É justamente para reconhecer esses profissionais que o MilkPoint criou o Especial Técnicos, série de entrevistas com médicos-veterinários, zootecnistas, agrônomos e consultores indicados pelos próprios integrantes da cadeia de produção de leite por sua contribuição ao desenvolvimento da atividade.
O entrevistado desta edição é Igor de Castro Oliveira Medeiros Neto, médico-veterinário que atua na região do Extremo Sul da Bahia.
Para Igor, o conhecimento técnico é indispensável, mas sozinho não transforma propriedades. Antes de qualquer recomendação, o profissional precisa entender a realidade de quem está do outro lado. "Cada técnico precisa adaptar seu conhecimento ao dia a dia do produtor. Não basta saber a teoria; é preciso entender a propriedade, saber conversar, convencer e mostrar resultados, sempre com embasamento científico", afirma.
Segundo ele, cada fazenda possui limitações, objetivos e ritmos próprios. O papel do técnico é justamente transformar as informações geradas pela pesquisa em soluções que façam sentido para aquela realidade, sem comprometer a confiança construída junto ao produtor.
Igor em visita a uma propriedade leiteira. Fonte: Igor de Castro Oliveira Medeiros Neto
A maior conquista foi conquistar confiança
Com apenas três anos de formado, Igor diz que sua trajetória ainda está no início, mas já coleciona experiências que marcaram sua carreira.
Ele lembra que, nos primeiros atendimentos, enfrentou resistência de muitos produtores, especialmente daqueles com décadas de experiência na atividade leiteira. Aos poucos, porém, o trabalho baseado em resultados foi mudando essa percepção.
Hoje, uma das maiores satisfações é perceber que muitos produtores passaram a enxergar valor na assistência técnica. "Tenho muito orgulho quando um produtor de leite me procura antes mesmo do dia da visita porque está precisando de ajuda. Ver que eles reconhecem a diferença do trabalho, seja na reprodução, na produção ou até no resultado financeiro da propriedade, é muito gratificante."
Para ele, conquistar a confiança de produtores que já possuíam métodos consolidados foi uma das maiores lições desses primeiros anos de profissão e reforçou que credibilidade é construída diariamente.
Tecnologia abre oportunidades, mas o setor ainda enfrenta desafios
Na avaliação do veterinário, dois desafios continuam exigindo atenção da cadeia leiteira.
O primeiro está relacionado à remuneração da atividade. Segundo ele, muitos produtores convivem com margens apertadas e precisam lidar com custos elevados de produção de leite, o que dificulta novos investimentos e compromete a permanência de algumas propriedades no setor.
Outro gargalo importante é a escassez de mão de obra. "Pelo menos na minha região, muitos produtores enfrentam dificuldades para encontrar pessoas para trabalhar nas fazendas. Isso acaba limitando o crescimento de diversas propriedades."
Ao mesmo tempo, Igor acredita que o avanço tecnológico representa uma das maiores oportunidades para os próximos anos.
Na sua visão, ferramentas voltadas à reprodução, nutrição, manejo e automação permitem produzir mais com maior eficiência, reduzindo a necessidade de mão de obra e melhorando tanto a produtividade quanto a qualidade do leite. "A tecnologia está ajudando o produtor a produzir mais, com menos animais e processos cada vez mais eficientes. Isso fortalece a atividade e contribui para sua permanência no campo."
Mente aberta faz toda a diferença
Depois de acompanhar propriedades com diferentes perfis, Igor percebe um comportamento comum entre aqueles que conseguem evoluir continuamente: disposição para aprender e implementar mudanças.
Segundo ele, os produtores de leite que mantêm a mente aberta para novos manejos, tecnologias e atualizações conseguem aproveitar melhor as oportunidades que surgem na atividade. "A nossa área está selecionando produtores que acompanham os avanços tecnológicos. Quem resiste muito às mudanças acaba ficando para trás."
Na avaliação do veterinário, muitas melhorias começam com ajustes simples de manejo, mas exigem disposição para testar novas práticas e acreditar nos resultados que elas podem proporcionar. Já os produtores de leite mais resistentes costumam enxergar essas mudanças com desconfiança e acabam perdendo oportunidades de aumentar a eficiência e a qualidade da produção.
Conhecimento, humildade e atualização constante
Para quem está iniciando na assistência técnica, Igor acredita que uma carreira sólida é construída sobre três pilares: estudo, honestidade e relacionamento.
Ele aconselha os jovens profissionais a não terem receio de admitir quando não souberem determinada resposta. "Não existe problema em dizer ao produtor que você ainda vai pesquisar e estudar aquele assunto. Muito pior é tentar responder algo sem segurança e comprometer a confiança construída."
Outro conselho é compreender que conquistar espaço dentro das propriedades exige paciência. Segundo ele, especialmente entre produtores mais experientes, é natural existir certa resistência inicial à presença de um novo técnico. A confiança surge gradualmente, conforme os resultados aparecem.
Por isso, além de investir em atualização constante, Igor acredita que o profissional precisa desenvolver uma boa comunicação e mostrar, na prática, que o conhecimento técnico pode gerar benefícios reais para cada propriedade.