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Características de seleção para resistência a parasitas gastrintestinais em ovinos

POR BRUNO DELPHINO MEDRADO

PRODUÇÃO

EM 15/05/2020

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As infecções por parasitas gastrintestinais estão entre os principais problemas sanitários que afetam animais em pastejo ao redor do mundo. No Brasil, Haemonchus contortus, Cooperia sp., Trichostrongylus sp., Moniezia expansa e Oesophagostomun sp. são as espécies mais comumente encontradas (Cenci et al., 2007). Os níveis produtivos podem ser bastante reduzidos pelas verminoses, e se não forem tratadas, as taxas de mortalidade podem ser altas nos animais gravemente afetados.

Um eficiente controle de vermes só é possível através da integração de vários métodos, como manejo de pastoreio, suplementação nutricional, uso estratégico de anti-helmínticos, bem como seleção de animais resistentes, todos contidos em um programa integrado (CSIRO, 2007). Por outro lado, a forma de combate mais utilizada pelos criadores é o tratamento farmacológico. Entretanto, o uso indiscriminado fez surgir um fenômeno denominado de resistência anti-helmíntica. Esta é responsável pela perda da eficácia dos princípios ativos mais utilizados, em virtude do surgimento de vermes que não são afetados por eles. Além disso, a crescente demanda por produtos orgânicos para animais em todo o mundo encorajou a busca por métodos alternativos para controlar a helmintíase em ovinos (Benavides et al., 2015).

A seleção de animais capazes de resistir às infecções por parasitas gastrintestinais, e a sua utilização em sistemas de acasalamento surge como uma opção de controle às parasitoses, diminuindo a necessidade de uso constante de drogas.

Um animal considerado resistente é aquele que possui maior capacidade de prevenir o estabelecimento de larvas de parasitas e promover a eliminação de qualquer uma que se estabeleça (Bishop, 2012). A resistência à parasitose é uma variável de mensuração indireta, com herdabilidade moderada, variando entre 0,2-0,7 (Zvinorova et al., 2016). Recomenda-se que a seleção seja baseada em medidas fenotípicas, tais como contagem de ovos por grama de fezes (OPG) e variáveis hematológicas como volume globular (Hematócrito) e escore Famacha®.

Ovinos mostram considerável variação genética em sua capacidade de limitar e resistir a infecções por vermes (Arsenopoulos et al., 2017), e a capacidade de selecionar animais para melhorar a resistência a nematoides é dependente desta variação e da capacidade do criador para identificar e reproduzir a partir dos indivíduos mais resistentes (Bishop, 2012).

Um dos principais fenótipos mensurados, e considerado padrão, na busca por animais resistentes é a contagem de ovos por grama de fezes (OPG). Esta característica está relacionada com a carga parasitária e com o grau de contaminação das pastagens (Lôbo et al., 2009), de forma que, o animal mais resistente excreta menos ovos, portanto, quanto menor for o OPG menos susceptível é o animal. Aliado a isso, este indicador é eficiente para vários gêneros de nematódeos e, devido à forte correlação genética existente entre os valores de OPG de diferentes espécies de nematoides, ocorre que a seleção para resistência a um parasita tenderá a aumentar esta característica para outro.

Diversos estudos têm demonstrado herdabilidade moderada para esta variável (Tabela 1). Bishop (2012) afirmou que este parâmetro genético varia entre 0,2 a 0,4 e Lôbo et al. (2009) estimaram herdabilidade de até 0,52 em cordeiros da raça santa Inês. A herdabilidade de um traço indica se existe a possibilidade de obter ganho genético por meio de sua seleção e esses valores citados sugerem que a seleção para resistência por meio do OPG é viável a médio e longo prazo (McRae et al., 2014). Exemplos bem-sucedidos foram demonstrados em experimentos na Nova Zelândia e na Austrália. Haemonchus contortus é o parasita economicamente mais importante para a produção de pequenos ruminantes em muitas regiões do mundo, inclusive no Brasil. O método Famacha® (figura 1), desenvolvido na África do Sul, é utilizado para identificar animais anêmicos devido a infecção por este verme. Esta metodologia é baseada na coloração da mucosa ocular, cuja finalidade é graduar a intensidade da anemia. No cartão Famacha®, o nível 1 corresponde à mucosa vermelha e o nível 5 à mucosa com coloração pálida. De acordo com Riley e Van Wyk (2009), este indicador possui herdabilidade entre 0,24 e 0,55 e Ngere et al. (2017) observaram herdabilidade variando de 0,32 a 0,41. Desta maneira, é possível adotar critérios de seleção para ovelhas com base nas diferenças entre o histórico de pontuação individual do Famacha®.

Figura 1. Método Famacha® de controle parasitário

Método Famacha de controle parasitário ovinos

Um parâmetro hematológico, diretamente relacionado ao escore Famacha® é o volume globular ou hematócrito, o qual é um bom indicador de como o animal está conseguindo lidar com os efeitos patogênicos da parasitose, principalmente pelo H. contortus e sobreviver quando infectado. É um traço herdável em ovinos, com herdabilidade variando entre 0,18 a 0,22 (Ngere et al., 2017), e possui correlação genética negativa com OPG. Portanto, a definição de metas de seleção torna-se simples, isto é, diminuir a contagem de ovos por grama de fezes e o escore Famacha®, e aumentar o volume globular (Bishop, 2012).

Outras variáveis, de caráter imunológico, também são utilizadas em estudos relacionados à resistência aos parasitas gastrintestinais, entre elas estão eosinofilia, pesquisa de anticorpos específicos como IgA, IgG, IgM e IgE, anticorpo específico salivar e frutosaminas (Bishop, 2012). Todas essas medidas mostram propriedades desejáveis, como moderada a alta herdabilidade (Tabela 1), indicando que a variação genética é um dos componentes mais importantes na variabilidade da atividade imune entre os animais e, muitas vezes, fortemente correlacionadas com a característica principal, o OPG. Amarante et al. (2009) observaram correlação negativa entre imunoglobulina G específica para H. contortus e eosinófilia (-0,78 e -0,64 respectivamente) com a contagem de ovos nas fezes e Murphy et al. (2010) encontraram valor de -0,2 trabalhando com IgE específica para Teladorsagia circumcincta, significando que animais que produziram mais anticorpos foram mais resistentes.

Tabela 1. Herdabilidade das principais variáveis fenotípicas para resistência a parasitas

Os traços de caráter imunológico citados acima, podem ser de interpretação complicada por fazerem parte de uma resposta dinâmica do animal frente ao desafio parasitário, mudando com o tempo e sendo afetadas por exposições anteriores aos nematoides. Consequentemente, programas de melhoramento baseados em medidas fenotípicas devem focar principalmente no OPG, hematócrito e Famacha® (Bishop, 2012).

As principais características fenotípicas relacionadas à resistência aos parasitas gastrintestinais estão sujeitas a variações genéticas e possuem herdabilidade moderadas, podendo ser utilizadas para atingir ganho genético. Desta forma tais variáveis podem ser combinadas com informações de pedigree para estimação de valores genéticos dos animais (EBV´s), auxiliando na seleção dos animais mais aptos a lidar com as parasitoses.

Referências bibliográficas

AMARANTE A.F.T., SUSIN I., ROCHA R.A., SILVA M.B., MENDES C.Q., PIRES A.V. 2009. Resistance of Santa Ines and crossbred ewes to naturally acquired gastrointestinal nematode infections. Veterinary Parasitology 165, 273–280.

ARSENOPOULOS K., SYMEONIDOU I., PAPADOPOULOS E. 2018. Immune and other factors modulating host resistance against gastrointestinal nematode parasites in sheep. Journal of the Hellenic Veterinary Medical Society, 68(2), 131-144.

BENAVIDES M.V., SONSTEGARD T.S., KEMP S., MUGAMBI J.M., GIBSON J.P., BAKER R.L., HANOTTE O., MARSHALL K., TASSELL C.V. 2015. Identification of Novel Loci Associated with Gastrointestinal Parasite Resistance in a Red Maasai x Dorper Backcross Population. PLoS ONE 10(4), e0122797.

BISHOP S.C. 2012. Possibilities to breed for resistance to nematode parasite infections in small ruminants in tropical production systems. Animal 6(5), 741–747.

CENCI, F.B., LOUVANDINI, H., MCMANUS, C., DELL’PORTO, A., COSTA, D.M., ARAUJO, S.C., MINHO, A.P., ABDALLA, A.L. 2007. Effects of condensed tannin from Acacia mearnsii on sheep infected naturally with gastrointestinal helminthes. Veterinary Parasitology 144, 132–137.

CSIRO. Breeding sheep for sustainable worm control information sheet, http://www.csiro.au/resources/pfb8.html.

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LÔBO R.N., VIEIRA L.S., OLIVEIRA A.A.D., MUNIZ E.N., SILVA J.M.D. 2009. Genetic parameters for faecal egg count, packed-cell volume and bodyweight in Santa Inês lambs. Genetic Molecular Biology 32, 228-294.

MCRAE K.M., MCEWAN J.C., DODDS K.G., GEMMELL N.J. 2014. Signatures of selection in sheep bred for resistance or susceptibility to gastrointestinal nematodes. BMC Genomics 15, 637.

MURPHY L, ECKERSALL P.D., BISHOP S.C., PETTIT J.J., HUNTLEY J.F., BURCHMORE R., STEAR M.J., 2010. Genetic variation among lambs in peripheral IgE activity against the larval stages of Teladorsagia circumcincta. Parasitology 137, 1249–1260.

NGERE L., BURKEB J.M., HERRINGA A.D., SANDERSA J.O., CRAIGD T.M., VAN WYKE J.A., RILEYA D.G. 2017. Utilization of year-round data in the estimation of genetic parameters for internal parasite resistance traits in Dorper sheep. Small Ruminant Research 151, 5–10.

RILEY D.G., VAN WYK J.A. 2009. Genetic parameters for FAMACHA score and related traits for host resistance/resilience and production at differing severities of worm challenge in a Merino flock in South Africa. Veterinary Parasitology 164, 44–52.

ZVINOROVA P.I., HALIMANI T.E., MUCHADEYI F.C., MATIKA O., RIGGIO V., DZAMA K. 2016. Breeding for resistance to gastrointestinal nematodes − the potential in low-input/output small ruminant production systems. Veterinary Parasitology 225,19-28.

BRUNO DELPHINO MEDRADO

Médico veterinário do Instituto federal baiano campus Santa Inês

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