"Seja como um GPS": a missão do técnico para evitar os buracos no caminho do produtor de leite

Para Ricardo, o papel do técnico é funcionar como uma ponte entre a enorme quantidade de tecnologias disponíveis e aquilo que realmente pode ser aplicado.

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A assistência técnica vai além de fornecer tecnologias, exigindo compreensão das realidades dos produtores. O MilkPoint destaca profissionais que fazem a diferença, como Ricardo dos Santos, médico-veterinário que atua com agricultura familiar. Ele enfatiza a importância da experiência e do planejamento para o crescimento sustentável. Propriedades pequenas podem alcançar grandes resultados, como a Queijaria Elied. A assistência técnica deve promover eficiência, agregar valor e orientar os produtores com empatia e humildade.
A assistência técnica não se resume a levar tecnologias prontas para dentro da propriedade. O verdadeiro desafio está em entender cada realidade, reconhecer os limites e as oportunidades de cada produtor e transformar conhecimento em resultados que façam sentido para aquela família e para aquele negócio.

É justamente para reconhecer profissionais que fazem essa diferença no campo que o MilkPoint criou o Especial Técnicos, série de entrevistas com médicos-veterinários, zootecnistas, agrônomos, pesquisadores e consultores indicados pelos próprios integrantes da cadeia do leite por sua contribuição ao desenvolvimento da atividade.

O entrevistado desta edição é Ricardo dos Santos da Silva, médico-veterinário da CATI Regional Catanduva, em São Paulo, onde atua há 18 anos junto à agricultura familiar.

Figura 1

Para Ricardo, o papel do técnico é funcionar como uma ponte entre a enorme quantidade de tecnologias disponíveis e aquilo que realmente pode ser aplicado em cada propriedade. “O papel do técnico é traduzir as milhares de tecnologias e ferramentas de produção disponíveis para a realidade e capacidade do produtor e da propriedade.”

Na prática, isso significa entender que não existem fórmulas universais. Duas fazendas vizinhas, com acesso às mesmas informações e tecnologias, podem apresentar resultados completamente diferentes. “O bom técnico é aquele que consegue fazer o produtor e a propriedade desempenharem o seu máximo potencial e ter em mente que esse potencial é diferente de um indivíduo para o outro.”

Segundo ele, essa capacidade de interpretar diferentes realidades não é algo que se aprende apenas nas salas de aula. "O tempo e a experiência trarão essa sensibilidade. São conhecimentos tácitos, os quais não são ensinados nas cadeiras das universidades.”

Uma pequena propriedade e grandes conquistas

Ao longo de quase duas décadas trabalhando com agricultura familiar, Ricardo acumulou histórias que ajudam a dimensionar o impacto que pequenos avanços podem ter na vida dos produtores.

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Para ele, as conquistas nem sempre são medidas apenas pelo resultado financeiro. “Aprendi que as conquistas são comemoradas muito mais pelo esforço e dedicação empregados do que pelo resultado financeiro atingido. Por isso, cada vitória tem seu valor para aquela família.”

Entre as situações que marcaram sua trajetória estão produtores que conseguiram aumentar a produção de uma vaca acima da média, famílias que passaram a se sustentar com mais segurança por meio da atividade leiteira e casos em que o produtor recuperou o prazer de trabalhar com leite.

Mas uma experiência recente tem chamado atenção pelo potencial de mostrar o que uma pequena propriedade pode alcançar.

Com cerca de 5 hectares e produção aproximada de 300 litros de leite por dia, uma propriedade atendida pelo CATI Leite desde meados de 2017 vem conquistando reconhecimento nacional pela qualidade dos seus queijos.

A Queijaria Elied, localizada em Urupês (SP), formalizou-se como queijaria SISP Artesanal em 2024 e já acumulou duas medalhas de ouro no Prêmio Queijo Brasil, com os queijos maturados Bambu e Sr. Lori, além de conquistar o terceiro lugar no Prêmio CNA Brasil Artesanal.

Para Ricardo, resultados como esse ajudam a quebrar a ideia de que apenas grandes propriedades podem alcançar excelência. “Essas conquistas nos motivam, pois mostram que mesmo os produtores de agricultura familiar em pequena escala podem atingir resultados fantásticos e ter sucesso com seu trabalho.”

Figura 2

Eficiência, qualidade de vida e agregação de valor

A realidade das propriedades atendidas pela CATI tem uma característica importante: a predominância da agricultura familiar e de sistemas com produção média inferior a 500 litros por dia.

Na visão de Ricardo, essa escala pode proporcionar renda satisfatória e elevado ganho por área quando comparada a outras atividades agrícolas. O desafio, no entanto, está na intensidade da rotina exigida pela produção de leite. “A rotina leiteira exige um compromisso diário intenso, o que traz desafios reais para a qualidade de vida, o descanso dos produtores e o incentivo aos jovens sucessores.”

Quando o produtor decide ampliar a escala, outro desafio ganha força: a necessidade de uma gestão cada vez mais criteriosa, incluindo planejamento e contratação de mão de obra. É nesse contexto que, segundo ele, a extensão rural ganha importância estratégica para o futuro da pecuária leiteira familiar.

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O caminho passa pela busca constante por eficiência, pela melhoria da gestão do tempo e pela agregação de valor ao produto, seja por meio do fornecimento de leite para laticínios regionais ou pela produção artesanal e diferenciada. “O nosso compromisso na CATI é levar inovação e assistência técnica para que o agricultor familiar continue competitivo, sustentável e com qualidade de vida no campo.”

Figura 3

Crescer sem aventuras

Para Ricardo, uma das principais diferenças entre os produtores que conseguem evoluir continuamente e aqueles que enfrentam maiores dificuldades está na forma como conduzem o crescimento da propriedade. “O produtor que se desenvolve em base sólida, com planejamento e sem aventuras, é quem consegue se manter e evoluir na atividade.”

Ele faz um alerta especialmente importante para uma atividade em que muitos investimentos levam tempo para gerar retorno. “Acompanhar modismos e procurar soluções milagrosas são fatais para uma atividade onde os frutos são colhidos a longo prazo.”

Na avaliação do médico-veterinário, o produtor que concentra seus esforços em melhorar continuamente a eficiência da própria propriedade leiteira está mais preparado para enfrentar os ciclos e as oscilações do mercado. “O produtor que foca no seu crescimento e na sua eficiência produtiva consegue sobreviver aos altos e baixos de preços.”

“Seja como um GPS”

Se pudesse deixar uma mensagem para os profissionais que estão começando na assistência técnica, Ricardo começaria por duas palavras: empatia e humildade.

Para ele, o técnico precisa compreender que, na maioria das vezes, os erros cometidos dentro da propriedade não são resultado de falta de interesse ou de vontade do produtor. “Nenhum produtor erra porque quer. Ele só não teve ainda a oportunidade de enxergar a melhor maneira de evitar e solucionar os problemas.”

É justamente aí que Ricardo enxerga uma das principais funções da assistência técnica. “O papel do técnico é esse: iluminar o caminho para que os desafios sejam vistos com maior antecedência.”

Para explicar sua visão, ele recorre a uma metáfora que resume a relação entre técnico e produtor. “Seja como um GPS! Avise sobre os riscos durante o percurso, relembre a necessidade de ligar os faróis, manter a velocidade da via e, ao se deparar com um obstáculo à frente, sugira novas rotas que mudem o percurso, mas preservem o destino.”

Mas, para orientar alguém sobre os caminhos possíveis, o técnico também precisa construir sua própria experiência. “Para que o técnico conheça bem esses trajetos, ele precisa ter muitos quilômetros rodados junto aos produtores, para avisar sobre cada buraco, curva perigosa e risco presente no caminho.”

Depois de 18 anos trabalhando com agricultura familiar, Ricardo dos Santos da Silva segue justamente nessa estrada: ajudando produtores a encontrar soluções compatíveis com suas próprias realidades e mostrando que, independentemente do tamanho da propriedade, conhecimento, planejamento e assistência técnica podem abrir caminhos para resultados que antes pareciam distantes.

Indique um técnico que faz a diferença

O Especial Técnicos nasceu para reconhecer profissionais que ajudam a fortalecer a produção de leite brasileira por meio do conhecimento, da dedicação e da parceria construída diariamente com os produtores.

Conhece um médico-veterinário, zootecnista, agrônomo, pesquisador ou consultor que merece esse reconhecimento? Envie sua indicação para contato@milkpoint.com.br e ajude o MilkPoint a contar histórias de quem transforma a pecuária leiteira brasileira, uma propriedade de cada vez.

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Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

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