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Desafios dos produtores leiteiros na rentabilidade das propriedades do noroeste do Rio Grande do Sul

PRODUÇÃO

EM 27/12/2019

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Gilmar Luiz Rhoden, MBA em Agronegócio, Tecnólogo em Processos Gerenciais, Técnico Agropecuário, Consultor e Produtor de Leite.

Artigo extraído de monografia para conclusão de pós graduação MBA em Agronegócio

Resumo

A produção de leite no Brasil tem sido constantemente desafiada pelo ambiente externo que lhe impõe competitividade e a necessidade de sistemas de produção eficientes, obrigando os produtores a buscar maior eficiência econômica em suas propriedades. Uma forma de obter essa eficiência é a implantação de modelos de gestão técnica e econômica, afim de obter indicadores que os produtores consigam gerenciar, em direção a um ideal econômico. O presente estudo buscou entender alguns aspectos limitantes da produção leiteira desenvolvida na região Noroeste do Rio Grande do Sul (Brasil), gerando indicadores de eficiência para divulgá-los entre os elos da cadeia de produção de leite.

Introdução

A Região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul é a principal bacia leiteira do estado e uma das mais importantes, nacionalmente. Se consolida na produção de leite em clima temperado, desfrutando de boa precipitação pluviométrica, bem distribuída durante o ano, predominantemente em pequenas e médias propriedades familiares e com sistema de produção em semi-confinamento, na sua maioria.

De forma geral, a cadeia produtiva do leite tem passado por profundas modificações, principalmente no que se refere às propriedades rurais. É um setor ainda desorganizado, com pouco entendimento por parte dos produtores do papel que cumpre cada elo, com acentuada e crescente seleção de produtores que permanecem na atividade. No entanto, o número de propriedades de leite tem reduzido, pelo crescente número de produtores desistindo da atividade, com a produção nacional se mantendo praticamente estável. No Brasil em média, 45 produtores deixaram a atividade, diariamente, nos últimos 11 anos (Milkpoint, 2018).

Pela complexidade da atividade leiteira, torna-se imprescindível gerenciar com base em indicadores-chave que, a partir de uma base geradora, identificando “benchmarkings” para se buscar aperfeiçoar o sistema produtivo e torná-lo financeiramente viável.

Este modelo de gestão que preconiza um conjunto de índices zootécnicos e econômicos é ferramenta importante para a busca do ótimo econômico das propriedades. Para as propriedades com dificuldades em gestão recomenda-se orientação técnica competente para executar um bom trabalho de resultados. Diante disto buscou-se no presente estudo identificar a composição dos custos de produção de leite e da renda gerada pela atividade leiteira no noroeste do estado do Rio Grande do Sul.

Material e Métodos

Foram extraídos e analisados um banco de dados de 125 propriedades pertencentes ao projeto Mapa Leite, parceria entre Ministério da Agricultura, Pecuária e abastecimento (Mapa), desenvolvido e executado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural – Administração Central [SENAR] através do programa ATeG (Assistência técnica e Gerencial). O projeto tinha como objetivo melhorar indicadores e parâmetros da qualidade do leite, nos maiores estados produtores de leite no Brasil, por meio da adoção de boas práticas agropecuária e de produção na propriedade, como também treinamento dos transportadores de leite e técnicos de laticínio. O autor do presente estudo participou deste projeto e o uso deste segmento de dados é feito com a autorização do SENAR- Administração Central.

O ATeG- MAPA Leite foi desenvolvido em diversas regiões do Brasil, sendo incluído neste estudo, apenas produtores atendidos na Região Noroeste do Rio Grande do Sul, no ano de 2018 (01/02/2018 a 31/12/2018). As visitas de ATeG às propriedades rurais foram realizadas mensalmente por técnicos treinados pelo projeto e aplicando uma única metodologia (SENAR, 2014; 2015). Os dados coletados pelo técnico partem de registros feitos pelo produtor em um caderno específico, posteriormente digitalizados e importados em software específico (SISATEG) do SENAR, contendo como referência mês anterior ao da visita.

Assim que lançados, os dados já permitem, no momento da visita, fechar o fluxo de caixa do mês da propriedade, além de fornecer a análise de indicadores econômicos e zootécnicos. Os relatórios gerados podem ser mensais e anuais, sendo que o último relatório permite análises econômicas melhores por fecharem um período incluindo todos os períodos sazonais.

Importante notar que foram usados para o presente estudo apenas propriedades que fecharam um ano de ATeG.  A partir dos relatórios extraídos do SISATEG, foram utilizadas as seguintes informações ou indicadores:

  • Produção anual de leite (L ano-1);
  • Produção média de leite (L dia-1);
  • Produção/área para pecuária (L ha-1 ano-1);
  • Renda bruta da atividade (R$ ano-1);
  • Preço médio do leite (ano);
  • Gasto com mão-de-obra contratada (R$ ano-1);
  • Custo operacional efetivo da atividade(COE), contém todos os desembolsos necessários para a realização da produção (SENAR, 2014) (R$ ano-1);
  • Custo operacional Total(COT)= COE + Mão de obra familiar+ Depreciação;
  • Custo da mão-de-obra familiar (R$ ano-1), na remuneração da mão de obra encontramos outra variável econômica, pela qual ao trabalho presente foi nivelado para melhor análise a seguinte equação (salário mínimo regional/180) X horas trabalhadas período). Com o ajuste acima não analisaremos a oportunidade local e especialização da mão-de-obra familiar, excluindo estas variáveis para o presente estudo;
  • Depreciação anual, compondo o custo operacional total da atividade representa um valor não monetário que o produtor deve calcular para repor, ao longo da vida útil, os bens, as máquinas e os equipamentos que utiliza para produção, evitando o sucateamento dos mesmos e a perda na capacidade produtiva (SENAR, 2014); (R$ ano-1);
  • Estoque de capital sem-terra, custo total da atividade (R$ ano-1);
  • Margem bruta da atividade (Receita- COE), (R$ ano-1);
  • Margem bruta por área (Margem Bruta/Área na propriedade) (R$ ha-1);
  • Margem líquida da atividade (Receita – COT), (R$ ano-1);
  • Margem líquida unitária (Margem Liquida/Produção em litros de leite) (R$ L-1);
  • Taxa de retorno do capital sem-terra ((Margem Liquida/Capital investido sobre a terra) x100) (%);
  • Produtividade MO, adaptado para o estudo expresso em total horas trabalhadas diariamente e produtividade em litros (L h-1);
  • Capital investido para produzir Litro de leite por ano (R$ L-1);
  • Lucro = [receita - (custo operacional efetivo + depreciação + mão-de-obra familiar + custo de oportunidade de capital)];
  • Custo de oportunidade de capital = 0,06% ao ano sobre o estoque de capital sobre a terra.

Em complemento aos dados da metodologia do SENAR ATeG, foi realizado o levantando dos seguintes dados, em formato de pesquisa de campo conduzida pelos técnicos:

  • Total de área útil da propriedade efetivamente utilizada na atividade leiteira, inverno;
  • Total de área útil da propriedade efetivamente utilizada na atividade leiteira, verão;
  • Mão-de-obra familiar (número de pessoas envolvidas na atividade);        
  • Total horas dia-1 trabalhadas na atividade.

Todas as informações foram importadas, tabuladas e organizadas em planilhas no Microsoft Excel e submetidas à análise estatística descritiva.

Resultados e Discussão

As propriedades avaliadas são predominantemente compostas de sistema semi-intensivo de produção, com mão-de-obra familiar, na sua grande maioria. Propriedades desde 2,3 ha até 36 ha de área útil, usando na média 10,5 ha para a produção leiteira.

Considerando-se as informações acima referentes ao recurso área para produção das propriedades, buscou-se avaliar o impacto da produtividade em litros de leite ha/ano, na composição de margem bruta sobre o litro de leite produzido.

Diante da necessidade de otimizar o recurso terra (área em produção de leite), pretendeu-se analisar a relação de aumento de produtividade de leite (L ha-1 ano-1) com aumento da margem bruta (R$ ha-1 ano-1). Esta liame é mostrada no gráfico da Figura 1:


Fonte: Resultados originais da pesquisa

Figura 1. Relação entre produtividade da terra e margem bruta por hectare

Na Figura 1, identificou-se uma relação de 82,49 % da produtividade da terra com a margem bruta por hectare. Para cada 1 litro de incremento em produtividade, percebe-se na média das propriedades analisadas um aumento de R$ 0,61 ha-1 ano-1 de margem bruta ou R$ 610,00 para cada 1.000L ha-1 ano-1 de ganho em produtividade. Como a margem bruta é o resultado após a remuneração das despesas, ou seja do custo direto, quanto maior ela for, maior a capacidade de remuneração do custo de oportunidade de capital investido e mais atrativa a atividade. Como a área de terra para produção leiteira é um recurso relativamente fixo e de alto valor na região, a otimização da escala de produção, que passa pelo uso otimizado do recurso terra, deve ser uma meta de toda propriedade visto que, pelo menos dentro dos limites observados neste estudo, houve um comportamento linear positivo desta com a margem bruta.

Observa-se na Figura 2 que, quando analisamos o efeito do mesmo aumento de produtividade da terra agora na margem bruta litro de leite (dados simbolizados pelos pontos pretos, no gráfico), a inclinação da reta de regressão é praticamente inexistente e a correspondência entre estas duas variáveis é nula. Pode-se afirmar, portanto que, pelo menos neste grupo de propriedades rurais, o aumento da produtividade da terra não impactou na margem bruta do litro de leite produzido.

No entanto, quando analisamos a encadeamento da produtividade da terra com o lucro por litro de leite produzido o cenário muda bastante. Vê-se uma tendência em curva ascendente com inclinação acentuada de zero a aproximadamente 10.000 L ha-1 ano-1, tendendo a um “plateau” após este patamar, com uma inter-relação de 44%.

Vale notar que, enquanto os produtores que tiveram lucro sobre o litro de leite produzido em suas propriedades produziram 12.642 L ha-1 ano-1, os produtores que não tiveram lucro produziram 5.920 L ha-1 ano-1, em média. As propriedades com lucro usaram em média no ano 12,6 ha da área útil para produção leiteira em comparação a 8,4 ha nas propriedade sem lucro.


Fonte: Resultados originais da pesquisa

Figura 2. Relação entre produtividade da terra com margem bruta (ponto em círculo) e com lucro por litro de leite produzido (pontos em losango)

Observando o eixo x da Figura 2 no sentido decrescente, percebe-se que a redução da produtividade diminui exponencialmente a possibilidade de lucro nas propriedades, pelo menos no que tange o sistema de produção e o perfil das propriedades presentes neste estudo. De 35 propriedades com produção inferior a 5000 L ha-1 ano-1, apenas seis obtiveram lucro na atividade. Como na maioria destas propriedades não se tem mais área que pudesse ser agregada à produção leiteira, o aumento da produtividade da terra assume grande importância na busca de maior renda e remuneração do capital e dos esforços empreendidos. Este aumento pode ser feito com investimentos e melhorias em fertilidade do solo, genética e manejo das forragens. Beskow (2012) argumenta que alta produtividade por hectare, por animal e por pessoas envolvidas levam a grandes faturamentos, independentemente de preços, com baixo custo por litro e que estes, no conjunto, levam a um alto retorno sobre o investimento. Conclui afirmando que estes fatores jamais devem ser deixados de lado.

A otimização do uso dos recursos alocados à produção é de vital importância em todo empreendimento com fins econômicos. A produtividade da mão-de-obra disponível tem importante relação com a rentabilidade da propriedade, como podemos perceber na Figura 3.


Fonte: Resultados originais da pesquisa

Figura 3. Relação entre produtividade da mão-de-obra e resultado líquido (lucro ou prejuízo) por litro de leite

O gráfico acima (Figura 3) mostra o impacto da produtividade da mão-de-obra (litros h-1 trabalhada) em correspondência ao resultado líquido por litro de leite produzido. No presente estudo, a relação entre estas variáveis foi de 65%, necessitando-se, em média, pelo menos 20L h-1 trabalhada para haver lucro, sendo que nenhuma propriedade auferiu lucro produzindo menos de 10,6 L h-1 de trabalho.

Propriedades sem lucro (ou seja, resultado nulo ou de prejuízo) apresentaram, em média, 11,20 L h-1 trabalhada, enquanto que as propriedades com lucro produziram, também em média, 28 L h-1 trabalhada.

Nas propriedades analisadas, existe uma parte da mão-de-obra que possivelmente esteja ociosa ou envolvida em outras atividades das famílias produtoras, pois no presente estudo, contabilizou-se apenas horas efetivamente usadas na produção leiteira. Na média, as propriedades do estudo tiveram 2,3 pessoas trabalhando 13,3 h dia-1, resultando em 5,78 h pessoa-1 dia-1. Os resultados do presente estudo poderão auxiliar estas famílias a buscar mais eficiência produtiva de sua mão-de-obra, iniciando por focar em atividades diárias que lhes tragam maior retorno.

Neste mesmo sentido, partindo-se da necessidade de se otimizar o recurso estoque de capital sobre a terra, analisou-se sua relação com o lucro da produção de leite ilustrada na Figura 4. Se percebe uma relação de 52%, com redução de lucro por litro de leite produzido à medida que aumenta o capital investido para produzir este mesmo litro de leite. Salienta-se que, nas propriedades participantes deste estudo, não houve lucro em nenhuma propriedade que tenha envolvido mais de R$ 3,23 investidos para produzir um litro de leite ao ano. As propriedades com lucro na atividade obtiveram uma média de R$ 1,23 de estoque de capital, enquanto que as propriedades sem lucro tiveram uma média de R$ 3,14 imobilizados para produzir um litro de leite ao ano.


Fonte: Resultados originais da pesquisa

Figura 4. Relação entre capital investido durante o ano para produzir um litro de leite e o resultado líquido da atividade (lucro/prejuízo), também por litro

Ao observar a Figura 4, verifica-se que, para os produtores em questão, o capital investido tem peso significativo na composição do resultado econômico, lembrando que, de acordo com a metodologia aqui empregada, este resultado é verificado após a contabilização da depreciação e do custo de oportunidade do capital.

            Para melhorar esse indicador, pode-se buscar alternativas, como a prestação de serviços, através da qual se realiza as tarefas indispensáveis, como colheita de silagem de milho, por exemplo, sem a necessidade de manter tanto capital imobilizado. Já os bens de produção que necessitam ser adquiridos precisam ser adequados à escala de produção esperada e em muitas propriedades, como demonstrado neste trabalho, isto não está ocorrendo.

Conclusões

As propriedades da Região Noroeste do Rio Grande do Sul, incluídas no presente estudo, apresentaram resultados econômicos diversos. Apesar dessa variação, percebeu-se a existência de padrões de comportamento seguindo razoáveis ou mesmo altas correlações entre as variáveis usadas como indicadores de desempenho econômico. A produtividade da terra, da mão-de-obra e a otimização do capital investido nas propriedades se mostraram particularmente muito relevantes para a geração de resultado econômico positivo. Como regra geral, os indicadores que se revelaram importantes, explicam boa parte do sucesso ou insucesso econômico das propriedades estudadas e são negligenciados pelos produtores rurais e mesmo pela maioria dos técnicos que os assistem. Faz-se necessária a adoção de sistemas de gestão que incorporem planejamento, controle e monitoramento dos resultados para que erros e ineficiências sejam corrigidos a tempo e o produtor possa atingir margens mais atrativas.

Referências

Beskow, W. 2012. “Leite: pelo Brasil a fora.“.  Disponível em: <http://www.transpondo.com.br/>. Acesso em: 10 maio 2019.

MERCADO, Equipe Milkpoint. 2018.”Enfim, o censo 2017: mudança em 12 anos foi menor do que a esperada”. Disponível em: <https://www.milkpoint.com.br/noticias-e-mercado/panorama-mercado/enfim-o-censo-2017-mudanca-em-12-anos-foi-menor-do-que-a-esperada-209446/>. Acesso em: 20 abr. 2019.

Serviço Nacional de Aprendizagem Rural [SENAR]. 2014. Bovinocultura de leite / Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR). SENAR, Brasília, DF, Brasil.

Serviço Nacional de Aprendizagem Rural [SENAR]. 2015. Assistência técnica e gerencial do SENAR. SENAR, Brasília, DF, Brasil.

Agradecimentos

Agradecimento ao SENAR pela oportunidade de usar os dados do ATeG para o desenvolvimento da Monografia, e ao professor Wagner Beskow pelo suporte no desenvolvimento! Enfatizo o importante trabalho prestado pelo SENAR ao Agronegócio Brasileiro através do ATeG (Assistência técnica e Gerencial).

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ALOISIO BASTOS

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 02/01/2020

Excelente! Finalmente encontrei um trabalho altamente tecnico e que o resultafo serve de guia para os proditores, para estudos e para quem quer ter uma visão do qie fazer para ter lucro.
HENRIQUE FROEHLICH

ALECRIM - RIO GRANDE DO SUL - MÉDICO VETERINÁRIO

EM 02/01/2020

Parabéns pelo artigo Gilmar. Muito bom.