A raça Sindi (figura 1), originária do Paquistão, selecionada no deserto de Sind, chegou oficialmente ao Brasil na década de 1950 apresentando bastante rusticidade e tolerância ao calor. Apresenta elevada rusticidade, tolerância às altas temperaturas e boa resistência a parasitas externos, características importantes para sistemas produtivos em ambientes adversos. demonstrando alta adaptabilidade aos fatores climáticos comuns no semiárido. Apresenta dupla aptidão, tanto para leite quanto para corte, demonstrando elevado rendimento para a produção leiteira (Santos, 2011).
Dessa forma, a utilização dessa raça representa uma alternativa estratégica para os sistemas de produção leiteira no semiárido, especialmente por sua capacidade de manter níveis produtivos satisfatórios mesmo em condições de estresse térmico, escassez hídrica e limitações alimentares. A raça Sindi contribui para um sistema mais resiliente no semiárido, e a industrialização do leite em queijo permite capturar valor, melhorar a rentabilidade e reduzir dependência da venda de matéria-prima. Em outras palavras, o Sindi ajuda na base produtiva, enquanto o queijo ajuda na monetização desse leite com maior retorno por unidade produzida.
Figura 1. A raça Sindi. Fonte: Benevenuto (2024). Associação Brasileira do Criadores de Sindi (ABC Sindi).
Para melhorar a valorização do leite, uma das alternativas adotadas pelos produtores é a transformação do produto em derivados, como por exemplo, o queijo, o que constitui uma importante estratégia de agregação de valor à produção, permitindo maior aproveitamento da matéria-prima, aumento da vida útil do produto e ampliação da rentabilidade da atividade. Nesse contexto, a produção de queijos artesanais e regionais pode contribuir significativamente para o fortalecimento da agricultura familiar e para a melhoria da renda dos produtores rurais do semiárido.
Desafios da pecuária no semiárido
As condições climáticas no semiárido brasileiro impõem grandes desafios e limitações à pecuária leiteira. Caracteriza-se por apresentar clima quente e seco, com elevadas temperaturas ao longo do ano, baixos índices pluviométricos e distribuição irregular das chuvas. A precipitação anual é concentrada em poucos meses, alternando períodos curtos de chuva com longos intervalos de estiagem, o que favorece a ocorrência frequente de secas prolongadas. Além disso, a elevada taxa de evapotranspiração contribui para a redução da disponibilidade hídrica, tornando a produção agropecuária dependente de estratégias que incluem manejo adequado dos recursos naturais.
Os solos predominantes na região semiárida, em geral, apresentam baixa fertilidade natural, reduzido teor de matéria orgânica e limitações quanto à retenção de água, fatores que dificultam o desenvolvimento de pastagens durante os períodos secos. Em algumas áreas, também podem ocorrer problemas relacionados à salinização e à compactação do solo, comprometendo ainda mais a produtividade forrageira.
O estresse térmico provocado pelas altas temperaturas pode reduzir o consumo alimentar dos animais, comprometer o desempenho reprodutivo e diminuir a produção de leite. Além disso, a sazonalidade na oferta de forragem durante os períodos de seca exige a adoção de práticas de manejo nutricional e armazenamento de alimentos.
A baixa fertilidade do solo aliada a escassez hídrica comprometem a produção e disponibilidade de forragem aos animais, os expondo a uma restrição alimentar prolongada durante a seca, e esses fatores associados ao estresse térmico causam uma queda drástica de produção. Diante desse cenário, a escolha de uma raça que se adapte bem a esse clima e tenha uma maior eficiência produtiva é crucial para determinar a viabilidade da pecuária leiteira e a lucratividade do produtor (EMBRAPA, 2025).
A presença da raça Sindi no semiárido
Raças zebuínas são reconhecidas principalmente por sua rusticidade e resistência ao calor, dessa maneira se enquadram no clima do semiárido. Mas, além disso, a linhagem Sindi apresenta porte médio, alta eficiência alimentar, baixa exigência nutricional, precocidade e bom desempenho produtivo, revelando-se ideal para regiões com água e alimento escassos. Além disso, apresenta temperamento mais dócil quando comparada a outras raças zebuínas, tornando o manejo mais fácil, seguro e produtivo (Chagas, 2024). Por esses fatores, tornou-se uma escolha popular para produtores de gado leiteiro nesta região.
Um estudo realizado pelo Centro de Saúde e Tecnologia Rural da Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba, avaliou fêmeas da raça Sindi com o propósito de analisar parâmetros fisiológicos e a capacidade de tolerância ao calor em condições típicas do semiárido. Mesmo sob temperaturas elevadas e índices de estresse térmico considerados altos, os animais mantiveram os parâmetros fisiológicos e hematológicos dentro da normalidade para os bovinos.
Além disso, o elevado índice de tolerância ao calor observado demonstrou a expressiva capacidade adaptativa da raça frente às condições climáticas adversas da região. Esses resultados reforçaram que a raça Sindi apresenta elevada rusticidade e eficiente adaptação ao ambiente semiárido, evidenciando seu potencial para sistemas de produção em regiões de clima quente e seco (Souza et al., 2007).
No semiárido brasileiro, diferentes instituições e criadores têm desempenhado papel importante na preservação e no melhoramento da raça Sindi. A Embrapa Semiárido (https://www.embrapa.br/semiarido) mantém, em Petrolina-PE, o Núcleo de Conservação Felisberto Camargo, composto por animais registrados como Puro de Origem (PO) pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, com o objetivo de preservar as características genéticas originais da importação realizada em 1952.
Na Bahia, o grupo Bahia Red Sindhi (https://www.bahiaredsindhi.com/) atua na seleção e comercialização de animais oriundos de linhagens nordestinas, priorizando características relacionadas à dupla aptidão e à adaptação em sistemas de criação a campo. Com a valorização de raças adaptadas ao calor e à seca, o trabalho da Bahia Red Sindhi reforça a importância do zebu leiteiro na matriz produtiva da região. A entidade ajuda a consolidar a raça como alternativa viável à pecuária de corte predominante, favorecendo a diversificação econômica rural e a segurança alimentar regional.
No Rio Grande do Norte, o criatório Sindi OCP, localizado na Fazenda Cacimba de Baixo e conduzido por Orlando Procópio, vinculado à Associação Brasileira de Criadores de Sindi (https://sindi.org.br/), desenvolve trabalhos voltados à seleção de animais adaptados às condições do semiárido. A associação surgiu da iniciativa de criadores interessados em consolidar a raça Sindi como alternativa produtiva para regiões de clima árido e semiárido. Desde então, a associação trabalha na organização de registros genealógicos, avaliação de desempenho zootécnico e integração dos produtores. Seu objetivo é garantir a pureza racial e estimular a adoção de práticas de manejo e seleção que aumentem a eficiência produtiva.
Além disso, produtores da região de Bom Jesus, entre Paraíba e Rio Grande do Norte, utilizam a raça Sindi em sistemas produtivos com menor dependência de suplementação intensiva, valorizando especialmente sua rusticidade e resistência aos períodos de estiagem.
Produção de leite e queijo da raça Sindi
Um estudo realizado no Centro de Tecnologia para Raças Zebuínas Leiteiras (CTZL), da Embrapa Cerrados, Brasília, DF, registrou vacas Sindi P.O com média de 6 kg/dia na lactação, 9 kg/dia no pico e lactação média de 236 dias, mostrando que a raça pode sustentar produção leiteira em condições adversas (De Melo et al., 2025). Isso é relevante porque, em ambientes mais secos, a capacidade de produzir com menos insumos ajuda a reduzir custo e dá mais espaço para transformar o leite em derivados com maior margem .
A indústria de laticínios no Brasil desempenha um grande papel na economia, contribuindo para geração de empregos e para produção de alimentos. Dentre os principais produtos lácteos, destaca-se o queijo, que contribui para o aumento da vida útil do leite, além de agregar mais valor a este produto (Sene et al., 2018).
A agregação de valor ao leite por meio da sua transformação em queijo constitui uma estratégia relevante para o aumento da rentabilidade na atividade leiteira, especialmente em sistemas voltados à agricultura familiar e a regiões com restrições climáticas e econômicas. Em vez de comercializar apenas a matéria-prima, o produtor passa a ofertar um alimento processado, de maior valor agregado, ampliando a margem de lucro por unidade de leite utilizada e reduzindo a dependência das oscilações de preço do leite in natura.
No Nordeste, a produção de queijo coalho é uma cultura bastante popular, visto que essa atividade desempenha uma importante atividade econômica, por ser fonte de renda de pequenos e médios produtores (Lima, 2024). Aproximadamente 50% do leite produzido no Ceará é destinado à produção de queijo coalho (Cavalcante, 2017). Esse dado demonstra que há necessidade de inserir uma raça de bovino que se adapte bem a região e que o leite seja apropriado para a produção de queijo coalho, ou seja, tenha uma quantidade superior de proteína e gordura em sua constituição quando comparada com outras raças.
A produção de queijo coalho está diretamente relacionada à composição físico-química do leite, ou seja, aos teores de gordura, proteína e sólidos totais. Durante o processo de fabricação do queijo ocorre a coagulação, processo responsável por aglomerar a caseína, principal proteína presente no leite, além da gordura e dos sólidos totais. A matriz do queijo vai ser formada por esses componentes. Portanto, uma raça bovina que apresente altas concentrações desses constituintes apresentará maior rendimento “em quilos de queijo por litro de leite”, o que demonstra maior economia e rentabilidade ao produtor (Negrão et al., 2024).
A raça Sindi se destaca quando comparada com as raças Gir e Guzerá (Tabela 1) por apresentar maiores teores de gordura e proteína no leite, o que consequentemente trará aumento no rendimento e na qualidade do queijo, contribuído diretamente para os melhores resultados do queijo oriundo da raça Sindi e maior faturamento pelo produtor (Oliveira et al., 2021).
Tabela 1: teores de gordura, proteína e rendimento do leite das raças Sindi, Guzerá e Gir. Fonte: Adaptado de Oliveira et al. (2021).
|
Raça |
Gordura do leite (%) |
Proteína do leite (%) |
Rendimento (g/L) |
|---|---|---|---|
|
Sindi |
5,35 |
3,16 |
93,68 |
|
Guzerá |
5,14 |
3,12 |
82,25 |
|
Gir |
4,81 |
3,13 |
83,33 |
Oliveira et al. (2021) ainda evidenciaram que o queijo coalho oriundo da raça Sindi além de obter o maior rendimento em queijo (93,68 g de sólidos totais por litro de leite), superior às demais raças, devido à maior concentração de sólidos totais presente no seu leite, também apresentou maiores percentuais de gordura (32,23%) e sólidos totais (58,78%) em comparação às raças Guzerá e Gir.
No primeiro dia de armazenamento, os queijos das diferentes raças foram similares em aparência, aroma e sabor, sendo bem aceitos pelos avaliadores. Contudo, ao longo do tempo, a textura do queijo Sindi obteve menor aceitação sensorial aos 46 dias de armazenamento em comparação ao queijo Guzerá. Isso é atribuído ao maior teor de gordura do queijo Sindi, que tende a torná-lo mais macio e menos consistente, característica menos valorizada no coalho, que é tipicamente firme e elástico.
Esses resultados reforçam o potencial genético da raça Sindi para sistemas de produção leiteira, evidenciando não apenas sua adaptação às condições adversas do semiárido, mas também sua capacidade de produzir leite de elevada qualidade tecnológica e nutricional.
Considerações finais
As condições do semiárido brasileiro impõem desafios à produção leiteira devido a baixa pluviosidade e consequentemente à limitação de forragens. Nesse cenário, a raça Sindi se destaca como uma alternativa eficiente, devido a sua rusticidade, adaptabilidade e boa capacidade produtiva.
Além disso, a produção de queijo aumenta a rentabilidade, agregando valor ao leite. A composição do leite da raça em destaque se mostra com bons teores de gordura e proteína, o que favorece um maior rendimento na produção de queijo e, se destaca como promissora para a produção de queijo coalho.
Portanto, a raça Sindi apresenta um ótimo potencial para a produção de queijo no semiárido, trazendo sustentabilidade e viabilidade econômica ao produtor.
Autores:
Carolina Emiliano Bastos Polido; Willyan Freitas Martins: discentes do curso de Medicina Veterinária, UFRRJ, Membros LiBovis.
Ana Paula Lopes Marques: orientadora, LiBovis – UFRRJ.
Referências bibliográficas
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