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Fontes alternativas de energia para bovinos leiteiros - parte 2

POR JUNIO CESAR MARTINEZ

PRODUÇÃO

EM 13/11/2007

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O termo subproduto foi originado para representar materiais resultantes de um processamento industrial, onde o principal produto final era outro. O termo traz alguma conotação negativa aos alimentos, que, quando analisados sob o prisma da nutrição de ruminantes, muitas vezes se traduzem em alimentos com qualidades excepcionais, muitas das vezes até melhor que muitos alimentos tradicionalmente utilizados na alimentação animal.

Neste capítulo apresentaremos as fontes alternativas de energia a partir do sorgo, milheto e Resíduo úmido de Cervejaria.

Sorgo

Características do produto

Embora a safra nacional de sorgo seja menos do que 4% da safra nacional de milho, algo em torno de 1,6 milhões de toneladas, a oferta de sorgo vem crescendo ultimamente. Um dos seus grandes atrativos é seu preço, girando em torno de 70 a 80% do preço do milho. Assim como o milho o sorgo é um cereal rico em amido (65 a 72% da MS), com teor de PB (11,6%) e de fibra (10,9%) pouco superiores ao do milho. Entretanto, o NDT do sorgo é geralmente inferior ao do milho, geralmente em torno 90% do valor do milho.

O menor valor energético do sorgo em relação ao milho se deve à menor digestibilidade do amido deste cereal. Em comparação ao milho, cevada, trigo e aveia, o sorgo é o cereal que apresenta o amido menos digestível. Isto se deve a uma maior presença de matrizes e corpos protéicos revestindo os grânulos de amido do sorgo em comparação aos demais cereais. Devido a esta peculiaridade, o sorgo é o que mais se beneficia de processamentos mais intensos como a floculação. No Brasil, a principal forma de processamento é a moagem. Neste caso, a moagem fina é indicada em relação a moagem mais grosseira.

Desempenho de vacas leiteiras alimentadas com sorgo

Os estudos indicam que o sorgo processado na forma seca (moagem ou laminação) é realmente inferior ao milho, quando fornecidos para vacas leiteiras e para bovinos de corte. A produção de leite é inferior para o sorgo moído ou laminado quando o consumo da dieta não é alterado por este cereal em comparação ao milho, processado da mesma forma. Produções similares têm sido relatadas, porém neste caso o consumo das dietas com sorgo tem sido superior as dietas com milho, resultando em pior eficiência alimentar.

Quando processado de forma mais intensa, no caso através da floculação, o sorgo tem se mostrado superior ao milho moído ou laminado para vacas leiteiras é igual ao milho floculado. A ensilagem de grãos úmidos é vantajosa em relação ao processamento seco como a moagem ou laminação, resultando em maior digestibilidade do amido e maior NDT do cereal.

Milheto

Características do produto

A safra nacional de milheto ainda é pequena e localizada, uma fez que é basicamente cultivado no Brasil Central na safrinha. Entretanto, o milheto tem sido cultivado em muitas regiões semi-áridas, onde outras culturas não se desenvolveriam bem, devido às condições desfavoráveis de solo e clima.

A proporção do gérmen do grão de milheto é duas vezes maior que do sorgo, um fator que contribui para seu alto valor nutritivo. Possui quantidades de extrato etéreo e proteína maiores que do milho e sorgo, com melhor perfil de aminoácidos (maiores concentrações de lisina, metionina e triptofano). Entretanto, este teor mais elevado de lipídeos pode afetar sua qualidade, quando armazenado após a moagem. O teor de proteína do grão de milheto varia de 8,8 a 20,9% de proteína bruta (média de 16%), de acordo com os híbridos e manejo da cultura.

Outro ponto a ser considerado é o teor de ácido fítico de grãos de milheto não processados, sendo um fator antinutricional com importante influência no valor nutritivo do grão, por ser prejudicial na atividade de enzimas proteolíticas.

Desempenho de vacas leiteiras alimentadas com milheto

Trabalhos comparando o milheto a outros cereais para vacas leiteiras são raros na literatura internacional e nacional. Muito embora, o que se observa é uma manutenção da produção de leite, teor e produção de gordura do leite e produção de proteína do leite a medida que se inclui milheto na dieta, como se observa na Tabela 1.

Tabela 1. Efeito da inclusão de milheto sobre a produção e composição do leite.


1% de inclusão do amido do milheto em relação ao amido do milho. Fonte: Ribeiro, 1999.

Resíduo úmido de Cervejaria

Características do produto

O resíduo úmido de cervejaria (RUC) é o subproduto gerado pela indústria após o amido dos grãos de cereais ser removido para a produção de álcool. Na fabricação de cerveja, os grãos de cevada sofrem germinação para converter amido em dextrina e açúcar, processo este que é interrompido, através de aquecimento, no ponto máximo de conversão, resultando no produto denominado "malte de cevada". O malte de cevada é moído e pode ser misturado com milho, arroz, ou outros cereais, processo após o qual é feito o cozimento e separação das frações sólidas e líquidas. A fração líquida é fermentada para produzir cerveja, enquanto que a parte sólida é o resíduo de cervejaria.

Antes da comercialização, o RUC pode ser prensado para remover parte da água, resultando num produto que contém de 25 a 30% de matéria seca, ou pode ser secado até 8 a 12% de umidade, resultando então no resíduo seco de cervejaria (RSC). Os teores de proteína e de nutrientes (excluindo o amido) são concentrados no resíduo, em comparação com o cereal do qual se originou.

O RUC é um subproduto disponível em grandes quantidades nas indústrias cervejeiras no mundo todo. Existem estimativas de que para cada 1000 litros de cerveja são produzidos 350 kg de RUC (13% MS). Considerando no Brasil a produção de 90 milhões de hectolitros de cerveja anualmente (dados de 2004), e utilizando a estimativa anterior, calcula-se uma disponibilidade em torno de 3 milhões de toneladas/ano, destacando o grande potencial de utilização do produto na alimentação animal. A utilização normalmente é limitada às proximidades das fábricas, em função do custo do frete.

A proporção de malte de cevada, utilizada com arroz ou milho, varia entre as indústrias, e a proporção exata faz parte do segredo industrial. Esta variação na proporção de grãos resulta nas diferentes composições nutricionais observadas neste subproduto. A composição bromatológica da matéria-prima e de diversos resíduos úmidos de cervejaria pode ser observada na Tabela 2.

Tabela 2. Composição do Resíduo Úmido de Cervejaria.


1Adaptado de LIMA, 1993.
2Valores do NRC (2001)
3Adaptado de Chandler, 1987.
Valores expressos em % matéria seca.

Desempenho de vacas leiteiras alimentadas com resíduo de cervejaria

A compilação de sete estudos comparando o RUC com a combinação de milho e farelo de soja apontou que o consumo não foi afetado pelo fornecimento de RUC. A produção de leite e o teor de proteína não foram alterados em seis, sendo que em um a produção de leite foi aumentada e o teor de proteína reduzido.

A Tabela 3 apresenta um estudo conduzido no Departamento de Zootecnia da ESALQ\USP onde avaliou a inclusão de 10% de RUC na MS da dieta, em substituição na mesma proporção a mistura de milho, polpa cítrica e farelo de soja e também a inclusão de 20% de RUC em substituição à silagem de milho (10% da MS da dieta) e a mistura de concentrado (10% da MS da dieta).

Tabela 3. Teores de RUC na dieta de vacas leiteiras confinadas.


Probabilidade de haver (1) efeito linear entre os tratamentos 0, 10 e 20; (2) efeito de desvio da linearidade entre os tratamentos 0, 10 e 20; (3) efeito do contraste entre as médias dos tratamentos 0 e U. NS = não significativo (P>0,15).
Fonte: Imaizumi et al., 2002.

Assim, mantendo as dietas com mesmo teor de volumoso e de proteína bruta, a produção e composição do leite não são afetadas pela inclusão de RUC. Entretanto, quando parte do volumoso é substituído, a produção de leite e o teor de proteína são aumentados, enquanto o teor de gordura é reduzido.

Considerações finais

A utilização de subprodutos agroindustriais vem ao encontro dos anseios das atuais políticas ambientais que, de forma crescente, e com tendência a se fortalecer cada vez mais, vêm acompanhando de perto a eliminação de produtos potencialmente poluentes pelas indústrias. O crescimento demográfico, aliado às crises de abastecimento, principalmente nos países em desenvolvimento, aumenta a discussão sobre a competição entre humanos e animais domésticos por alimentos nobres. Neste sentido, o estudo e utilização de fontes alternativas de alimentos são de fundamental importância.

O sorgo, o milheto e o resíduo úmido de cervejaria podem ser utilizados em substituição ao milho, sempre que o preço for compensador.

JUNIO CESAR MARTINEZ

Doutor em Ciência Animal e Pastagens (ESALQ), Pós-Doutor pela UNESP e Universidade da California-EUA. Professor da UNEMAT.

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CÁSSIA LÚCIA CAIXETA

COROMANDEL - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/03/2019

Oi tudo bem estou tratando das minhas vacas com promil casquinha de soja e uma ração 24%e as vacas estão a pasto branquiarao queria saber se posso substituir a ração por sorgo triturado? minhas vacas são girolandas e estão dando média de 18kgde leite dia.as porções individuais são 3kg de casquinha 3de promil e 1.600kg de ração dia estou fazendo sopão
AMANDA

MATEUS LEME - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 23/05/2016

Quais podem ser as limitações do uso do sorgo em substituição ao milho ?
FABIO TAVEIRA SANDIM

CAMPO GRANDE - MATO GROSSO DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 13/12/2011

Caro Junior.
Parabéns pelas informações.
Minha pergunta seria quanto a utilização do milheto como silagem ao contrario do artigo, fomenta adição em  concentrados. Quais as limitações e as vantagens em sua utilização em relação ao sorgo e milho em solos de baixa fertilidade na utilizaçõ de silagem para produção de leite?
  Agradeço Desde já.
JUNIO CESAR MARTINEZ

TANGARÁ DA SERRA - MATO GROSSO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/09/2008

Prezado Rodrigo.

Não tenho conhecimento deste tipo de pesquisa com os ingredientes de seu interesse. Talvez uma procura mais minuciosa no site da RBZ - Revista Brasileira de Zootecnia ou na PAB - Pesquisa Agropecuária Brasileira encontre alguma coisa. Quanto ao parecer técnico de sua ração, coloquei ela no Software do NRC Dairy Cattle e bem a grosso modo está ok.
RODRIGO GRALHA

RONDONÓPOLIS - MATO GROSSO - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 13/09/2008

Prezado Martinez

Eu distribuo o ruc aqui de Rondonópolis e tenho observado que grande parte dos produtores de leite tem se benificiado muito com a dieta baseada em ruc, cana e quirela de milho ou concentrado de 18 e 22%. Eles tem tido um aumento significativo na produção de leite e baixaram seus custos.

Foi feita uma análise do nosso ruc, e o nível de proteina ficou em torno de 27% na matéria seca. Essa dieta é feita com 5% de concentrado ou quirela de milho, 40% de ruc e 55% de cana de açucar ou napie. Gostaria de saber se você tem algum estudo que tenha aplicado esse tipo de dieta, se tiver algo gostaria de receber. Ou se puder me passar um parecer técnico, seria ótimo.

Desde já agradeço pela atenção.
RITA FERREIRA SOARES

OUTRO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE GADO DE CORTE

EM 11/04/2008

Prezado Martinez,

Alguma empresa já produz resíduo seco de cervejaria?

<b>Resposta do autor</b>

Prezada Rita,

Não que eu saiba. Acho que o custo do processo de secagem não compensa.
MATHEUS DE CARVALHO ALVES

VIÇOSA - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 31/03/2008

Com relação ao sorgo, o tanino não teria um efeito negativo na digestibilidade da proteína da dieta, sendo este efeito uma desvantagem em relação ao milho?
E como funciona esse processo de floculação?

De cordo com Valadares Filho, a digestibilidade dos grãos não é aumentada pelo processo de ensilagem, a qualidade é, no máximo, mantida a mesma. Na sua opinião, este aumento de digestibilidade é realmente significativo?

Agradeço desde já e parabenizo por todos os artigos já publicados.

<b>Resposta do autor</b>

Prezado Matheus.

Quanto pior a qualidade do produto natural, mais ele irá se beneficiar de um processamento. Logo, como o grão de sorgo é de pior qualidade que o grão de milho, ele será mais beneficiado.

"...O menor valor energético do sorgo em relação ao milho se deve à menor digestibilidade do amido deste cereal. Em comparação ao milho, cevada, trigo e aveia, o sorgo é o cereal que apresenta o amido menos igestível. Isto se deve a uma maior presença de matrizes e corpos protéicos revestindo os grânulos de amido do sorgo em comparação aos demais cereais. Devido a esta peculiaridade, o sorgo é o que mais se beneficia de processamentos mais intensos como a floculação..."

Floculação é um processo pelo qual o o grão do cereal é colocado sob vaporização e pressão com o objetivo de gelatinizar o amigo e "amolecer/romper" a matriz protéica.

"...O aumento na utilização do amido depende dos métodos de processamento, da espécie animal e da fonte do amido (grão). O processamento de grãos pode ser definido como "qualquer processo físico que muda a estrutura molecular original ou a composição física". O principal efeito do processamento de grãos é a mudança no local de digestão do amido (do intestino delgado para o rúmen), minimizando as limitações ntestinais à sua digestão e aumentando sua igestibilidade pós-rúmen.

Quando a digestão do amido ocorre no rúmen, observa-se maior produção de ácidos graxos voláteis (AGVs) e proteína microbiana. O amido que chega no intestino tem maior digestibilidade quando o grão de cereal é processado intensamente, resultando em maior suprimento de energia e de proteína metabolizável para o animal. O NRC (1996) relata que a floculação do milho aumenta o NDT do milho de 88 para 93%, em relação ao não processado.

A floculação também aumenta a digestibilidade pós-rúmen da proteína. A qualidade do grão floculado é medida pela densidade e reatividade do floco. A densidade do grão está fortemente relacionada às mudanças na solubilidade do amido e na reatividade enzimática. No processo de floculação, ao aumentar a distância entre os rolos compressores, os flocos tornam-se mais espessos, em razão da menor pressão dos rolos no grão.

Aumentando o tempo de permanência no vapor antes da aplicação de pressão entre os rolos, obtêm-se flocos mais resistentes à quebra. Por isso, utiliza-se a densidade como parâmetro da floculação.

Com relação a segunda parte de sua pergunta, eu não disse que a ensilagem de sorgo aumenta a digestibilidade do grão. Eu fiz um comparativo, disse que a ensilagem de grãos úmidos é vantajosa em relação ao processamento seco como a moagem ou laminação, resultando em maior digestibilidade do amido e maior NDT do cereal.
JUNIO CESAR MARTINEZ

TANGARÁ DA SERRA - MATO GROSSO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 28/02/2008

Prezado Marcelo Ferreira,

O Resíduo úmido de cervejaria tem entre 23 e 26% de proteína bruta de boa qualidade e de alta degradabilidade ruminal. Não existem limitações
nutricionais comprometedoras que restrijam o uso. O único problema RUC é seu alto teor de umidade, entre 78 e 80%. Isso reduz a capacidade de ingestão e o tempo de armazenamento, além de encarecer o frete por se transportar água.

Normalmente, o RUC armazenado sozinho após cerca de 10 dias começa a aumentar consideravelmente as perdas. Com 15 dias de armazenamento as perdas são muito grandes (bolor). Uma solução é adicionar fubá de milho ou outro concentrado seco para diminuir o teor de umidade, o que aumenta o tempo de armazenamento para cerca de 30 dias.
MARCELO FERREIRA FERNANDES

NATAL - RIO GRANDE DO NORTE - PESQUISA/ENSINO

EM 19/02/2008

Caro Martinez,

Parabéns com relação ao artigo e eu tenha algumas dúvidas. Com relação ao RUC qual é a qualidade dessa proteína (PDR e PNDR), e por quanto tempo esse material pode ser armazenado sem perder as suas características nutricionais? Qual o seu limite de inclusão na dieta?
LUIZ FERNANDO BONIN FREITAS

NOVA FRIBURGO - RIO DE JANEIRO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/11/2007

Sabendo-se ser a alimentação o principal fator limitante em pecuária leiteira, devemos utilizar sempre que possível esses subprodutos observando custo-benefício, tecnologia, aspectos nutricionais e orientação técnica. Assim poderemos pensar em um dos aspectos da eficiência, que é a alimentação.

<b>Resposta do autor:</b>

Luiz Fernando,

Eu não diria que a alimentação é o principal fator
limitante em se tratando da pecuária leiteira no Brasil.
Temos tantas limitações que é difícil eleger qual é a primeira no ranking. Isso vai depender um pouco de propriedade para propriedade e da visão de produção de cada produtor.

Com relação à utilização de sub-produtos, sim, uma vez respeitadas algumas particularidades desses produtos, eles podem ser utilizados com grande sucesso nas granjas leiteiras.

Grande abraço.

Junio