A água que a vaca bebe pode influenciar a CCS?

Qualidade da água pode influenciar o consumo, a saúde do rebanho e a CCS, mas ainda é um ponto pouco investigado dentro das propriedades.

Publicado por: MilkPoint

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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A água é um fator crucial na saúde e desempenho de rebanhos leiteiros, mas frequentemente negligenciada. Problemas de contaminação podem ocorrer desde o armazenamento até os bebedouros, afetando a saúde das vacas e a qualidade do leite. O tratamento com dióxido de cloro pode reduzir a carga bacteriana e melhorar a palatabilidade, aumentando o consumo de água e, consequentemente, a produção de leite. A contagem de células somáticas (CCS) é um indicador importante da saúde do rebanho, e a qualidade da água deve ser priorizada pelos produtores.
Quando pensamos nos fatores que influenciam a saúde e o desempenho de um rebanho leiteiro, a água está entre as primeiras coisas que vêm à cabeça? Talvez não. E é justamente aí que pode estar o problema. A vaca não se importa de onde vem a água que bebe. Ela simplesmente sabe quando está com sede. Para o produtor de leite, porém, existe um longo caminho entre o poço e o bebedouro. A água pode ser armazenada em tanques, passar por tubulações antigas e acumular bactérias antes mesmo de chegar aos animais.

Segundo Ben Moitoso, especialista em soluções para fazendas leiteiras da Veterinary Services Inc., a água muitas vezes é esquecida quando surgem problemas relacionados à saúde do rebanho e à qualidade do leite. “Gosto de dizer que a água é o nutriente mais esquecido. Muitas vezes, ela pode ser um grande problema, mas não é discutida com a frequência que deveria”, afirma.

Moitoso trabalha com rebanhos leiteiros em toda a Califórnia e ajuda produtores a avaliar o que acontece dentro dos sistemas de abastecimento. E, segundo ele, o problema nem sempre começa no poço. Muitas vezes, ele aparece no caminho que a água percorre até chegar às vacas.

“A maioria das fazendas envia a água para grandes tanques de armazenamento antes de bombeá-la para as tubulações do sistema de distribuição. Muitas dessas instalações foram construídas há muito tempo e ainda têm tubulações antigas enterradas. Seja armazenada em um tanque ou circulando por canos antigos, a água pode absorver patógenos, coliformes e bactérias. É um ambiente perfeito para o crescimento desses microrganismos.”

Depois, a água chega aos bebedouros, compartilhados diariamente por centenas ou até milhares de animais. “Centenas ou milhares de animais bebem água nesses bebedouros todos os dias. Como consomem grandes volumes, parte da água permanece parada, favorecendo o crescimento de microrganismos. Também há contaminação cruzada. A água pode ficar bastante contaminada nesses pontos”, explica. O resultado é uma exposição contínua do rebanho a essa carga bacteriana, que pode comprometer a saúde dos animais e a eficiência produtiva.

Do biofilme à carga bacteriana

Uma das estratégias utilizadas para reduzir a carga bacteriana nos sistemas de abastecimento é o tratamento da água com dióxido de cloro. “O dióxido de cloro é um oxidante e uma pequena quantidade já é suficiente para eliminar uma grande quantidade de bactérias, especialmente quando elas estão encapsuladas, como acontece dentro de uma tubulação de água. Por isso, ele é muito eficaz para reduzir a carga bacteriana à medida que a água passa pelo sistema.”

O tratamento também pode atuar sobre o biofilme, aquela camada viscosa que se forma no interior das tubulações e ao redor dos bebedouros. “O dióxido de cloro consegue penetrar e eliminar o biofilme, aquele resíduo viscoso que se acumula dentro dos canos ou nas bordas dos tanques. O biofilme nada mais é do que um ambiente que abriga e permite a proliferação de bactérias.”

O dióxido de cloro pode ser gerado na própria fazenda pouco antes de entrar no sistema de água. “Temos clorito de sódio misturado a um ácido. O ácido reduz o pH do clorito de sódio, fazendo com que ele libere dióxido de cloro. Introduzimos o ácido por meio de equipamentos apropriados e geramos o dióxido de cloro no local, pouco antes do ponto de injeção”, explica.

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Em sistemas fechados, concentrações relativamente baixas podem ser suficientes para o tratamento. “Quando tratamos a água em linha, por ser um sistema fechado, o gás não consegue escapar. Precisamos de cerca de 5 ppm para tratar a maioria dos sistemas. Se houver uma grande carga mineral ou bacteriana, podemos ajustar a concentração. Normalmente, porém, 5 ppm são suficientes para sanitizar a água de forma muito eficaz.”

Figura 1

Água mais limpa, menor CCS?

A qualidade da água também pode estar relacionada a indicadores importantes do rebanho. Moitoso participou de um estudo controlado que avaliou os efeitos da água contaminada e posteriormente tratada com dióxido de cloro sobre a contagem de células somáticas (CCS). No experimento, a água inicialmente não tratada recebeu fezes e esterco para simular condições encontradas no ambiente de uma fazenda leiteira. Depois de um período de exposição, essa água foi tratada.

O estudo identificou aumento na CCS dos animais expostos à água contaminada. “Quando os animais bebiam água contaminada, introduziam uma grande quantidade de bactérias no sistema ruminal, e a contagem de células somáticas aumentava. Sentimos que a saúde geral dos animais estava sendo comprometida. Estávamos introduzindo uma grande quantidade de bactérias no organismo e sobrecarregando o sistema imunológico, que precisava combatê-las”, afirma Moitoso.

Quando a água foi tratada, o resultado mudou. “Quando tratamos a água com dióxido de cloro, reduzimos significativamente a carga bacteriana e passamos a oferecer água muito mais limpa aos animais. A contagem de células somáticas diminuiu e, na verdade, chegou a ficar abaixo do nível observado no grupo de controle.”

Para Moitoso, a CCS representa mais do que um indicador da qualidade do leite. O aumento desse índice pode sinalizar que há problemas em outras partes do sistema de produção. “A contagem de células somáticas, especialmente quando começa a subir e atinge determinados níveis, tem grandes implicações para a produção de leite. A maioria das cooperativas prefere que a CCS permaneça abaixo de determinado limite. Quando os níveis aumentam de forma consistente, isso pode começar a afetar o preço recebido pelo produtor.”

Ele também considera a CCS um indicador mais amplo da saúde dos animais. “Na minha opinião, a contagem de células somáticas indica que o animal não está em condições ideais de saúde. Se a CCS está aumentando, alguma coisa está errada nas instalações. Provavelmente existe um problema em algum ponto da operação.”

Nesse contexto, a água é uma das áreas que o produtor pode investigar. “A CCS é um indicador muito importante para o produtor sobre a saúde do rebanho e sobre o que está acontecendo no ambiente da fazenda. Podemos ajudar garantindo que a água não seja uma dessas preocupações.” A CCS e o risco de mastite podem ser as primeiras preocupações associadas à qualidade da água. Mas existe uma questão ainda mais básica: as vacas querem beber a água que está disponível?

Segundo Moitoso, o tratamento pode melhorar características da água que influenciam sua aceitação pelos animais. “O dióxido de cloro torna a água um pouco mais palatável. Ele elimina sabores indesejados, sejam eles provocados por bactérias ou minerais, e também pode melhorar o odor. Normalmente, observamos um aumento no consumo de água quando tratamos a água potável em uma fazenda.”

E mais água consumida pode significar também maior consumo de alimento e, consequentemente, maior produção de leite. “Se estiverem bebendo mais água, os animais vão comer um pouco mais. Esperamos que isso resulte em aumento da produção. Se estiverem bebendo água limpa e tiverem acesso à quantidade que desejarem, teremos um rebanho mais saudável e, com sorte, uma melhora na CCS, menos tratamentos e uma operação mais eficiente.”

A água merece entrar na lista de prioridades?

Moitoso ressalta que o tratamento da água não substitui outras medidas de prevenção. Higiene da sala de ordenha, procedimentos de ordenha e controle das bactérias ambientais continuam sendo fundamentais. “Existem outros fatores na fazenda que podem estar relacionados a níveis elevados de CCS. O protocolo da sala de ordenha é muito importante, e a carga bacteriana nesse ambiente pode levar a problemas como mastite e aumento da CCS.”

Quando a CCS aumenta ou o desempenho do rebanho cai, a água provavelmente não é o primeiro item que vem à cabeça do produtor. Para Moitoso, porém, ela merece estar na lista de pontos a serem investigados. “As medidas preventivas nunca recebem a mesma atenção que uma cura.”

Água limpa pode não ser um fator dramático na sala de ordenha nem aparecer como um item isolado na conta do leite. Mas garantir que as vacas tenham acesso constante a água de boa qualidade significa eliminar uma possível fonte de exposição bacteriana e criar condições para favorecer o consumo de água, a saúde do rebanho e a qualidade do leite.

Afinal, se a água é o nutriente mais esquecido, talvez esteja na hora de colocá-la no centro da conversa.

Artigo escrito por Taylor Leach, traduzido e adaptado pela Equipe MilkPoint. 

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