Especial Técnicos: pesquisador alerta que o campo não cabe na cartilha da universidade

"Estamos lidando, antes de tudo, com pessoas que têm seus anseios, sonhos e dificuldade".

Publicado em: - 5 minutos de leitura

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A assistência técnica na produção de leite deve considerar a realidade dos produtores e suas famílias. O MilkPoint lançou o Especial Técnicos, destacando profissionais que impactam positivamente essa atividade. André Luís Finkler, do IDR-Paraná, enfatiza a importância de entender o lado humano antes de implementar técnicas. Ele participou do Projeto Leite Sudoeste, que melhorou a produtividade em pequenas propriedades. André ressalta a necessidade de melhorar a qualidade do leite e a competitividade do Brasil, além da importância de assistência técnica adaptada à realidade local.
A assistência técnica vai muito além de recomendar manejos, interpretar indicadores ou implantar tecnologias dentro das propriedades. Para gerar transformação duradoura, o primeiro passo é compreender quem está por trás da produção: o produtor, sua família, seus desafios e sua rotina.

É justamente para reconhecer profissionais que fazem essa diferença na produção de leite que o MilkPoint criou o Especial Técnicos, série de entrevistas com médicos-veterinários, zootecnistas, agrônomos, pesquisadores e consultores indicados pelos próprios integrantes da cadeia do leite por sua contribuição ao desenvolvimento da atividade.

O entrevistado desta edição é André Luís Finkler da Silveira, pesquisador do IDR-Paraná (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná), em Pato Branco, onde atua há 18 anos junto a produtores da região Sudoeste do estado.

Para André, um dos maiores desafios da assistência técnica é lembrar que, antes de qualquer decisão produtiva, existe uma realidade humana que precisa ser compreendida. "Estamos lidando, antes de tudo, com pessoas que têm seus anseios, sonhos e dificuldades. O papel do bom técnico é enxergar o lado humano antes mesmo de aplicar as recomendações práticas para simplesmente produzir leite."

Segundo ele, toda orientação técnica altera, de alguma forma, a rotina da propriedade leiteira. Um novo manejo pode representar eficiência, mas também mais trabalho, novos custos ou mudanças importantes na organização da fazenda. "Muitas vezes, o produtor já está desanimado, trabalhando excessivamente. Propor mais tarefas sem critério pode ser justamente o gatilho para o abandono da atividade. Por isso, quem presta assistência técnica precisa ter uma visão ampla e empática."

Figura 1
André Luís Finkler da Silveira

Um projeto que transformou dezenas de propriedades

Entre as experiências mais marcantes da carreira, André destaca sua participação no Projeto Leite Sudoeste, iniciativa do Governo do Paraná voltada ao fortalecimento da agricultura familiar. Segundo ele, um dos maiores gargalos encontrados nas pequenas propriedades era o manejo alimentar dos rebanhos, especialmente a baixa qualidade das pastagens e a deficiência na adubação.

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O município de Sulina tornou-se um dos principais exemplos dos resultados alcançados pelo programa. "Cerca de 70 produtores adotaram tecnologias de adubação e manejo de pastagens, corrigindo uma grave deficiência alimentar dos rebanhos. Isso permitiu alcançar um excelente nível de produtividade e renda."

A transformação foi significativa. Em propriedades de apenas 10 a 20 hectares, que anteriormente produziam entre 200 e 400 litros de leite por dia, muitos produtores conseguiram dobrar a produção e permanecer competitivos na atividade.

Para André, a principal lição deixada pelo projeto é que nenhuma assistência técnica gera resultados de forma isolada. "Prestar assistência técnica de qualidade depende de múltiplos fatores e de uma engrenagem coletiva. É preciso a colaboração de várias entidades para que todos evoluam juntos."

Qualidade do leite e competitividade ainda são grandes desafios

Ao analisar os principais desafios da cadeia leiteira brasileira, André divide a discussão entre aquilo que acontece dentro da porteira e os fatores estruturais do setor. Na produção, ele acredita que ainda existe um grande espaço para melhorar os indicadores de qualidade do leite.

Segundo o pesquisador, reduzir a Contagem Bacteriana Total (CBT) e os níveis de Contagem de Células Somáticas (CCS), por meio de melhores práticas de higiene na ordenha, é um passo essencial para ampliar a competitividade do Brasil. "Precisamos atingir melhores níveis de qualidade para acessar mercados de maior poder aquisitivo e diminuir nossa dependência quase exclusiva do consumo interno."

Ao mesmo tempo, ele afirma que o país precisa reduzir seus custos de produção para tornar as exportações mais competitivas. Na avaliação de André, políticas públicas também têm papel importante nesse processo. "O poder público precisa compreender melhor a dinâmica da cadeia para evitar grandes choques entre oferta e demanda, utilizando instrumentos como compras governamentais e estoques reguladores."

Já olhando para a realidade das pequenas propriedades do Sudoeste do Paraná, André defende que o fortalecimento da assistência técnica pública continua sendo um dos caminhos para impulsionar o desenvolvimento regional. Segundo ele, ainda existe um enorme potencial produtivo e de qualidade a ser explorado.

Informação de qualidade faz diferença dentro da fazenda

Questionado sobre o que diferencia produtores que conseguem evoluir continuamente daqueles que encontram mais dificuldades, André admite que não existe uma fórmula pronta. "Essa é a pergunta do milhão." Mesmo assim, ele identifica alguns padrões. Na sua avaliação, produtores com maior nível de instrução e capacidade de analisar criticamente as informações tendem a tomar decisões mais consistentes ao longo do tempo.

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Segundo André, a cadeia ainda convive com excesso de ofertas de produtos, serviços e tecnologias que nem sempre entregam os benefícios prometidos. "Muitas vezes o produtor divide o dinheiro suado do seu trabalho com inúmeros fornecedores e prestadores de serviço que não entregam o benefício esperado."

Sem referências técnicas independentes, afirma o pesquisador, muitos investimentos acabam sendo feitos por pressão comercial ou por orientações pouco alinhadas às necessidades reais da propriedade.

Ele também chama atenção para a falta de integração entre os diferentes elos da cadeia leiteira. "O produtor muda de comprador por alguns centavos, e alguns técnicos possuem interesses que nem sempre coincidem com os da propriedade." Na visão de André, uma organização cooperativa mais estruturada e baseada em objetivos comuns poderia elevar significativamente o nível da produção regional.

Conhecimento técnico precisa caminhar junto com respeito à realidade

Para os profissionais que estão iniciando na assistência técnica, André faz um alerta: dominar a teoria é importante, mas ela precisa ser adaptada à realidade de cada região.

Segundo ele, muitos recém-formados chegam ao campo tentando reproduzir modelos desenvolvidos para outras condições produtivas. "Muitas empresas desenvolvem pacotes tecnológicos voltados para uma realidade que não condiz com o cenário local. Falta respeito aos fatores climáticos, regionais, tradicionais e culturais de cada bacia leiteira."

Na sua avaliação, tentar encaixar todas as propriedades em um mesmo modelo reduz as chances de sucesso. "O técnico não pode querer engessar o campo para caber na cartilha da universidade ou da empresa à qual está ligado."

Além disso, André lembra que construir credibilidade exige tempo. "A confiança do produtor não se conquista de uma hora para outra, como quem clica em um aplicativo no celular. O processo de extensão rural é lento, exige persistência, presença e muito estudo."

Ele acredita que humildade também faz parte da formação de um bom profissional. "A humildade de assumir um erro e buscar o acerto junto com o produtor é muito mais respeitada no campo do que qualquer postura arrogante."

Ao encerrar a entrevista, André deixa uma reflexão para quem deseja construir uma carreira sólida na assistência técnica. "Estudem a técnica, mas dediquem o mesmo tempo para entender e respeitar as pessoas. O aprendizado é em duas vias: ninguém ensina tudo e ninguém deixa de aprender com os demais."

Indique um técnico que faz a diferença

O Especial Técnicos nasceu para reconhecer profissionais que ajudam a fortalecer a produção de leite brasileira por meio do conhecimento, da dedicação e da parceria construída diariamente com os produtores.

Conhece um médico-veterinário, zootecnista, agrônomo, pesquisador ou consultor que merece esse reconhecimento? Envie sua indicação para contato@milkpoint.com.br e ajude o MilkPoint a contar histórias de quem transforma a pecuária leiteira brasileira, uma propriedade de cada vez.

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Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

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Leandro Ebert
LEANDRO EBERT

JÚLIO DE CASTILHOS - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 03/08/2026

Grande André!

Conhecimento e habilidades técnicas se obtém na universidade e em capacitações constantes.

Empatia e humildade são mais difíceis pro técnico, requerem um esforço mais humano que somos pouco preparados. Tá na hora de olhar mais pra isso.

Um abraço e parabéns!
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