Essa pergunta parece simples. Mas ela muda a forma como devemos olhar para uma bezerra com doença respiratória. Porque diagnosticar uma doença é uma coisa. Avaliar o paciente que precisa se recuperar dela é outra. E talvez seja justamente nesse intervalo que algumas decisões de campo estejam sendo perdidas.
O diagnóstico começa no pulmão. A avaliação não termina nele.
Quando encontramos uma bezerra com sinais respiratórios, é natural concentrar a atenção no pulmão. Temperatura. Tosse. Secreção nasal. Esforço respiratório. Auscultação. Escore clínico. Quando disponível, ultrassonografia torácica. Tudo isso importa. E importa ainda mais porque a avaliação clínica isolada pode não identificar todas as alterações pulmonares. Em um estudo com 106 bezerras leiteiras pré-desmamadas, a ultrassonografia identificou consolidação pulmonar em 56 animais, enquanto a auscultação apresentou baixa sensibilidade para detectar essas lesões (Buczinski et al., 2014). Ou seja: olhar para o pulmão é indispensável. Mas existe uma segunda pergunta que não pode ser esquecida: como está essa bezerra?
- Ela está ingerindo leite?
- Está bebendo água?
- Está alerta?
- Consegue permanecer em estação?
- Tem reflexo de sucção?
- Como estão as mucosas?
- Há sinais compatíveis com desidratação?
Porque a doença pode estar no pulmão. Mas a recuperação depende do animal inteiro.
Quando a entrada diminui, as necessidades continuam
Uma bezerra doente pode reduzir a ingestão de leite e água. Ao mesmo tempo, continua apresentando suas necessidades fisiológicas. Pode estar febril, deprimida e gastando mais energia para enfrentar a doença. A entrada diminui. As necessidades continuam. E o equilíbrio pode começar a mudar. Na diarreia, a perda de líquidos é evidente e, por isso, a hidratação costuma entrar naturalmente na avaliação.
Na doença respiratória, o raciocínio pode ser diferente. Às vezes não existe uma perda evidente. Existe uma bezerra que parou de beber, que mama menos, que permanece abatida e que não recupera sua condição. É nesse momento que perguntas simples podem mudar a avaliação: quanto essa bezerra está ingerindo? E há quanto tempo isso mudou?
Beber menos não é o mesmo que estar desidratada
Essa distinção precisa ser muito clara. Redução da ingestão não é sinônimo de desidratação. Uma bezerra pode estar hidratada e ter reduzido o consumo. Pode estar começando a desenvolver um déficit hídrico. Pode apresentar algum grau de desidratação e ainda manter o reflexo de sucção. Ou pode estar tão deprimida que já não consegue mamar adequadamente.
São situações diferentes. E situações diferentes exigem decisões diferentes. Por isso, observar a ingestão é importante, mas não substitui a avaliação clínica da hidratação. A avaliação pode começar com recursos simples: aspecto dos olhos; enoftalmia; elasticidade da pele e tempo de retorno da prega cutânea; tempo de preenchimento capilar; aspecto das mucosas; estado mental; capacidade de permanecer em estação; reflexo de sucção e histórico recente de ingestão de leite e água.
Em um estudo experimental com 11 bezerras leiteiras saudáveis de quatro dias de idade, a privação de alimento e água por 24 horas reduziu a água corporal em média 8,4%. Tempos de retorno da prega cutânea e de preenchimento capilar iguais ou superiores a três segundos, além de enoftalmia detectável, estiveram associados a menor hidratação (Kells et al., 2020).
Mas existe um cuidado importante: esses sinais não devem ser transformados isoladamente em uma porcentagem exata de desidratação, nem esse estudo experimental deve ser confundido com uma bezerra doente em condições de campo. O valor está em usar diferentes informações para construir uma avaliação melhor do paciente.
E se a ingestão cair antes de a desidratação ficar evidente?
Essa é uma das perguntas mais interessantes que a literatura recente começa a levantar. Um estudo publicado em 2026 acompanhou automaticamente o consumo de água de bovinos de corte durante a adaptação ao confinamento e observou que animais que desenvolveram doença respiratória apresentaram menor consumo de água (Magrin et al., 2026). Mas atenção ao contexto. Eram bovinos de corte em adaptação ao confinamento. Não eram bezerras leiteiras. Portanto, não podemos simplesmente transportar aqueles números para outro sistema.
O que podemos aproveitar é a pergunta: e se o consumo de água também for uma informação de saúde? Talvez a água não seja apenas um recurso disponível no bebedouro. Talvez o comportamento de beber também conte uma história sobre o animal.
Quando a ciência encontra o paciente
Aqui surge uma informação especialmente interessante. Em 2025, Miró, Fraile e Armengol avaliaram 130 bezerros com doença respiratória bovina clínica. Os animais receberam tratamento convencional e foram distribuídos aleatoriamente entre um grupo que recebeu também hidratação oral e outro que não recebeu essa terapia adicional. No grupo hidratado, a hidratação oral foi fornecida em volume equivalente a 7% do peso corporal durante cinco dias.
Após quatro dias, os animais hidratados apresentaram menor escore clínico. Também não houve casos classificados como crônicos nesse grupo, enquanto casos crônicos ocorreram no grupo que não recebeu a hidratação adicional. O grupo hidratado também apresentou maior ganho médio diário ao longo do período avaliado (Miró et al., 2025). O resultado chama atenção.
Mas a interpretação precisa ser tão importante quanto o resultado. O estudo não demonstrou que hidratação cura pneumonia. Também não demonstrou que toda bezerra leiteira com doença respiratória deva receber automaticamente 7% do peso vivo em hidratação oral por cinco dias. Os animais eram bezerros cruzados, em sistema de engorda, e o protocolo fazia parte de um tratamento específico estudado naquele contexto. O que o trabalho acrescenta é uma hipótese relevante: em determinadas condições, o suporte hídrico pode contribuir para a recuperação de animais com doença respiratória. Isso é diferente de dizer que hidratação substitui o tratamento da doença.
Tratar a doença e cuidar do paciente são decisões diferentes
Quando existe indicação de tratamento antimicrobiano, ele continua tendo sua função. Quando existe indicação de anti-inflamatório, ele continua fazendo parte da estratégia terapêutica. A hidratação não substitui essas medidas. Ela responde a outra pergunta: o que esse paciente precisa para conseguir atravessar a doença? Essa distinção é fundamental.
Podemos acertar o diagnóstico e ainda assim deixar de avaliar uma parte importante do paciente. Podemos acertar o tratamento e não perceber que o animal praticamente não está ingerindo. Podemos observar melhora da tosse e não perceber que a bezerra ainda não voltou a beber ou mamar. O sucesso do tratamento não deveria ser medido apenas pelo desaparecimento do sinal que nos levou ao diagnóstico.
Antes de trocar o tratamento, olhe novamente para o paciente
Quando uma doença respiratória não evolui como esperado, é natural revisar: o diagnóstico; o agente envolvido; a escolha do antimicrobiano; a possibilidade de resistência; o momento do tratamento; a extensão das lesões; a possibilidade de reinfecção; o ambiente e o manejo. Tudo isso deve ser revisado. Mas existe uma pergunta que merece entrar nessa revisão: como está o paciente? Quanto está ingerindo? Está bebendo? Como está a hidratação? Consegue mamar? Permanece em estação? Está em alerta? Existe outra condição comprometendo a recuperação?
Essas perguntas não substituem o diagnóstico da doença respiratória em bezerras leiteiras. Elas completam a avaliação clínica do paciente. E quando várias bezerras estão bebendo menos? Nesse momento, o raciocínio muda novamente. Uma bezerra que bebe pouco pode ter um problema individual. Várias bezerras bebendo menos podem estar mostrando um problema do sistema. É preciso olhar para:
• disponibilidade de água;
• qualidade da água;
• acesso ao bebedouro;
• limpeza;
• vazão;
• competição;
• temperatura;
• alimentação;
• densidade;
• ventilação;
• histórico recente de doença.
A água pode estar disponível e, ainda assim, não estar sendo efetivamente consumida. Por isso, a pergunta “tem água no bebedouro?” não responde necessariamente se “os animais estão bebendo o que precisam?” Essa diferença parece pequena. No campo, ela pode ser enorme.
Um novo hábito para a próxima bezerra com doença respiratória
Talvez não seja necessário criar mais um protocolo. Talvez seja necessário acrescentar algumas perguntas ao protocolo que já existe.
1. Avalie a doença. Confirme a hipótese e avalie a gravidade do quadro.
2. Avalie a ingestão. Quanto está ingerindo de leite e água? Houve queda? Quando começou?
3. Avalie a hidratação. Observe olhos, mucosas, prega cutânea, preenchimento capilar e estado geral. Não transforme um único sinal em diagnóstico.
4. Avalie a capacidade de receber suporte. Está alerta? Permanece em estação? Tem reflexo de sucção? Consegue receber alimento, água ou terapia por via adequada?
5. Procure outros problemas. A doença respiratória pode não ser a única condição presente.
6. Reavalie. Não pergunte apenas se a tosse melhorou. Pergunte também se voltou a beber, mamar, interagir e recuperar condição.
O tratamento termina quando a doença melhora?
Talvez não. Uma bezerra leiteira que permanece doente pode perder crescimento, permanecer mais tempo em tratamento, exigir novas intervenções e aumentar os custos da criação. O estudo de 2025 é interessante justamente porque não avaliou apenas o escore clínico. Também encontrou diferenças de desempenho entre os grupos, mostrando que a recuperação clínica e o desempenho produtivo podem estar conectados (Miró et al., 2025). Isso nos leva a uma mudança importante de perspectiva. Talvez seja insuficiente perguntar: “parou de tossir?” “baixou a febre?”. Precisamos perguntar também: “ela voltou a funcionar como animal?”
A pergunta que vale levar para o campo
Ainda não sabemos se a desidratação é causa dos casos crônicos de doença respiratória. Não sabemos se toda bezerra com doença respiratória se beneficia da mesma estratégia de hidratação. E não devemos transformar um único estudo em uma recomendação universal. Mas sabemos algo mais simples: avaliar hidratação não significa necessariamente fazer fluidoterapia. Avaliar a ingestão não significa diagnosticar desidratação e diagnosticar uma doença respiratória não significa que terminamos de avaliar a bezerra.
Na próxima vez que uma bezerra apresentar doença respiratória, olhe para o pulmão...
Mas olhe também para o animal. Veja se ela mama. Observe se bebe. Avalie a sua hidratação. Observe o seu estado geral. Reavalie a sua evolução. E, se várias bezerras leiteiras apresentarem o mesmo comportamento, olhe além delas. Olhe para a água. Para o ambiente. Para o manejo. Para o sistema. Porque alguns casos que chamamos de “difíceis” realmente podem ser casos de doença grave. Mas, em outros, talvez estejamos tratando corretamente a doença e prestando pouca atenção às condições do paciente que precisa vencê-la.
A doença explica o que está acontecendo. A avaliação do paciente ajuda a entender o que ele precisa para se recuperar. Não basta perguntar o que a bezerra tem. Precisamos perguntar como ela está.
Referências bibliográficas
1. MIRÓ, J.; FRAILE, L.; ARMENGOL, R. Oral hydration is an effective adjuvant treatment for bovine respiratory disease. Frontiers in Veterinary Science, v. 12, 1541853, 2025. DOI: 10.3389/fvets.2025.1541853.
2. MAGRIN, L.; DANTE, S.; CONTIERO, B.; SERVA, L.; GOTTARDO, F.; COZZI, G. When beef cattle drink less: Automated water intake monitoring as an early warning for respiratory disease during the adaptation period at the fattening unit. Preventive Veterinary Medicine, v. 247, 106772, 2026. DOI: 10.1016/j.prevetmed.2025.106772.
3. KELLS, N. J.; BEAUSOLEIL, N. J.; JOHNSON, C. B.; CHAMBERS, J. P.; O'CONNOR, C.; WEBSTER, J.; LAVEN, R.; COGGER, N. Indicators of dehydration in healthy 4- to 5-day-old dairy calves deprived of feed and water for 24 hours. Journal of Dairy Science, v. 103, n. 12, p. 11820–11832, 2020. DOI: 10.3168/jds.2020-18743.
4. BUCZINSKI, S.; FORTÉ, G.; FRANCOZ, D.; BÉLANGER, A.-M. Comparison of thoracic auscultation, clinical score, and ultrasonography as indicators of bovine respiratory disease in preweaned dairy calves. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 28, n. 1, p. 234–242, 2014. DOI: 10.1111/jvim.12251.