Para Luana, o papel de um bom técnico começa pela capacidade de ouvir. O produtor conhece sua fazenda como ninguém e carrega consigo um conhecimento construído diariamente na prática. Cabe ao profissional, portanto, unir essa experiência ao conhecimento técnico, aos dados e às novas tecnologias para contribuir com decisões mais assertivas. “Um bom técnico não é aquele que chega à propriedade com todas as respostas, mas aquele que sabe fazer as perguntas certas”, afirma.
A lógica, segundo ela, vai muito além de melhorar um indicador produtivo. Quando uma perda é reduzida, um resultado melhora ou a eficiência da propriedade aumenta, os impactos chegam também à rentabilidade e à qualidade de vida da família que vive da atividade. “Quando conseguimos melhorar um indicador, reduzir uma perda ou aumentar a eficiência, não estamos transformando apenas a produção de leite, mas também a rentabilidade e a qualidade de vida daquela família. Para mim, esse é o verdadeiro propósito da assistência técnica.”
Tecnologia não faz milagre sozinha
Ao olhar para sua trajetória, Luana aponta o acompanhamento de propriedades durante processos de implantação e adaptação à ordenha robotizada como uma das experiências mais marcantes de sua carreira.
A vivência reforçou uma percepção que também orienta sua atuação: a tecnologia pode ampliar possibilidades, mas não substitui pessoas, processos e conhecimento. “Essa experiência me ensinou que tecnologia, sozinha, não faz milagre. É preciso olhar para pessoas, animais, manejo, alimentação, instalações e dados como partes de um mesmo sistema.”
A ordenha robotizada, nesse contexto, não pode ser analisada de maneira isolada. A adoção de uma nova tecnologia envolve adaptação da propriedade e das pessoas, mudanças de manejo e acompanhamento dos resultados.
Foi também nesse processo que Luana reforçou outra convicção: não existe uma receita pronta para todas as fazendas. “Cada propriedade tem sua realidade e seu ritmo. Resultado sustentável nasce quando conhecimento, pessoas, processos e tecnologia trabalham juntos.” A frase resume uma das características que, para ela, deve estar no centro da assistência técnica: a capacidade de compreender o contexto antes de propor mudanças.
Do dado à decisão
Para os próximos anos, Luana vê a produção de leite brasileira diante de desafios conhecidos, como competitividade, controle de custos, mão de obra, qualidade do leite, gestão e sucessão.
Ao mesmo tempo, identifica uma oportunidade importante: a profissionalização das propriedades leiteiras. Nesse cenário, a tecnologia terá papel relevante, principalmente pela capacidade de ampliar a geração de dados e automatizar processos. Mas, para a veterinária, acumular informações não será suficiente. “O grande diferencial será transformar esses dados em decisões.”
A afirmação aponta para uma mudança importante na maneira de enxergar a tecnologia dentro da fazenda. Mais dados não significam necessariamente melhores resultados se as informações não forem utilizadas para orientar decisões. “O futuro não será apenas de fazendas mais tecnológicas, mas de fazendas mais eficientes e mais preparadas para tomar decisões.”
A curiosidade que move a evolução
Se existe uma característica capaz de diferenciar produtores que evoluem continuamente daqueles que encontram mais dificuldades, Luana aponta a curiosidade.
É o produtor que não se conforma simplesmente com o “sempre foi assim”, mas procura entender as razões por trás dos resultados da própria propriedade. “Para mim, uma das principais características é a curiosidade: o produtor que pergunta ‘por que isso está acontecendo?’ em vez de simplesmente aceitar que ‘sempre foi assim’.”
Essa postura, segundo ela, vem acompanhada de outras atitudes importantes: acompanhar resultados, estar aberto a aprender e avaliar novas possibilidades sem perder de vista a realidade da própria fazenda. Mas existe outro elemento fundamental: a constância. “Não é uma grande mudança que transforma uma fazenda, mas dezenas de pequenas decisões corretas tomadas de forma consistente.”
A visão coloca a evolução da propriedade menos como resultado de uma grande transformação pontual e mais como consequência de um processo contínuo de aprendizado, acompanhamento e tomada de decisão. Conhecimento abre a porta. Confiança faz permanecer.
Se a curiosidade é essencial para quem produz, a capacidade de ouvir é indispensável para quem presta assistência técnica. Para os profissionais que estão começando na atividade, Luana deixa um conselho direto: estudar muito, mas aprender a ouvir ainda mais. “O conhecimento técnico abre a porta da fazenda, mas é a confiança que permite permanecer nela.”
Construir essa confiança, segundo ela, exige abandonar a necessidade de provar que o técnico sabe mais do que o produtor. “Não chegue querendo provar que sabe mais que o produtor de leite. Observe, pergunte, entenda a realidade da propriedade e tenha humildade para dizer ‘eu não sei’ quando for necessário.”
A postura, porém, não significa abrir mão do conhecimento técnico. Pelo contrário. Luana defende que a confiança é construída justamente pela combinação entre preparo, honestidade e presença. “Reputação é consequência de consistência: faça um bom trabalho, seja honesto e esteja presente quando o produtor precisar.” É uma visão de assistência técnica baseada menos na figura do profissional que chega com todas as respostas e mais naquele que consegue construir, junto com o produtor, as perguntas que precisam ser respondidas.
A técnica que transforma também precisa escutar
Ao longo das respostas, Luana apresenta uma concepção de assistência técnica que acompanha as mudanças pelas quais a produção de leite vem passando.
A fazenda leiteira está cada vez mais cercada por tecnologias, indicadores e informações. Ao mesmo tempo, continua sendo uma atividade profundamente dependente de pessoas, de manejo e das particularidades de cada propriedade. É justamente nesse encontro que, para ela, está o papel do técnico.
Não basta conhecer uma tecnologia. É preciso compreender se ela faz sentido para aquela fazenda. Não basta acompanhar indicadores. É necessário saber interpretá-los e transformá-los em decisões. Não basta levar conhecimento. É preciso também reconhecer o conhecimento que já existe dentro da propriedade.
No fim, a assistência técnica de impacto parece começar antes mesmo da recomendação: começa pela escuta. E talvez seja justamente por isso que, para Luana, um bom técnico não seja aquele que chega com todas as respostas, mas aquele que sabe fazer as perguntas certas.
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