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Você está desperdiçando o potencial produtivo de seu rebanho?

EDUCAPOINT

EM 27/08/2019

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Os animais de produção têm sido submetidos à seleção humana desde a sua domesticação original. Inicialmente, a seleção foi provavelmente limitada à docilidade e capacidade de manejo, mas nos últimos 60 anos os programas de melhoramento se concentraram no melhoramento genético de características de produção, como produção de leite. Como resultado, a indústria de produção animal sofreu mudanças dramáticas durante o século passado.

Em resposta a mudanças na preferência alimentar dos consumidores, a ênfase da seleção mudou de apenas o aumento da produção para o aumento da eficiência da produção e da qualidade do produto. O foco da produção de lácteos mudou da quantidade de leite, que foi aumentada com sucesso pela seleção intensa, para a qualidade e quantidade do leite.

Assim, o que vemos hoje é o crescimento do número de animais com potenciais incríveis de produção de leite, tanto em quantidade quanto em qualidade, mas nem sempre esse potencial é totalmente aproveitado e alcançado. Isso porque, por mais eficaz que seja, a seleção para alta eficiência de produção tem sido frequentemente associada a efeitos colaterais indesejados no bem-estar animal. Uma questão fundamental em relação a isso é a medida em que os animais podem se adaptar ao ambiente em que se encontram.

O bem-estar animal é definido como o estado do animal frente às suas tentativas de se adaptar ao ambiente em que se encontra. Portanto, quanto maior o desafio imposto pelo ambiente, mais dificuldade o animal terá em se adaptar e, consequentemente, menor será seu grau de bem-estar.

Isso significa que mesmo que seja feita uma seleção genética para animais de ponta, com os melhores índices de produção leiteira em termos de potencial de produção, parte desse potencial pode ser perdida por questões relacionadas ao bem-estar dos animais.

Podemos pensar nos animais de produção como atletas. As vacas de alta produção seriam os atletas de alta performance. Um atleta que tenha um potencial inato para determinado esporte e que tenha, além disso, se submetido a treinamentos que aprimoraram seu talento, não terá condições de exercer sua atividade no melhor desempenho se outros fatores essenciais não forem levados em consideração. Entre esses fatores, podemos citar a saúde física, a saúde emocional e as condições ambientais.

Se bem no dia de uma competição importante o atleta estiver com alguma doença infecciosa, como por exemplo, uma gripe forte, seu desempenho não será o máximo, apesar de seu talento e treino. O mesmo ocorrerá se as condições climáticas estiverem desfavoráveis às condições adaptativas desse atleta. Ou ainda, seu desempenho poderá ser prejudicado caso haja algum fator estressor de ordem emocional.

Esse atleta, então, estaria desperdiçando seu talento inato e todo o tempo e recursos destinados ao treinamento se esses outros fatores não estiverem devidamente controlados e em condições ótimas. Nem sempre isso é possível, já que existem fatores que não dependem de nossas ações, mas muitos desses fatores podem e devem ser controlados para que se alcance o objetivo almejado. Cuidados com a saúde e a nutrição são exemplos disso. Evitar correr riscos desnecessários, uma vestimenta adequada ao ambiente, entre muitas outras coisas são fatores que podem ser previstos e devidamente administrados.

O mesmo pode ser dito de animais de produção. Isso é especialmente válido para vacas de alta produção de leite, nas quais foram investidos muitos recursos, mas também é válido para todo o rebanho. Animais que estão sofrendo com questões de bem-estar, que envolvem questões de saúde física, fatores estressores, fatores nutricionais e ambientais não terão seu potencial máximo aproveitado.

Existem alguns pontos que são críticos e que precisam ser avaliados, sendo alguns deles passíveis de serem manejados de forma a reduzir seus impactos negativos.

O desafio da pressão para maior produção

A crescente seleção para produção de leite apresenta consequências negativas ao bem-estar animal, com alguns pesquisadores relatando que a seleção genética para alta produção leva a decréscimo de fertilidade e longevidade das vacas, além de altos índices de doenças inerentes à produção.

A difusão de material genético proveniente da Europa e principalmente da América do Norte foi um dos fatores responsáveis pelo aumento da produtividade das fazendas leiteiras no Brasil. Entretanto, tal processo gerou animais pouco adaptados a climas quentes. As dificuldades relacionadas à adaptação ao clima, grande demanda nutricional dos animais de alta produção associadas a possíveis falhas no manejo, podem reduzir severamente o grau de bem-estar dos animais.

A prevalência de doenças

A consideração da prevalência de doenças no rebanho leiteiro também faz parte da identificação dos pontos críticos de bem-estar animal. Portanto, o diagnóstico e o pronto tratamento das doenças são cruciais para a manutenção de um grau adequado de bem-estar animal. Além disso, o registro da prevalência de doenças e dos tratamentos realizados permite ações preventivas de controle das principais enfermidades que acometem o rebanho.

A identificação de vacas em risco de apresentar doenças pode diminuir a incidência de enfermidades no rebanho. Foi observado que vacas com maior risco de desenvolver metrite no pós-parto apresentaram redução mais severa da duração de comportamento ingestivo nos dias imediatamente anteriores ao parto. Assim, alterações na ingestão de matéria seca podem ser utilizadas para identificar vacas predispostas a metrite e outras doenças comuns ao período de transição.

Algumas doenças são especialmente relevantes para o diagnóstico de bem-estar de gado leiteiro. A mastite continua apresentando alta incidência, mesmo após o desenvolvimento de técnicas preventivas, tais como melhorias na higiene de ordenha.

Levando em conta a importância do binômio intensidade e duração para o diagnóstico de bem-estar animal, pode-se concluir que um animal apresentando mastite severa por longo período tem seu grau de bem-estar significativamente reduzido. Isto se deve aos prejuízos à saúde física do animal e ao sofrimento psicológico por causa da exposição prolongada à dor e às outras dificuldades dela decorrentes.

De maneira semelhante à mastite, as afecções do casco dos bovinos apresentam-se em altas incidências. A claudicação é um sinal clínico comum a várias doenças que afetam o casco dos bovinos. O animal afetado distribui o peso corporal de maneira desigual entre os quatro membros, levando a alterações na locomoção. Animais com claudicação severa evitam apoiar o membro afetado no chão, causando um maior desequilíbrio locomotor e sobrecarregando os outros membros menos afetados.

Poucos produtores adotam técnicas de diagnóstico e controle de claudicação nos rebanhos, sendo que alguns pesquisadores relataram que a incidência de claudicação é subestimada pelos produtores. Os autores consideram que os prejuízos ocasionados por doenças como a mastite são muito mais visíveis que aqueles causados pelas doenças do casco. Também existe a tendência de se tratar somente os casos de claudicação evidente, deixando de lado animais doentes que também se beneficiariam do tratamento, mas que não apresentam sinais tão severos.

A dor é uma característica comum da maioria das doenças do casco. Testes de sensibilidade à dor demonstram que um dos efeitos de lesões na camada córnea do casco é a diminuição no limiar de estímulo doloroso do animal. Por menor que seja a lesão, a inflamação leva a sensibilização do membro afetado. Animais doentes tendem a diminuir o tempo e a frequência de alimentação, bem como o consumo de alimento. Alguns autores também relatam um decréscimo no tempo de alimentação e um aumento no tempo total que o animal passa descansando.

O desafio da nutrição

As vacas leiteiras tiveram suas exigências nutricionais consideravelmente aumentadas nas últimas décadas, pela exacerbação de sua capacidade produtiva por meio da seleção artificial. Animais que se encontrem impossibilitados de ingerir uma quantidade adequada de nutrientes, seja por falta de alimento, conflitos sociais entre os animais do rebanho, ou alto potencial genético para produção, podem sofrer fome crônica e doenças metabólicas, principalmente no primeiro terço da lactação.

No Brasil, existe o fator da estacionalidade da produção forrageira. Em algumas regiões, a produção constante de alimento de qualidade é dificultada por períodos de seca intensa, o que faz com que a disponibilidade de forrageiras tropicais varie muito durante o ano. Quando se associa à inadequação genética ao clima, o grau de bem-estar dos animais torna-se ainda mais restrito.

O conforto das instalações

Outro fator que pode diminuir o grau de bem-estar animal é o confinamento em instalações, que pode ser agravado por projetos inadequados. As vacas necessitam de instalações limpas e confortáveis, de fácil acesso, nas quais possam se deitar e levantar com facilidade, além de manter o contato social com outras vacas.

Um projeto inadequado das instalações pode ter consequências diretas em termos de lesões nos membros dos animais, também denominadas tecnopatias, seja pela má distribuição de peso sobre eles ou por lesões de abrasão nas estruturas da baia.

O projeto das baias e da drenagem de dejetos dos corredores da estabulação livre exerce influência direta sobre a saúde do úbere, afetando o potencial de infecções bacterianas. As vacas evitam usar baias desconfortáveis, preferindo deitar-se nos corredores sujos com fezes, aumentando o risco de mastites. Adicionalmente, um material que dificulte a limpeza das camas, aumenta o risco de mastites ambientais.

A manutenção da baia e a reposição do material da cama também são importantes. Uma das principais consequências de falhas na manutenção das baias é a redução do tempo de descanso dos animais. Tal diminuição de tempo de descanso constitui uma redução direta do grau de bem-estar dos animais. Adicionalmente, a relutância em se deitar pode apresentar implicações indiretas, como aumentar a incidência ou a severidade de claudicação.

O acesso ao pasto é um fator importante para o comportamento e o bem-estar dos bovinos leiteiros. Estudos de preferência indicam que os animais não apresentam clara preferência pelo pasto ou pelo galpão de confinamento. Tal preferência parece ser condicionada ao período do dia e fatores ambientais. Apesar de a preferência variar entre galpão e ar livre ao longo do dia, a liberdade de escolha do animal constitui um aspecto positivo para seu bem-estar.

No Brasil, ao contrário dos principais países europeus e norte-americanos, o sistema de semiconfinamento é bem difundido. Tal prática pode representar uma importante vantagem em termos de bem-estar animal.

Nas instalações em locais de clima quente, áreas sombreadas e equipamentos para auxiliar na dissipação do calor são imprescindíveis. O estresse térmico tem efeitos comprovadamente negativos sobre o bem-estar dos animais e consequências sobre a produção de leite, podendo reduzir a ingestão de matéria seca e limitar a circulação de sangue no úbere, reduzindo a produção de leite e afetando o desempenho reprodutivo de diversas formas, como a redução da viabilidade de espermatozóides e óvulos.

Assim, percebe-se que boa parte destes pontos críticos é evitável, principalmente quando envolve a falta de recursos aos animais ou sua má distribuição. Outros, como a seleção genética, são menos passíveis de mudança imediata, visto que são intrínsecos aos sistemas de produção tradicionalmente utilizados.

Cabe ao produtor fazer as adaptações e os manejos necessários para que todo o potencial genético e produtivo do rebanho possa ser realizado na prática, garantindo assim o bem-estar dos animais e a rentabilidade do negócio.

Para saber mais sobre estratégias de manejo que podem fazer a diferença no rebanho leiteiro, acesse o conteúdo completo do curso Bem-estar animal: estratégias de manejo que fazem a diferença na fazenda leiteira.

Neste curso, a Zootecnista e Especialista em bem-estar animal, Lívia Magalhães, apresenta conceitos de bem-estar aplicados à produção animal, e explica como traçar estratégias dentro da fazenda, com foco na melhoria da qualidade de vida das vacas leiteiras e com expressão positiva nos índices zootécnicos.
 
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Telefone: (19) 3432-2199
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Fontes consultadas:

Métodos de diagnóstico e pontos críticos de bem-estar de bovinos leiteiros, Guilherme Borges Bond (https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/23028/Dissertacao%20Mestrado%20Guilherme%20B%20Bond.pdf?sequence=1&isAllowed=y)

The impact of genetic selection for increased milk yield on the welfare of dairy cows (https://www.researchgate.net/publication/228675305_The_impact_of_genetic_selection_for_increased_milk_yield_on_the_welfare_of_dairy_cows)
 

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