Além da regra 3:1: uso inteligente da ração em sistemas a pasto

Veja como calibrar a quantidade de ração para vacas leiteiras e usar o pasto de forma inteligente, aumentando produção e reduzindo custos.

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A questão da alimentação de vacas leiteiras a pasto ou no cocho gera discussões apaixonadas mesmo nos técnicos que trabalham com este tema. Há experiências fantásticas na produção de leite nos dois principais modelos de produção: confinado e pastoril. Ocorre que pode haver diferentes vertentes técnicas, provenientes de diferenças da fonte de conhecimento que estes beberam. Em geral, não há diálogo entre as disciplinas de forragicultura e bovinocultura de leite nas academias. 

Com isso, ao se especializar em produção de leite, grande parte dos profissionais acaba aprendendo técnicas que se originaram do sistema dominante na América do Norte, onde por características de clima e dentre outras, acaba sendo fortemente baseada em uso de silagens, outras forragens conservadas e utilização de concentrados.

Enquanto isso, dos técnicos que defendem sistemas a pasto, há forte influência da Nova Zelândia, onde a disponibilidade de farelos e grãos é bastante limitada e onerosa e com isso, o uso de concentrado é pouco significativo.

E, assim, começam as surgir as verdades indiscutíveis nos dois “times” como: “vaca a pasto não produz bem” e “vaca no pasto não pode comer ração que é cara”. Mas, perceba que, as experiências da América do Norte ou Oceania são sim grandes referências, com conhecimentos indiscutíveis sobre seus sistemas de produção, mas ambas estão em um contexto completamente diferente do Brasil e suas diversidades regionais.

Em boa parte do Brasil há uma condição excepcional para produção de pasto de qualidade e quantidade praticamente o ano inteiro, com luminosidade e chuvas. Ao mesmo tempo, somos grandes produtores de grãos e temos pequenas propriedades em que o capital a ser investido ou a mão de obra para produzir leite a partir de animais confinados pode ser inviável. 

Nesta condição mais favorável que muitos produtores se encontram, por exemplo na chamada Meia Lua do Leite que compreende as regiões Oeste e Sudoeste do Paraná, Oeste de Santa Catarina e Noroeste do Rio Grande do Sul, sendo responsável por aproximadamente 20% do leite nacional. Os 3 Estados do sul, juntos formam a maior região produtora de leite do Brasil, com base em dados de 2021, conforme dados do Anuário do Leite da Embrapa (2024).

Ainda, nas demais regiões, a luminosidade e as temperaturas favorecem a produção de forragem o ano todo, sendo que, a limitação passa a ser hídrica pela ocorrência de uma estação seca e, nesses casos, o potencial de produção é alto na estação das chuvas e, com uso de irrigação, o ano todo. Condições todas bem diferentes daquelas encontradas nas principais referências usadas pra sistemas a pasto ou confinados, citadas anteriormente.

 

Vaca a pasto produz pouco leite? A ração é proibitiva porque aumenta os custos? 

Estas questões são levantadas com frequência por diversos produtores e técnicos. Neste ponto é preciso estabelecer as principais questões que definem o processo. Dentre elas o potencial da vaca, o potencial do pasto e a relação de troca entre “ração” e leite.

Gráfico 1. Relação de troca: kg de milho ou soja comprados com um litro de leite (Paraná) de 2004 a 2024.

relação de troca

 

O gráfico acima demonstra no estado do Paraná (que são semelhantes ao RS e SC), durante 20 anos, a quantidade de milho e soja comprados com um litro de leite. Na média um litro de leite comprou 1,84 kg de milho e 0,93 kg de soja nestas duas décadas, com alguns momentos mais críticos onde um litro de leite comprou apenas 1,22 kg de milho em abril de 2021 e em fevereiro de 2022 quando comprou apenas 0,68 kg e soja.

Estes dois insumos são os principais formadores de preço dos concentrados comerciais que tem disponível na região, sendo, portanto, válidos para a questão que está sendo abordada da relação de troca. Atualmente (junho de 2025) a relação de troca está proporcionando que seja adquirido 2,5 kg de milho e 1,3 kg de grão de soja, estando em uma das relações mais favoráveis da série histórica.

Em um trabalho realizado com respostas de propriedades de leite do sudoeste do Paraná (Dados preliminares, Silveira, 2025), onde as unidades que afirmavam ser “a pasto” e “semiconfinadas” foi verificada a relação entre a quantidade de ração que as vacas recebiam por dia, a quantidade de silagem e a média de produção de leite das propriedades.

As vacas nesta avaliação produziram de 8 a 28 litros de média com uma quantidade de ração que variou de 0 (zero) a 11 kg por dia. A relação da produção média foi explicada em 60 % pela quantidade de ração utilizada. Verificou-se que é muito forte a relação entre a quantidade de ração e a média de produção de leite, sendo que as vacas produziram dois litros de leite a mais para cada quilo de ração ingerida acima de 8 litros de leite.

No mesmo trabalho foi observado que a quantidade de silagem oferecida para as vacas não foi influenciou significativamente a média de produção de leite. Este ponto é de vital importância no entendimento de como funciona a relação de troca e como é realizado o fornecimento de ração para os animais. Portanto a regra proposta por esta relação é que a cada dois litros acima de 8 seja utilizado um kg de ração.

Com isso, a consolidada regra de 1:3 (ou seja, um kg de ração para cada 3 litros de leite) torna-se pouco efetiva. Perceba que, para animais de baixo potencial de produção, vai gerar vacas gordas no sistema, pois não estão transformando a ração que ingerem em leite e sim, ganhando escore (que, por sua vez não gera receita).

Exemplificando, uma vaca de 9 litros diários, por essa regra, receberia 3 kg de ração, o que, tendo oferta e consumo de volumoso adequadamente, é excessivo. Ao mesmo tempo, essa regra encarece dietas de vacas de maior produção, pois nos tira o desafio de obter alta ingestão de nutrientes da base (no caso, o pasto), o que pode ser conseguido produzindo e ofertando forragem de maior qualidade em quantidade suficiente. Seguindo essa regra, uma vaca de 21 litros teria que consumir 7 kg de ração, enquanto que, temos casos no campo de propriedades produzindo isso com fornecimento de ração média na faixa de 4-5 kg, obtendo relações de 3,5 a 5 litros de leite por kg de ração fornecida.

Dessa forma, com o produtor e seu técnico, conhecendo o potencial do pasto que tem, (isto é, até onde suas vacas produzem com o pasto que ingerem), e conhecendo o potencial de suas vacas, a partir do mérito genético, podem partir deste ponto para saber qual a quantidade de concentrado que vai utilizar, ou avaliar até que ponto elas vão transformar a ração extra em leite a mais numa relação de troca que seja favorável. Exemplificaremos isso mais adiante.

Produtividade por vaca ou por hectare?

Há uma discussão entre quais dos critérios é mais relevante ou apropriado para avaliar a eficiência produtiva da produção de leite: produção por vaca, ou por área. Defensores de sistemas confinados geralmente focam na produtividade por vaca, enquanto os de sistemas pastoris valorizam mais a produção por hectare, mesmo que a produtividade por vaca seja média ou baixa.

Ambas as visões são lógicas, haja vista que, a terra é um recurso limitado e, litros por área é um bom indicador de utilização desse recurso. Ao mesmo tempo, produtividade por vaca não pode ser negligenciada e, é estratégico explorar o potencial produtivo da vaca para obter o máximo de retorno econômico.

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Sistemas de baixa produtividade por vaca, para obter alta produtividade por área, necessitam de rebanhos maiores e, isso envolve custos e mão de obra adicionais (mais vacas implica em mais infraestrutura, mais ordenha, mais vacinas, mais partos, etc.). Além disso, a mesma vaca produzindo 10 ou 20 litros, possui um gasto energético para mantença equivalente (isto é: para manter seu organismo funcionando adequadamente, mais o gasto para atividades que não de produção). Por isso, o gasto energético para ter 100 litros com 10 vacas de 10 litros é maior do que com 5 vacas de 20 litros. 

Sendo assim, propomos aqui uma estratégia para buscar o potencial produtivo dos animais, explorando ao máximo possível o pasto, que possui os custos mais baixos, visando associar as duas coisas: produtividade por vaca e por área.

Potencial da vaca

Vacas de raças especializadas como Holandesa, Jersey e seus cruzamentos, geralmente possuem potencial de produção genético muito além das produtividades encontradas em média a campo nos sistemas a pasto com suplementação. No entanto, vacas de baixo potencial de genético (que pode ser por estágio avançado de lactação, por exemplo) atingem facilmente a capacidade de produção com os nutrientes obtidos a partir do consumo de pasto e, nesse caso, não vão produzir mais leite com o uso de concentrado. Ou seja, transformarão a ração consumida em gordura corporal. 

No exemplo das propriedades do sudoeste do Paraná, citado anteriormente, vacas com potencial de 10 litros, já obtém nutrientes pra produzir cerca de 8 deles a partir da base forrageira, para os 2 litros restantes apenas – a diferença – é que é necessária suplementação concentrada. Observe que, na regra de 3:1, receberiam 3,3 kg de ração, o que além de acumular gordura corporal, aumenta custo de produção.

Por outro lado, vacas de maior potencial, mesmo em condições de abundância de pasto de alta qualidade, atingindo o máximo consumo de pasto possível, ainda não ingerem nutrientes suficientes para exprimir o seu potencial de produção. No caso dos produtores do sudoeste do Paraná, citado anteriormente, como alcançam apenas 8 litros do pasto, vacas de 30 litros de potencial possuem uma diferença de 22 litros, dos quais os nutrientes precisam ser fornecidos via suplementação para atingir esse potencial.

O que o pasto fornece

Embora o senso comum seja de que sistemas a pasto resultem em baixa produtividade, provavelmente devido às produções encontradas geralmente a campo, diversos estudos demonstram que vacas de alto mérito genético podem alcançar produtividades consideradas elevadas.

Efetuando cálculos nutricionais a partir da composição química de mais de 90 amostras de pastagens de estação quente e de estação fria cultivadas no Rio Grande do Sul (Ebert, 2018), a ingestão de nutrientes obtidos com o consumo de pasto de referência até um limite de ingestão de fibra (considerado até 1,2% de FDN do PV (Mertens, 1987), o potencial de produção obtido com esse consumo de pastagens foi de 9,4 litros/UA por dia (limitado pela energia), o que significa que, vacas holandesas de 650 kg de PV poderiam produzir 13,5 litros a partir desse consumo de pasto, atingindo a referência de consumo de fibra. 

Em uma revisão científica recente (Morales et al., 2024), os pesquisadores indicaram diversos estudos que sugerem que as vacas podem consumir valores mais altos de FDN de dietas baseadas em pastagens, passando de 1,3% e chegando a até 1,8% do PV por dia.  No mesmo estudo feito por Ebert (2018) foram demonstrados casos de propriedades que, a partir de técnicas que aumentam a produção e consumo de pastagens de alta qualidade, alcançaram e ultrapassaram essa referência de produtividade da base forrageira, assim como outras dezenas de casos que temos a campo, explicados justamente por ultrapassar essa referência de consumo de FDN tida como “limitação de consumo”.

E mais do que isso: um experimento com vacas holandesas de alta produção (Kolver & Muller, 1998) comparou o desempenho de animais em pastagem de alta qualidade com vacas em dieta completa (TMR), revelando que o teto produtivo a pasto ficou em torno de 30 kg de leite/dia, graças a um consumo diário de 19 kg de matéria seca de pasto, com boa ingestão de fibra e proteína.

Ainda assim, o grupo em TMR produziu 44 kg/dia, evidenciando que o mérito genético completo só foi atingido com suplementação energética. Dessa forma, os autores concluem que é necessário suplementar energia para atingir produções superiores a 30 kg de leite/dia em vacas Holandesas de alta produção mantidas em sistemas de pastejo intensivo.

Com base nessas informações, podemos sugerir que, há um “espaço” na dieta de vacas para alta produção, entre o consumo de pasto e a necessidade nutricional para exprimir o potencial genético. No estudo de Kolver & Muller (1998), a produtividade obtida com o pasto ficou próxima de 70% do potencial da vaca, assim como outros estudos sobre o tema também indicam. É esse espaço (para cerca de 30% da produção) que propomos que seja preenchido com a suplementação concentrada, usando a ração de forma estratégica para elevar a produção a partir desse “limite” obtido com a ingestão de nutrientes do pasto.

 

O que a ração fornece

A partir de cálculos nutricionais usando como base no NRC (1989), considerando leite a 3,5% de gordura, cada kg de uma ração tomada como referência (21% de PB), Ebert (2018), observou que cada kg de ração fornece energia e proteína suficiente para a produção de 2,2 litros de leite, acima da produção dos volumosos (desconsiderando as necessidades para mantença, a ser atendida com a forragem básica da dieta). Esse resultado é similar ao relatado acima no levantamento feito com produtores da região sudoeste do Paraná, onde, a partir dos 8 litros, a resposta ao fornecimento de ração foi de 2 litros por kg. 

Essa estimativa usou como referência a edição de 1989  do NRC 1989, por sua praticidade de aplicação e por fornecer estimativas adequadas para avaliações simplificadas em campo. O objetivo, portanto, não é promover ajustes nutricionais refinados, mas sim, viabilizar uma avaliação técnica funcional e rápida, gerando estimativas como ponto de partida para tomada de decisão a campo. O autor também observa que, embora o cálculo tenha sido feito com uma ração de referência, ela deve ser ajustada conforme a qualidade de pasto e proporção de pasto e silagem na dieta.


 

Interação Pasto x Ração

O fornecimento de ração para vacas que pastejam, porém, gera interações entre pasto x cocho que impactam no resultado produtivo. Esses efeitos podem ser aditivos, substitutivos ou combinados, como ilustrado na figura abaixo:

Figura 2

 

No entanto, é importante destacar que há uma interação direta entre o pasto e a ração concentrada. No estudo de Auldist et al. (2017), foram avaliados diferentes níveis de suplementação em cenários de baixa, média e alta oferta de forragem, utilizando vacas holandesas com produção superior a 30 litros por dia.

Os resultados mostraram que a produção de leite aumentou em todos os níveis de oferta de pasto conforme a quantidade de concentrado subiu. No entanto, esse ganho foi se reduzindo à medida que a suplementação aumentava, devido à menor utilização da pastagem — fenômeno representado como o número dois na imagem acima.

Portanto, para aproveitar os benefícios de um sistema com alto consumo de pasto pelos animais, é preciso ser cauteloso com o nível de suplementação fornecida para evitar o chamado “efeito substitutivo” e acabar diminuindo o benefício de trabalhar com alta oferta de forragem. Nesse sentido que propomos um “uso inteligente da ração”, mantendo o fornecimento do concentrado apenas para essa produção acima da obtida com o pasto.

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Esta quantidade de ração a ser utilizada não é um valor arbitrário, fixo, e sim móvel e dependente do potencial da vaca e do pasto. Um mesmo animal dependendo da fase da lactação vai responder diferente a mesma quantidade de suplemento, bem como à oferta de pasto.

É importante salientar o caráter móvel do potencial da vaca e do pasto na figura mostrada e que os produtores e técnicos tenham em mente as duas questões ao utilizar a suplementação como forma de elevar produção e lucros. Ao mesmo tempo os objetivos a serem alcançados podem ser diferentes dependendo da época do ano e da disponibilidade de insumos, além da relação de troca ou outros fatores não mencionados.

Um momento de preço favorável do leite pode ser um fator que vai gerar uma menor eficiência de conversão de ração em leite, no entanto a relação de troca pode estar favorável e o fator de conversão de litros de leite para cada quilograma de ração adicionada pode ser menor e mesmo assim ser eficiente do ponto de vista econômico.

Por outro lado, há o caso onde os animais são subalimentados e a ração seria utilizada para a manutenção das vacas e não para produção (número 4 da figura). Isto é contraindicado pelo fato destes animais estarem consumindo um alimento mais caro para preencher a mantença e nada produzirão por kg de ração ingerido. A suplementação com forragem conservada, nesse caso, é mais recomendada, tanto do ponto de vista do retorno econômico, quanto da saúde ruminal e dos riscos 

 

Uso inteligente da Ração

Com as informações apresentadas nesse artigo, sabemos que podemos:

a) Explorar o consumo de pasto de alta qualidade para buscar maior ingestão de nutrientes que alcancem maior produção a partir do pasto,

b) Utilizar rações concentradas para preencher esse “Espaço” entre a produção obtida com o pasto e o potencial da vaca, minimizando efeitos substitutivos.

Essa estratégia foi testada no estudo de Ebert (2018), em 11 propriedades assistidas pela Emater/RS-Ascar em Fagundes Varela, na Serra Gaúcha. Na média, as propriedades aumentaram a produção de leite obtida com os volumosos durante o período, saindo de 4,9 l/vaca/dia em maio para 9,4 em dezembro. Esses 4,6 litros de aumento foram obtidos com o maior consumo de forragem (mantendo o mesmo fornecimento de ração) e, permitiram um consequente aumento de 16,7 para 21,3 litros por vaca/dia. 

Replicando essa abordagem nos trabalhos de campo, utilizando estratégias para promover maior consumo de pasto de alta qualidade nutricional, esses resultados foram sendo repetidos em dezenas de propriedades e, costumeiramente, superando essas produtividades inicialmente calculadas a partir do pasto.

E essa “filosofia” de manejo da alimentação, portanto, pode ser replicada. Para fazer essa avaliação inicial, podemos considerar que, ao menos 9 litros de leite podem ser produzidos a partir dos nutrientes dos volumosos de média qualidade, por UA (a cada 450 kg de PV) e o restante do potencial da vaca, a partir da ração, na ordem de 2 litros por kg de ração.

A partir disso, é possível, primeiramente, estimar quantos litros as vacas estão produzindo atualmente dos volumosos e, a partir do resultado, buscar estratégias para produzir e obter consumo de pasto que aumente essa produção.

 

Para abandonar a regra do 3:1 na prática

Como exemplo, um rebanho com PV na faixa de 550 kg, com vacas produzindo 18 litros de média, fornecendo 6 kg de ração por vaca, na regra do 3:1:

Os 6 kg de ração fornecem nutrientes responsáveis por 12 litros. A diferença, portanto, é obtida com os nutrientes do pasto: 6 litros (18-12=6). Utilizando os 9 l/UA como referência por UA e corrigindo pelo PV, sabemos que poderiam produzir pelo menos 11 litros a partir do pasto. Ou seja: Com os 12 da ração, mais 11 do pasto, elas deveriam produzir, pelo menos 23 litros com os mesmos 6 kg de ração – e não apenas 18. 

Note que, a relação de litros de leite por kg de ração, nesse caso, se torna consequência e não método. Para alcançar isso, no entanto, é preciso buscar técnicas para oferta e consumo de pasto de alta qualidade em quantidade suficiente para suportar essa produção.

Não é raro que, utilizando técnicas avançadas de manejo do pastoreio, essas produtividades sejam extrapoladas, como já discutido aqui nesse portal nos artigos: Suas vacas têm tempo para pastar? , Pastoreio Rotatínuo: aumentando o consumo de pasto e É possível produzir 24 litros/vaca/dia somente com pasto? .

Outro ponto importante é avaliar o potencial dos animais: Caso mesmo com maior oferta e consumo de pasto de qualidade, a produtividade trave em algum ponto, ou não aumente, é preciso rever o fornecimento de ração para que ocupe apenas aquele “espaço para ração”, sem prejudicar o consumo de pasto.

No exemplo anterior, caso as vacas permaneçam nos 18 litros mesmo após efetuados ajustes do pastoreio, podemos considerar que, com forragem de qualidade média, a ração deve ser fornecida na ordem de 1 kg de ração para cada 2 litros apenas para a produção acima dos 11 litros, o que dá 3,5 kg de ração para os 7 litros de diferença (18-11). Em outras palavras, maximizando fornecimento e consumo de volumosos, os mesmos 6 kg de ração poderiam nos retornar em produtividade na faixa de 23 litros (e não 18), ou então, para 18 litros, poderíamos trabalhar com menos ração (3,5 kg), maximizando o retorno econômico do uso do concentrado.

E esse é o grande ponto chave dessa proposta: ao alterar a lógica de busca de produtividade atrelada à ração, para visando eficiência do pasto, é que se maximiza o retorno econômico da produção de leite.

 

Potencial de aumentar a lucratividade em sistemas baseados em pasto

Esses resultados mostram que é plenamente possível produzir leite de forma eficiente e lucrativa em sistemas baseados em pasto, desde que se abandone a rigidez de regras genéricas e se adote uma abordagem técnica, sensível às variáveis reais de cada propriedade.

Usar a ração de forma inteligente significa reconhecer o papel central do pasto como fonte principal de nutrientes, entender o potencial de resposta produtiva de cada vaca, e suplementar apenas o necessário para extrair o máximo retorno econômico. Essa mudança de lógica, da dependência do cocho para a valorização da base forrageira, é o caminho mais eficiente para equilibrar produção, custo e lucro na realidade da agricultura familiar brasileira.

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Material escrito por:

André Luís Finkler da Silveira

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Antônio Celso Ferreira Ferraz
ANTÔNIO CELSO FERREIRA FERRAZ

CACHOEIRA PAULISTA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 01/07/2025

Parabens pelo texto técnico e lógico. Não importa quanto produz, mas quanto custa! sou do Vale do Paráiba/SP, mar de morros. Aqui trabalho com piquetes rotacionaods ou rotatínuos no verão e silagem de mombaça no inverno. Mas o texto trouxe muitas afirmações pertinentes. Ajustes quase que diárioas são necessários. Legal.
Julio Palhares
JULIO PALHARES

SÃO CARLOS - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 30/06/2025

Ótimo artigo Leandro e André. Mostra que nada mais do que o conhecimento para darmos maior viabilidade econômica aos nossos sistemas de produção. O problema é que nem sempre só o conhecimento basta para superar os dogmas culturais e preguiçosos que vigoram em grande parte de nossa produção leiteira. É muito mais fácil e cômodo ter regras genéricas, considerando todas as propriedades como iguais, vemos este comportamento tanto em produtores(as) como em técnicos(as). Algo inconcebível quando discutimos, intensamente, temas como: margem de lucro na atividade, desinteresse dos jovens em continuar na produção, eficiência produtiva e ambiental, e por aí vai. Estamos no século XXI na era da inteligência artificial e ainda discutindo temas básicos da nutrição de ruminantes, Algo está errado!
Leandro Ebert
LEANDRO EBERT

JÚLIO DE CASTILHOS - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 02/07/2025

Temos dois mundos, enquanto um está preocupado com aditivos, ionoforos, e etc. outro está ainda com regra 1 kg de ração pra 3 L, buscando uma fórmula mágica de ração 25% e por aí vai... E me parece que esse segundo mundo é maior que o primeiro meu caro Júlio! Lamentável! Seguimos . Forte abraço!
diego barrozo
DIEGO BARROZO

MOGI MIRIM - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 29/06/2025

Parabéns aos autores!!! Adoro estudos que quebram pseudos paradigmas. Será que os cálculos e valores mudariam muito utilizando o NRC 2021?
Leandro Ebert
LEANDRO EBERT

JÚLIO DE CASTILHOS - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 08/07/2025

Obrigado Diego!

As Produtividades máximas que mostramos são essas, já com casos reais e estudos em modelos avançados de nutrição. As estimativas de consumo também estão atualizados e referenciados. Agora, referente aos potenciais de produção que estimamos com o nrc 89, parece que, para fim de estimativas, até esses níveis de produtividade, está ok. Para níveis mais elevados de produtividade é preciso de ajustes mais finos e aí precisa de modelos mais avançados, com certeza. Temos feito isso a campo e aí alcançamos produtividades mais elevadas com alto CMS de pasto, ajustando com o Nasem 2021.
Duarte Vilela
DUARTE VILELA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 24/06/2025

Parabéns pelo artigo, aborda um tema relevante e muito pouco estudado nas últimas décadas, “Leite a pasto” abrindo espaço para outros sistemas não tão eficientes.
O uso inteligente de pasto na produção de leite, a meu ver começa pela escolha da planta forrageira. Pesquisas conduzidas na Região Sudeste do Brasil, indicaram que vacas da raça Holandesa com alto potencial de produção, mantidas 24 horas em pastagem de alfafa ou de coast-cross (Cynodon dactylon), ambas forrageiras de excelente qualidade, interrompiam o pastejo nas horas mais quentes do dia, compensando no final da tarde e durante parte da noite, totalizando 8 horas diárias de pastejo. Concluíram que este tempo foi suficiente para consumirem nutrientes para permitir produções diárias de 20 kg de leite/vaca, sem comprometer o peso vivo e a eficiência reprodutiva dos animais, tendo o pasto de alfafa como único alimento ou com 6 kg de concentrado/vaca/dia, no caso da pastagem de coast-cross.
Com base em amplas revisões sobre a produção de leite a pasto de alfafa, pode-se comprovar seu potencial como alimento exclusivo (19,1 a 24,7 kg/vaca/dia) ou quando suplementado (23,1 a 35,0 kg/vaca/dia), independentemente do país onde foi conduzida a pesquisa.
Assim, recomenda-se a suplementação da pastagem de alfafa de acordo com o nível de produção de leite, para vacas com potencial de produção até 20 kg de leite/vaca, suplementar apenas com minerais, produções entre 20 e 25 kg, além da suplementação mineral, deve-se recorrer à suplementação com concentrado, preferencialmente rico em energia e, quando a produção de leite for superior a esta, além destes suplementos, incluir concentrado com proteína de baixa degradabilidade no rúmen.
Leandro Ebert
LEANDRO EBERT

JÚLIO DE CASTILHOS - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 25/06/2025

Caro Duarte! Obrigado pela sua contribuição.

Aproveito pra relatar que está sendo conduzido um estudo na universidad de Rosário - AR, em parceria com o GPEP, UFRGS, avaliando a taça de ingestão de forragem em alfafa em pastejo. Aí saberemos qual estrutura de planta que permite que se alcance maior CMS por hora de pastejo. Com essa estratégia de manejo é possível alcançar valores mais altos de CMS de pasto nessas 8 horas de pastejo diárias que tu relata. Veja que, no experimento que relatei nesse artigo abaixo, com Dactilis (qualidade química bem inferior a alfafa), a produtividade média sem suplementação foi de 24 litros por vaca no tratamento com essa estratégia de manejo, enquanto que no outro, visando colheita de forragem por área, foi de 18 litros (e perdendo escore pelo déficit de energia). A tendência é que com alfafa essa Produtividade de 24, portanto seja superada em manejo sob essa estratégia, reduzindo a necessidade de suplementação ou elevando ainda mais o nível de produtividade que indique necessidade.

Forte abraço!
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