É justamente para reconhecer profissionais que fazem essa diferença no campo que o MilkPoint criou o Especial Técnicos, série de entrevistas com médicos-veterinários, zootecnistas, agrônomos, pesquisadores e consultores indicados pelos próprios integrantes da cadeia do leite por sua contribuição ao desenvolvimento da atividade.
Para o médico-veterinário e consultor Marcus Vinicius Castro Moreira, o bom técnico precisa combinar conhecimento técnico com uma série de habilidades que nem sempre aparecem nos currículos. “O bom técnico deve ter uma visão holística da propriedade e estar conectado ao que está acontecendo em sua região e no mundo.” Mas, para ele, isso não basta.
É preciso ter iniciativa — ou, como define, “sangue nos olhos” — para argumentar com o produtor e com os colaboradores, além de persistência, resiliência e capacidade de comunicação. “Saber ouvir e, por fim, mas não menos importante, ter bom conhecimento técnico.”
Marcus atua como consultor em fazendas leiteiras em diferentes regiões de Minas Gerais, incluindo a Zona da Mata Mineira, Campos das Vertentes, Central Mineira e Vale do Aço. Além da atuação nas propriedades, há 18 anos ele também trabalha na capacitação de estudantes para ingressarem no mercado de trabalho por meio de um programa de estágio.
Ao longo dessa trajetória, acompanhou de perto transformações que considera especialmente gratificantes: produtores que encontraram novos caminhos para crescer e estudantes que chegaram ao estágio com pouca experiência prática e, anos depois, conquistaram espaço no mercado.
De 250 para quase 2 mil litros de leite por dia
Entre as histórias que marcaram sua trajetória como consultor, uma propriedade localizada em Canaã, Minas Gerais, ocupa um lugar especial.
Quando o trabalho de assistência começou, a fazenda produzia cerca de 250 litros de leite por dia. Naquele momento, o produtor havia passado em um concurso público e aguardava ser chamado para assumir o cargo. A atividade leiteira, no entanto, continuou fazendo parte de seus planos.
Ao longo dos anos, foram implantadas algumas tecnologias na propriedade, entre elas a construção de um galpão de compost barn. Dez anos depois, a realidade é bastante diferente: a produção se aproxima dos 2 mil litros de leite por dia, o produtor permaneceu na atividade e, segundo o consultor, está muito satisfeito com a decisão.
A história mostra como transformações construídas ao longo do tempo podem mudar completamente os rumos de uma propriedade. Mas os resultados que mais marcaram sua trajetória não estão apenas dentro das fazendas.
Quando o estágio começa com uma vaca e quatro tetos
Há 18 anos, Marcus também trabalha com a formação de estudantes que se preparam para ingressar no mercado de trabalho. E, nesse processo, acompanhou casos de jovens que chegaram ao estágio com grandes dificuldades práticas. “Muitos deles mal sabiam que a vaca tinha quatro tetos.”
Com orientação, cobrança e apoio, esses estudantes foram construindo conhecimento técnico e desenvolvendo habilidades que vão além do domínio dos conteúdos aprendidos na universidade. Segundo ele, o processo nem sempre aconteceu da mesma forma. Houve momentos em que foram necessárias palavras mais duras. Em outros, o papel foi apoiar e ajudar o estudante a seguir em frente.
O resultado, porém, foi o desenvolvimento técnico e também de importantes soft skills. Hoje, alguns desses profissionais ocupam posições de destaque no mercado e já compartilharam com ele depoimentos sobre a importância que esse período teve em suas trajetórias. “Em ambos os casos foi muito gratificante ver esses resultados.”
A comparação entre a evolução de uma fazenda e a formação de novos profissionais ajuda a explicar uma das características mais importantes da assistência técnica: desenvolvimento não acontece apenas com informação. Exige acompanhamento, persistência, disposição para corrigir rotas e, muitas vezes, coragem para sair da zona de conforto.
Uma pecuária leiteira de muitos Brasis
Ao olhar para os desafios da atividade, Marcus chama atenção para a enorme diversidade da pecuária leiteira brasileira.
De um lado, existem produtores profissionais, com alta inserção de tecnologia. De outro, propriedades que ainda enfrentam dificuldades para garantir sua sobrevivência na atividade. Por isso, os desafios — e também as oportunidades — são bastante diferentes.
Para os produtores de leite maiores e mais tecnificados, ele vê espaço crescente para a inserção da inteligência artificial nas tarefas do dia a dia, para a robotização das atividades e para a certificação em normas internacionais de sustentabilidade. Já entre os produtores com menor nível tecnológico, muitos dos desafios não são novos.
Estão entre eles a adequação da qualidade do leite, a implementação de boas práticas na fazenda, as dificuldades relacionadas à mão de obra e o preço recebido pelo produtor. Mas, acima de tudo, ele destaca a necessidade de avançar na eficiência produtiva e econômica. E é justamente nesse ponto que também estão algumas das maiores oportunidades.
O caminho passa pela incorporação de tecnologias que facilitem o manejo das fazendas leiteiras — desde a mecanização até melhorias no layout das propriedades — e pela busca de alternativas para garantir mão de obra no campo. “Conseguir fixar as pessoas no campo para termos mais mão de obra ou até mesmo trazer essas pessoas de outros países.”
Conhecer o problema não é o mesmo que querer mudá-lo
Para o consultor, uma das principais diferenças entre os produtores que conseguem evoluir e aqueles que permanecem enfrentando os mesmos obstáculos está na visão de mundo e de negócio. Ele conta que conhece muitos produtores que sabem exatamente quais são seus problemas. São dificuldades que aparecem repetidamente nas conversas e nas visitas à propriedade.
O problema é que reconhecer uma situação não significa, necessariamente, estar disposto a mudá-la. “Tenho contato com muitos produtores que conhecem seus problemas, reclamam deles todo mês comigo, mas são incapazes de tentar mudar.” Na avaliação dele, o medo tem um papel importante nesse processo.
Medo da mudança, medo dos novos problemas que podem surgir e medo de abandonar práticas já conhecidas. E essa insegurança pode acabar paralisando a evolução da propriedade. “Esses produtores cometem o maior erro, que é fazer a mesma coisa e esperar resultado diferente.”
Em vez de buscar alternativas dentro da própria fazenda, alguns acabam depositando suas expectativas em fatores externos.
Esperam uma melhora no preço do leite ou acreditam que a chuva virá mais cedo e, por isso, não será necessário ampliar a área de plantio, por exemplo. Para Marcus, essa postura impede que muitos produtores avancem.
Conhecer os problemas é importante, mas não basta. É preciso estar disposto a tomar decisões e enfrentar os novos desafios que inevitavelmente acompanham qualquer processo de mudança.
Não chore junto com o produtor
Ao deixar uma mensagem para os profissionais que estão começando na assistência técnica, Marcus reúne alguns pontos que considera fundamentais para uma trajetória consistente. O primeiro deles é a preparação. “Busque conhecimento.”
Mas ele ressalta que o conhecimento técnico, sozinho, não é suficiente. É preciso também estar preparado mentalmente, desenvolver inteligência emocional, construir uma boa rede de contatos e aprender a lidar com as dificuldades que fazem parte da profissão. “Faça bastante network e seja resiliente.”
Na visão dele, um dos riscos para os técnicos que atuam em regiões mais desafiadoras e com menor nível tecnológico é acabar absorvendo completamente a realidade que encontram no campo. Há profissionais extremamente competentes que, diante das dificuldades enfrentadas pelos produtores, acabam se deixando levar pelos próprios problemas da região.
E é aí que ele faz um alerta. “Como muitas vezes dizemos, acabam ‘chorando junto do produtor’ e se esquecem de apontar soluções, se afundando nos problemas.” A frase resume uma visão bastante clara sobre o papel do técnico.
Ter empatia não significa apenas compreender as dificuldades do produtor de leite ou compartilhar suas frustrações. O profissional também precisa ser capaz de manter uma visão de futuro, identificar oportunidades e ajudar a construir alternativas. Mesmo quando o cenário é difícil.
Para Marcus, o bom técnico precisa enxergar a propriedade de forma holística, estar atento ao que acontece dentro e fora da fazenda, saber ouvir, comunicar-se bem e ter persistência para defender suas ideias. Mas também precisa ter iniciativa. Ou, em suas próprias palavras, “sangue nos olhos”.
Porque, em uma atividade tão diversa quanto a pecuária leiteira brasileira, talvez uma das maiores contribuições da assistência técnica seja justamente essa: ajudar produtores a não ficarem paralisados diante dos problemas e transformar conhecimento em decisões capazes de construir novos caminhos.
Indique um técnico que faz a diferença
O Especial Técnicos nasceu para reconhecer profissionais que ajudam a fortalecer a produção de leite brasileira por meio do conhecimento, da dedicação e da parceria construída diariamente com os produtores.
Conhece um médico-veterinário, zootecnista, agrônomo, pesquisador ou consultor que merece esse reconhecimento? Envie sua indicação para contato@milkpoint.com.br e ajude o MilkPoint a contar histórias de quem transforma a pecuária leiteira brasileira, uma propriedade de cada vez.
Vale a pena ler também:
"Seja como um GPS": a missão do técnico para evitar os buracos no caminho do produtor de leite