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Como está o manejo dos resíduos das propriedades leiteiras mineiras

POR JULIO CESAR PASCALE PALHARES

PRODUÇÃO

EM 20/05/2019

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A bovinocultura leiteira insere preocupação ambiental devido ao manejo dado aos dejetos e carcaças gerados pela atividade. Quando esse manejo não é realizado de acordo com os padrões legais e as boas práticas ambientais, a propriedade torna-se uma potencial fonte de poluição pontual e difusa. Os riscos ambientais podem ser potencializados quando os resíduos são usados como fertilizante sem considerar o conceito de balanço de nutrientes.

Estudos de diagnose da realidade do manejo de resíduos da produção leiteira permitem subsidiar a tomada de decisão por produtores e técnicos e auxiliar na proposição de programas privados e políticas públicas, porém ainda são escassos. O objetivo deste trabalho foi avaliar o uso de sistemas e práticas relacionadas ao manejo de resíduos em propriedades leiteiras do Estado de Minas Gerais.

Para isso, consideramos as propriedades participantes do Programa Balde Cheio no Estado. Esse levantamento contempla dados coletados por formulário eletrônico referente ao Índice de Atualização Tecnológica (IAT). A planilha IAT consiste em um instrumental para mensurar a situação do uso de tecnologias da propriedade leiteira por meio do preenchimento de questões específicas de procedimentos/tecnologia ou tipo de equipamento/infraestrutura empregados na atividade. O formulário abrange dados de perfil da propriedade; de perfil do produtor/família e de perfil tecnológico. O índice é composto de 237 indicadores de natureza quantitativa e qualitativa.

Cada planilha se refere aos dados de cada produtor assistido por um profissional do Programa Balde Cheio. As planilhas foram preenchidas conjuntamente pelo produtor e pelo técnico responsável pela propriedade. O período de análise compreende os anos de 2015, 2016 e 2017. O número de planilhas analisadas para cada ano foi de 63, 215 e 417, respectivamente para os citados anos.

Neste estudo, apresentamos somente a análise dos indicadores relacionados ao manejo de resíduos da propriedade, são eles: manejo de efluentes, tratamento e disposição de carcaças e práticas de manejo ambiental.

Ao longo do período avaliado verificou-se que mais de três quartos das propriedades leiteiras não dispunham de sistema de armazenamento ou tratamento de efluentes oriundos da lavagem da instalação de ordenha (Figura 1). Essa realidade insere uma condição de fragilidade ambiental à atividade, pois os efluentes não estão sendo manejados de acordo com as boas práticas ambientais. Por consequência, devem estar sendo dispostos no ambiente de forma incorreta, o que determinará impactos ambientais negativos para as águas, solo e ar.

Figura 1. Porcentagem de uso de sistemas de armazenamento e/ou tratamento para o manejo dos efluentes.

Manejo dos resíduos das propriedades leiteiras mineiras

Já existem práticas e tecnologias para o correto manejo dos efluentes leiteiros, se estas não estão sendo utilizadas e/ou compreendidas pelo setor, pode-se inferir que há reduzido conhecimento por parte dos produtores e profissionais agropecuários sobre como fazer esse manejo.

A Deliberação Normativa Copam nº 217 de 06 de dezembro de 2017 estabelece critérios para definição das modalidades de licenciamento ambiental de atividades utilizadores de recursos ambientais no Estado de Minas Gerais. Considerando os critérios da Deliberação e a estrutura da maioria das propriedades leiteiras do estado, menos de 500 cabeças ou menos de 200 ha, as propriedades teriam que ter uma licença ambiental simplificada que pode ser expedida em uma única fase, mediante cadastro de informações pelo empreendedor, ou em um a única fase pela apresentação do Relatório Ambiental Simplificado (descrição da atividade e das respectivas medidas de controle ambiental). Portanto, a legalização ambiental da atividade leiteira não seria algo complexo, podendo ser feito pelo produtor ou por este com a assistência de um técnico.

Minas Gerais é historicamente a maior bacia leiteira do país. Essa condição de fragilidade no manejo de efluentes pode ser entendida como uma oportunidade para implementação de programas e políticas que promovam a adequação ambiental dos sistemas de produção de leite. Como isso, o estado pode se tornar uma referência para outros estados e bacias leiteiras, demonstrando ser possível produzir de forma ambientalmente correta e economicamente viável.

Das propriedades que dispunham de algum sistema, a maioria optou pelo armazenamento dos efluentes em esterqueiras. O armazenamento insere uma rotina de manejo mais simples, com menor custo de investimento e manutenção e baixa necessidade de capacitação da mão-de-obra. Ao se optar pelo armazenamento também está se optando pela disposição do resíduo como fertilizante. A disposição é benéfica para cultura vegetal, pelo efluente ser uma fonte de água e nutrientes; para o solo, pela melhoria da estrutura deste; e para economia da propriedade, pela redução com a aquisição de fertilizantes químicos. Mas a disposição deve ser feita considerando os preceitos do balanço de nutrientes, caso contrário, a disposição representará uma fonte de poluição difusa.

Propriedades que dispunham de um sistema de tratamento apresentaram representatividade menor do que 3%. Fazer o tratamento dos efluentes tem maior custo e é dependente de mão-de-obra especializada. Por isso, a utilização de sistemas de tratamento para os resíduos da produção animal ainda apresenta baixa frequência de uso, sendo mais comum em realidades que há pressão social e/ou do órgão licenciador ou onde o produtor consegue conciliar o tratamento com mecanismos de agregação de valor ao produto e/ou redução dos custos de produção.

Em média no período avaliado, 50% das propriedades não faziam nenhuma prática de disposição de carcaças de animais mortos (Figura 2). Isso pode significar que as carcaças estejam sendo deixadas nas áreas da propriedade, o que represente riscos para saúde humana e animal.

Figura 2. Porcentagem das práticas de manejo das carcaças de animais mortos na propriedade.

Manejo dos resíduos das propriedades leiteiras mineiras

O tratamento das carcaças por compostagem, sistema mais indicado para disposição deste tipo de resíduo, foi apontado por apenas 1,4% dos produtores e somente no ano de 2016. Essa realidade demonstra a necessidade de incentivar e transferir os conhecimentos necessários para que os produtores façam a compostagem o que determinará um correto manejo deste resíduo e melhor status sanitário da atividade.

A frequência de propriedades que praticam o enterramento das carcaças demonstra aumento ao longo dos anos de estudo, representando quase 50% das propriedades em 2017. O enterramento pode ser uma forma de disposição deste resíduo, desde que sejam consideradas as recomendações técnicas relacionadas à escolha da área, tipo de solo e drenagem da área, distância de corpos d´água superficiais e subterrâneos e de habitações e instalações de animais.

A queima das carcaças aparece com significativa frequência no ano de 2015 (31,7%), mas reduz nos anos posteriores. A queima não é um processo de disposição indicado, pois além de colocar em risco a vida e a saúde humana, ela não represente uma forma de tratamento integral o que somente seria alcançado pela incineração.

Os resultados permitem concluir que as práticas e sistemas de armazenamento e tratamento disponíveis para o correto manejo dos resíduos da produção leiteira não estão sendo considerados no cotidiano produtivo da maioria das propriedades avaliadas. A iniciativa de cada produtor em fazer a adequação ambiental da atividade e o fomento público e privado para utilização das práticas e sistemas deve fazer parte das agendas do setor leiteiro de Minas Gerais, bem como de outros estados e bacias leiteiras. Produzir leite de forma ambientalmente correta é tecnicamente possível, economicamente viável e socialmente desejável.

Agradecimentos

Agradecemos a todos os produtores e técnicos do Projeto Balde Cheio pela colaboração no preenchimento dos formulários.

Fonte da foto que ilustra a capa: o próprio autor do artigo. 

JULIO CESAR PASCALE PALHARES

Pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste

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JOEL HENRIQUE MÖRS

ARROIO DO MEIO - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 21/05/2019

Fiz um biodigestor caseiro em nossa propriedade, através do esterco de codornas, com o gás gerado, consigo usar na cozinha de casa, agora estou elaborando um projeto maior para a pocilga de dejetos suínos, para obter aquecimento de água, gás de cozinha e calefação. Temos que pensar no futuro, na auto sustentabilidade e ser amigo da natureza.
JULIO PALHARES

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 21/05/2019

Caro Joel, parabéns pela iniciativa do biodigestor. Continue avançando! Sim, temos que pensar no futuro e saber que ele não existe sem recursos naturais conservados em quantidade e qualidade
LUIS F MAGALHAES

INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 20/05/2019

Boa tarde, Julio

Parabéns pelo artigo, tema não muito abordado e olhado com a importância devida aqui no Brasil pela larga maioria.

Haveria um e-mail ou telefone que pudéssemos nos falar, por favor?
Trabalho em uma empresa que usa um processo de bioestimulação oriunda da Austrália e estamos resultados fantásticos.

Caso haja o interesse, acesse o site www.o2eco.com.br, há ali resultados de tratamento em ETEs de rejeito de bubalinose bovinos.
Forte abraço.
Luis Fernando Magalhães
DAVID MIRANDA DAS NEVES

UNIÃO - PIAUÍ - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 20/05/2019

Realmente é uma atividades que gera bastante resíduos, e na sua grande maioria não não existe manejo adequado! Aqui na minha região não temos muio perigo pois a temos poucos produtores, e os existente são pequenos. Umas das formas de manejo de fácil acesso seria os biodigestores, que transformam esses dejetos em gás e fertilizante, diminuindo os custos de produção e melhorando a qualidade ambiental.
JULIO PALHARES

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 20/05/2019

Caro David, cita que os produtores em sua região são pequenos (baixa escala de produção). Desta forma, os biodigestores podem não ser a melhor opção, pois além do investimento inicial que é alto, principalmente se quiser utilizar o biogás, o biodigestor necessita de manejo cotidiano, ou seja, o produtor precisa ser treinado e assistido para utilizar a tecnologia. Para pequenos produtores o que a Embrapa Pecuária Sudeste recomenda é o uso da esterqueira, desde que o produtor tenha maquinário para distribuir o líquido (tanque) ou tenha já instalado um sistema de irrigação de culturas, podendo fazer a fertirrigação. Caso não tenha nenhuma dessas estruturas, recomendamos o uso de áreas vegetadas de tratamento ou valas de infiltração.
BRUNO VICENTINI

LAVRAS - MINAS GERAIS

EM 20/05/2019

Muito bom o artigo!