosso + polpa cítrica; MFCS= milho moído fino + casca de soja; MGCS= milho moído grosso + casca de soja; P=F= probabilidade de haver efeito significativo entre os tratamentos; EPM= erro padrão da média; GR= efeito de granulometria (milho moído fino vs. moído grosso); FN= efeito de fonte (polpa cítrica vs. casca de soja); GRxFN= efeito da interação granulometria x fonte; LCG 3,5= leite corrigido para teor de gordura igual a 3,5%; IMS= ingestão de matéria seca; NUL= nitrogênio uréico no leite; NUP= nitrogênio uréico no plasma. Fonte: Carmo et al., 2004.

Em estudo realizado com vacas a pasto (Tabela 4), a produção de leite não foi afetada.

Tabela 4. Produção e composição do leite de vacas alimentadas com casca de soja.


Médias seguidas de mesma letra na linha não diferem entre si pelo teste de Tukey a 0,05.
1Produção de leite (3,5% de gordura) = 0,4324*PL(kg)+16,216*gord(kg) (Tyrrel & Reid, 1965);
2Erro padrão da média;
3Probabilidade

Fonte: Martinez et al, dados não publicados.

Farelo de Amendoim

Já há algum tempo existe algum interesse sobre a utilização do farelo de amendoim na alimentação de bovinos. Entretanto, os trabalhos sobre utilização desse subproduto em rações de bovinos leiteiros são praticamente inexistentes.

O farelo de amendoim tem valor nutricional superior ao do farelo de algodão e características bastante semelhantes às do farelo de soja (Tabela 5), mas sua fração protéica possui degradabilidade ruminal bem mais elevada que a do farelo de soja.

Tabela 5. Avaliação bromatológica do farelo de amendoim.


1Laboratório de Bromatologia - ESALQ/USP (média de 3 análises)
2Goes et al. (2004);
3Valores da tabela do NRC(2001)

Essa maior degradabilidade ruminal do farelo de amendoim impõe aos nutricionistas duas dificuldades. Em primeiro lugar, limita a utilização de uréia em rações com esse subproduto, já que boa parte da PDR (proteína degradável no rúmen) do farelo de amendoim é composta por NNP (nitrogênio não protéico). Fazendo uma simulação no NRC (2001), ao formular uma ração para uma vaca produzindo 20 kg leite/dia, consumindo 9 kg MS de cana, 1,4 kg MS de farelo de algodão, 2 kg MS de farelo de soja, 1,8 kg MS milho, 1,5 kg MS polpa cítrica, 100g de uréia e 340 g de minerais, conseguimos atender corretamente a suas necessidades de PDR (sobra de 24 g/d). No entanto, se tentarmos substituir o farelo de soja pelo farelo de amendoim, haverá sobra de 240g PDR/dia (10 vezes mais), o que só conseguimos acertar reduzindo a uréia para 20 g/dia.

A outra dificuldade se refere ao balanceamento de PM (proteína metabolizável). Na mesma simulação, com a dieta com farelo de soja, conseguimos fechar o balanço de PM em 30 g/dia, mas ao fazer a substituição pelo farelo de amendoim, haverá déficit de 245 g PM/dia, e isso é bem mais complicado de acertar. Para manter os 2 kg MS de farelo de amendoim, é preciso retirar toda a uréia, reduzir o milho e aumentar o farelo de algodão, e ainda assim haverá sobra de PDR (167 g/dia), que não é muito, mas pode ser suficiente para elevar os níveis de uréia no leite acima do desejado.

Dessa forma, a utilização desse subproduto pode ser interessante para vacas com produção de até 20 kg leite/dia, onde o nível de inclusão não será muito alto.

Atenção especial deve ser dada a questão da contaminação do farelo de amendoim com micotoxinas, especialmente as aflatoxinas. A ingestão de aflatoxinas pode até levar o animal à morte, e no mínimo causa redução de consumo e desempenho, dependendo da dose e da freqüência de ingestão, além da idade, peso vivo, sexo e estado nutricional do animal. Sabe-se, também, que ela pode provocar cirrose, necrose do fígado, proliferação dos canais biliares, síndrome de Reye (encefalopatia com degeneração gordurosa do cérebro), hemorragias nos rins e lesões sérias na pele, pelo contato direto. Além disso, os produtos do seu metabolismo no organismo (principalmente o 2,3 epóxi-aflatoxina), reagem com DNA e RNA a nível celular, interferindo com o sistema imunológico do animal. Isto faz com que a resistência a doenças diminua.

O Ministério da Agricultura estabelece que o teor máximo de aflatoxinas em matérias primas destinadas à fabricação de rações para animais é de 50 ppb (partes por bilhão, ou mg/1000 kg). De qualquer forma a tolerância máxima para presença de aflatoxinas em rações para diferentes categorias animais é:

• Vacas em lactação: < 20 ppb;
• Vacas secas: < 30 ppb;
• Animais jovens e/ou sob stress: < 20 ppb.

No caso de bovinos, a dose letal (DL 50) é de 10 ppm (partes por milhão, ou mg/kg).

Ao adquirir uma partida de farelo de amendoim, esta deverá ser analisada antes da utilização, em laboratório especializado em análise de micotoxinas. Dessa forma percebe-se que a utilização desse subproduto deve ser cuidadosa e criteriosa. Quando seu preço for competitivo, pode ser uma alternativa interessante para compor rações de vacas leiteiras, desde que sejam respeitadas as restrições nutricionais e sanitárias.

Considerações finais

A casca de soja pode ser utilizada em substituição ao milho, sem causar grandes modificações na produção e composição do leite.

O farelo de amendoim precisa ser melhor estudado a fim de se obter uma recomendação mais segura sobre o seu fornecimento aos animais.

JUNIO CESAR MARTINEZ

Doutor em Ciência Animal e Pastagens (ESALQ), Pós-Doutor pela UNESP e Universidade da California-EUA. Professor da UNEMAT.

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JOÃO LEONARDO PIRES CARVALHO FARIA

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 25/10/2018

Excelente pergunta!
Também gostaria deste esclarecimento!
JOAO LUIZ CARVALHO JULIANO

RIO GRANDE - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/01/2017

gostaria de saber a composiçao bromatologica da casca da aveia

pois aqui no rio grande se usa para gado de leite e de corte, o preço muito em conta

att
MARIO WILSON

CONTAGEM - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/08/2015

Olá Junior.

Sou produtor de leite, trabalhando no momento com 50 vacas girolando e média de 12,5 litros dia, 02 ordendas. No momento estou seguindo o seguinte manejo alimentar: A noite ficam agrupadas comendo Cana corrigida 1% ureia e s.Amônia no cocho.

Após a ordenha da manhã, ficar em piquetes (irrigado) Aveia/Azeven. Durante as ordenhas, é fornecido 01 kG concentrado por cada 03 litros de leite.

O concentrado é formulado da seguinte forma:

48% Fubá.

18% F. Soja.

14% Caroço algodão.

2% N. Mineral.

1% Ureia.

Percebo que os animais tem potencial genético para produzir muito mais.

Vendi algumas novilha com 90 dias de paridas, e no manejo do comprador elas aumentaram 40% a produção de leite.

Vejo que o manejo precisa ser melhor ajustado.

Será que está faltando fibra? está com excesso de proteínas?

Poderia me informar o nível de proteína desate concentrado informado?

O que me sugere? Como posso contactar um zootecnista? para me ajudar?



Ficarei imensamente agradecido pelas informações e ajuda.



At. Mário.
BALDUINO LUIS THOMAZI JÚNIOR

CAXIAS DO SUL - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE

EM 07/04/2015

Qual a quantidade em kg de casca de soja para acrescentar na silagem de milho de boa qualidade para cada vac?. Sem o uso de concentrado.
JUNIO CESAR MARTINEZ

TANGARÁ DA SERRA - MATO GROSSO - TÉCNICO

EM 11/04/2012

Prezado Carlos,

Todos os alimentos citados são fontes de energia. Não tem como balancear uma dieta somente com eles. O Sr. vai precisar de uma ou mais fontes de proteína. Obviamente que a demanda por proteína e energia é em função da produção de leite das vacas, informação essa que o Sr. não relatou.
CARLOS AUGUSTO FARIAS BESSA

MANAUS - AMAZONAS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/04/2012

Sou produtor de leite aqui no Amazonas, mais precisamente no Municipio de Manacapuru, Estrada Mnuel Urbano, Km 72. Aqui no Amazonas so dispomos dos seguintes produtos para produzimos uma racao . CEVADA, CASQUINHA DE SOJA e CAPIM DE CORTE CAMERON OU NAPIER COMO E CHAMADO. Outro dado importante para o seu conhecimento e que o meu planteu e formado por vacas GIROLANDO 1/2 SANGUE. GOSTARIA DE SABER QUAL A PROPORCAO DOS PRODUTOS AQUI ALENCADOS PARA QUE EU POSSA PRODUZIR UMA RACAO COM UM CUSTO SAUDAVEL.
L.T.S. PRADO

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 04/04/2008

Prezado Senhor

Qual a possibilidade de se usar grãos de "amendoim japones" (rejeitos da fabricação) na alimentação de animais adultos?

Obridado!

Luiz Prado

<b>Resposta do autor</b>

Desconheço dados científicos quanto a utilização deste tipo de produto na alimentação de vacas leiteiras.
RONEI JOSE LOUZA MENDES

ANÁPOLIS - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 13/02/2008

Realmente todos nós, produtores, temos que ficar atentos em como diminuir gastos que somam em muito no custo para se produzir cada litro de Leite, em meio a crises que não sabemos aonde vai parar. Cada produtor vive uma realidade diferente de outro, quando sabemos em que realidade vivemos, iremos aproveitá-la de maneira a ter lucro e crescer.
ALFREDO FERRARI SOUZA

OURINHOS - SÃO PAULO - EMPRESÁRIO

EM 31/01/2008

Muito bom o artigo. O que o senhor acha de uma ração composta por:
60% polpa citrica
30% farelo algodão
10% farelo de soja
19,5%PB e 77,8%NDT
Custo/Kg: R$ 0,53

Obrigado pela atenção

Abraços
JUNIO CESAR MARTINEZ

TANGARÁ DA SERRA - MATO GROSSO - TÉCNICO

EM 29/01/2008

Prezado Antônio Carlos,

O percentual de carboidratos não fibrosos que deve conter uma dieta para vacas em lactação varia consideravelmente, em função principalmente do nível de produção e tipo de alimento utilizado, dentre outros fatores.

Normalmente, vacas confinadas de alto mérito genético, com produções elevadas, recebem dietas com aproximadamente 40 a 44% de CNF. Por outro lado, vacas a pasto, com produções mais baixas e consumindo dietas mais ricas em FDN, normalmente consomem dietas com 30 a 35% de CNF.
ANTONIO CARLOS FERREIRA

NOVO HORIZONTE - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/01/2008

Gostaria de saber qual a porcentagem que uma vaca de leite pode consumir de açúcar e quanto de energia.

Desde já agradeço a atenção.

Obrigado.