Essa é a visão de Jean Oliveira, zootecnista, pós-graduado em Nutrição de Bovinos Leiteiros e sócio-fundador da NutryRumen, empresa de consultoria especializada em sistemas integrados de produção agropecuária. Jean atua nas regiões Noroeste, Norte e Planalto do Rio Grande do Sul.
Indicado por pessoas do setor para participar do Especial Técnicos, série do MilkPoint que reconhece profissionais que fazem a diferença na produção de leite, Jean acredita que o papel da assistência técnica vai muito além de resolver problemas de manejo, ajustar a nutrição do rebanho ou buscar melhores índices produtivos. "Um bom técnico vai muito além de resolver problemas de manejo ou aumentar os indicadores de produção. Ele atua como um agente de transformação, conectando conhecimento, planejamento e pessoas para tornar a propriedade mais eficiente, sustentável e rentável."
Para ele, a função do profissional é transformar conhecimento técnico em resultados práticos, mas sempre adaptando as recomendações à realidade de cada propriedade, aos recursos disponíveis, aos objetivos e às limitações do produtor.
Mais do que dizer o que deve ser feito, o técnico precisa explicar o porquê de cada decisão. Dessa forma, contribui para desenvolver o produtor e fortalecer sua capacidade de administrar o próprio negócio com autonomia e segurança. "Um dos principais objetivos da consultoria é desenvolver o produtor." Nesse processo, os indicadores técnicos e econômicos também ganham importância. Para Jean, eles devem ser utilizados como ferramentas de gestão, capazes de orientar melhorias contínuas e reduzir decisões baseadas apenas na intuição.
Mas existe ainda um elemento que sustenta todo esse trabalho: confiança. Parceria, respeito, transparência e credibilidade entre técnico e produtor são, segundo ele, fundamentais para construir resultados sustentáveis — e também para proporcionar mais segurança, qualidade de vida e bem-estar às famílias que vivem da atividade leiteira.
A transformação que não cabe em um indicador
Quando questionado sobre o caso ou conquista que mais marcou sua carreira, Jean não escolhe uma propriedade específica. Isso porque, para ele, o impacto da assistência técnica não pode ser resumido a uma única história de aumento de produção, melhora de um indicador ou correção de um problema. "Não tenho uma única história marcante para destacar", afirma.
Ao longo de sua trajetória, Jean percebeu que sua maior motivação está em acompanhar a transformação das propriedades e perceber que o conhecimento aplicado à produção pode melhorar também a qualidade de vida das pessoas que vivem da atividade leiteira.
A maior conquista acontece quando o produtor muda sua forma de enxergar o negócio. Para o zootecnista, isso significa compreender que a propriedade precisa ser administrada de maneira integrada, tendo pessoas e processos como pilares para alcançar melhores resultados.
Quando essa visão sistêmica é construída, o produtor deixa de tomar decisões isoladas e passa a administrar a fazenda de forma planejada. Indicadores deixam de ser apenas números e passam a orientar decisões mais conscientes. "O produtor passa a tomar decisões mais conscientes, utiliza os indicadores como ferramenta de gestão, conduz a propriedade com maior autonomia e constrói resultados consistentes e sustentáveis."
É nesse ponto que, para Jean, a consultoria atinge seu verdadeiro propósito. A transformação deixa de estar restrita aos índices produtivos e passa a modificar a maneira como o produtor administra o negócio — refletindo diretamente na qualidade de vida da família e no futuro da atividade.
Entre o custo da ração e o preço do leite, o produtor precisa olhar para o que controla
A realidade da produção leiteira brasileira, na avaliação de Jean, exige cada vez mais capacidade de adaptação, planejamento e eficiência na gestão. Um dos principais desafios está na volatilidade dos custos de produção, especialmente aqueles relacionados à alimentação do rebanho, fertilizantes e demais insumos. No Rio Grande do Sul, esse cenário ainda é influenciado pelas condições climáticas enfrentadas nos últimos anos.
O estado tem convivido com períodos de estiagem severa durante o verão e excesso de chuvas no inverno. As condições comprometem a produção de alimentos para os animais, a qualidade das pastagens, o manejo das lavouras e a própria rotina das fazendas. "Esses fatores afetam a produtividade leiteira independentemente do sistema de produção adotado, seja a pasto ou em confinamento."
Outro desafio está dentro das próprias propriedades: a eficiência produtiva e gerencial ainda é um gargalo para muitos produtores.
Jean observa que decisões baseadas apenas na experiência, sem o apoio de indicadores técnicos e econômicos, dificultam o controle dos custos, a identificação de oportunidades de melhoria e a tomada de decisões mais assertivas.
A escassez de mão de obra qualificada também aumenta a complexidade do cenário. Encontrar e manter profissionais capacitados tornou-se mais difícil, exigindo investimentos em treinamento, organização dos processos e adoção de tecnologias que permitam produzir com maior eficiência. Diante desse cenário, Jean enxerga na profissionalização da gestão uma das principais oportunidades para a atividade leiteira nos próximos anos.
Para ele, o sucesso dependerá cada vez mais de uma gestão integrada, capaz de avaliar conjuntamente produção de alimentos, nutrição, reprodução, sanidade, manejo, pessoas e finanças. O objetivo é buscar equilíbrio entre três pilares: produtividade, rentabilidade e sustentabilidade.
O produtor que evolui aprende a separar o que pode controlar
Se custos, clima e preço do leite desafiam diariamente a atividade, Jean acredita que os produtores que mais evoluem são aqueles que conseguem direcionar energia para aquilo que está efetivamente sob seu controle. "Os produtores que mais evoluem compreendem que existem fatores que estão fora do seu controle, como o preço dos insumos e o valor pago pelo litro de leite."
Em vez de concentrar esforços nessas variáveis, eles trabalham sobre fatores que podem ser modificados dentro da propriedade: eficiência do sistema produtivo, gestão dos custos, produtividade e qualidade do leite. Essa postura está diretamente relacionada à gestão integrada. Jean destaca a interação entre solo, planta, animal e gestão financeira como um dos diferenciais das propriedades que conseguem avançar.
Quando as decisões são tomadas de maneira integrada, é possível utilizar melhor os recursos, reduzir desperdícios e aumentar a rentabilidade.
Os produtores que avançam buscam atualização constante, acompanham novas informações, avaliam tecnologias e práticas capazes de contribuir para a propriedade e valorizam profissionais capacitados como parceiros na tomada de decisões.
Quando qualidade de vida também entra na conta
Na visão de Jean, entretanto, o crescimento não pode ser medido apenas pelo resultado econômico. A organização da rotina, as condições de trabalho e o bem-estar da família e das demais pessoas envolvidas na propriedade também precisam fazer parte da avaliação de sucesso. "O verdadeiro sucesso não deve ser medido apenas pelos resultados econômicos, mas também pela capacidade de proporcionar uma atividade sustentável, que permita conciliar rentabilidade, satisfação no trabalho e qualidade de vida para as pessoas que vivem da produção de leite."
É uma perspectiva que amplia o próprio conceito de eficiência. Uma fazenda pode produzir mais, mas, para Jean, isso não significa necessariamente que esteja evoluindo se o crescimento vier acompanhado de processos desorganizados, excesso de pressão sobre as pessoas ou perda de qualidade de vida.
“Antes de querer ensinar, procure entender”
Para quem está começando na assistência técnica, Jean resume sua principal recomendação em uma frase simples: "Antes de querer ensinar, procure entender." O conselho envolve empatia, respeito e disposição para ouvir o produtor. Cada propriedade tem sua própria realidade, seus objetivos, limitações, pessoas e processos. Por isso, não existem soluções prontas que possam ser aplicadas da mesma maneira em todas as fazendas.
O técnico também precisa desenvolver um olhar sistêmico. Em vez de concentrar sua atenção em um único indicador ou setor, deve compreender como os diferentes componentes da propriedade se relacionam. "Solo, planta, animal, pessoas e gestão estão diretamente conectados, e decisões tomadas em uma área refletem nos resultados das demais."
Essa visão global precisa estar acompanhada de uma metodologia de trabalho sólida, baseada em dados, planejamento e melhoria contínua dos processos.
Para Jean, o técnico deve orientar o produtor na tomada de decisões, promovendo eficiência, sustentabilidade e rentabilidade. Seu papel não é simplesmente recomendar — ou vender — tecnologias e insumos, mas ajudar o produtor a compreender o sistema e tomar melhores decisões.
No fim, existe uma medida de sucesso que vai além do volume produzido. "Mais do que aumentar a produção de leite, uma consultoria de qualidade deve contribuir para construir propriedades mais organizadas, eficientes e sustentáveis", afirma Jean.
O resultado esperado envolve melhores indicadores econômicos, mas principalmente mais qualidade de vida para as famílias que vivem da atividade leiteira.
É essa combinação que, para ele, constrói a confiança: o produtor de leite precisa perceber que o técnico está genuinamente comprometido não apenas com o desempenho da fazenda, mas também com o sucesso do negócio e o bem-estar de sua família.
E talvez esteja justamente aí o maior resultado da assistência técnica: quando o conhecimento deixa de depender exclusivamente do técnico e passa a fazer parte da forma como o próprio produtor pensa, decide e conduz sua propriedade.
Indique um técnico que faz a diferença
O Especial Técnicos nasceu para reconhecer profissionais que ajudam a fortalecer a produção de leite brasileira por meio do conhecimento, da dedicação e da parceria construída diariamente com os produtores.
Conhece um médico-veterinário, zootecnista, agrônomo, pesquisador ou consultor que merece esse reconhecimento? Envie sua indicação para contato@milkpoint.com.br e ajude o MilkPoint a contar histórias de quem transforma a pecuária leiteira brasileira, uma propriedade de cada vez.